Em um país onde a desigualdade social é um fato básico da vida e a ascensão pelo trabalho é quase uma ilusão, as plataformas de apostas online (bets) encontraram terreno fértil. Mais do que um fenômeno econômico, as bets se tornaram um problema de saúde pública, alimentado pela conivência de políticos, pela captura algorítmica da subjetividade e pela promessa falaciosa de enriquecimento fácil. Em entrevista ao jornalista Edison Veiga, do Estadão, analiso como as bets exploram a vulnerabilidade social, comparo experiências internacionais de regulação e proponho caminhos para enfrentar essa calamidade.
Trechos da conversa foram utilizados na matéria Epidemia de bets tem solução? O que o Brasil pode aprender com outros países, publicada originalmente em 27/06/2026. Abaixo a conversa na íntegra.
1 – De forma geral, como você analisa o cenário das bets no Brasil? Já podemos dizer que mais do que um problema econômico, se tornou um problema de saúde pública?
Infelizmente, com a conivência do Congresso e de personalidades com influência sobre o público, que irresponsavelmente lucram com a desgraça alheia, o cenário das bets no Brasil ultrapassou a dimensão econômica e se consolidou como um problema crônico de saúde pública.
Tratar as bets como um mercado em expansão, que apenas carece de regulação e deve pagar impostos, é uma forma de reducionismo cínico. O que as plataformas de aposta digital fazem é capturar a subjetividade dos jovens e das classes populares, por meio de uma combinação perversa de algoritmos de engajamento, marketing agressivo e a promessa de ascensão social rápida. E essa é uma combinação poderosa numa sociedade com gritantes desigualdades sociais e econômicas, naturalizadas pelo andar “de cima”, confortável no seu mundo protegido e que grita contra toda expansão de direitos, como agora, no caso da redução da jornada de trabalho com manutenção de salário.
Aos humildes, com direitos historicamente negados, resta conviver com os atalhos da promessa do enriquecimento fácil, que nada mais faz do que drenar a sua renda para exploradores. Este é um mecanismo muito semelhante ao descrito pelo economista grego Yanis Varoufakis em sua análise do tecnofeudalismo. O que aproxima as bets do fenômeno por ele descrito é que elas não se limitam a explorar a mais-valia do trabalho, mas se apropriam dos dados, da atenção e da esperança do indivíduo apostador. E essa é a tragédia do vício. Ele não é um acidente, mas parte integrante do modelo de negócio anunciado por artistas, jogadores de futebol e outras subcelebridades, sempre com a advertência de que se deve “jogar com responsabilidade”.
Como negócio absolutamente predatório, o modelo das bets prospera no Brasil porque se alimenta de pessoas em condição de vulnerabilidade social e econômica, vítimas da pobreza e da falta de perspectiva de ascensão pelo trabalho. Nesta terra na qual a dignidade está no mando e não no labor, herança da escravidão, somente a crença na sorte pode aliviar a vida precarizada e os direitos violentados por uma elite insensível ao destino do próprio povo.
Somente essa insensibilidade explica a transformação do Brasil em um cassino, com a legalização das apostas feita sem o devido debate sobre os seus impactos sociais. Políticos irresponsáveis, falando em nome de uma suposta liberdade econômica, se esqueceram de que o Estado também atua como protetor do interesse público e não apenas como facilitador do lucro privado. É exatamente por isso que assistimos ao aumento expressivo do endividamento familiar, do vício em apostas, dos casos de depressão e de suicídio. Essas são tragédias que formam um quadro sistêmico que poderia ter sido evitado se tivéssemos um Congresso a olhar pelo cidadão.
2- Você tem acompanhado de alguma forma como outros países estão lidando com o problema e buscando coibir os abusos? Se sim, poderia dar alguns exemplos?
Não conheço em profundidade a experiência internacional. Sei que a Noruega, o Reino Unido e a Austrália, países com sociedades muito diferentes da brasileira, adotaram medidas que vão além da mera regulação técnica. As informações disponíveis dão conta de que foram enfrentadas a questão da publicidade das plataformas e do acesso fácil a elas. Ou seja, o cerne do problema.
A Noruega estabeleceu o monopólio estatal para apostas online, reservando ao Estado a exclusividade de operar o setor por meio de duas empresas públicas. Com isso, impôs controle rigoroso sobre a publicidade e limites para os depósitos, diminuindo consideravelmente o estímulo ao vício. O modelo não é perfeito, pois uma parcela do mercado migrou para plataformas estrangeiras acessadas pela internet, mas representa uma opção política clara: o jogo como concessão pública controlada, e não como negócio privado entregue ao apetite do mercado.
No Reino Unido, os clubes da Premier League chegaram a um acordo coletivo para retirar marcas de apostas da frente de suas camisas a partir da temporada 2026-27, tornando-se a primeira liga do país a tomar tal medida. Há também restrições ao horário de publicidade de bets na televisão. O processo foi gradual e ainda não abrange todas as formas de patrocínio, mas sinaliza uma mudança cultural e regulatória relevante.
O caso da Austrália é mais ousado em alguns aspectos. Desde junho de 2024, está proibido o uso de cartões de crédito para apostas online, medida que busca impedir que o apostador jogue com dinheiro que não tem. Foi criado também o BetStop, um sistema nacional de autoexclusão no qual os usuários se cadastram para bloquear o próprio acesso às plataformas, com dezenas de milhares de registros ativos. Os resultados ainda estão sendo avaliados e há críticas de que os apostadores mais compulsivos simplesmente migraram para outros meios de pagamento, o que mostra que nenhuma medida isolada resolve o problema.
Em comum, as experiências da Noruega, do Reino Unido e da Austrália mostram que é preciso ir além da mera regulação legislativa. O mais importante é desestimular o consumo, criando barreiras ao acesso às plataformas e impedindo a publicidade. O jogo deve ser encarado como vício e não como um simples negócio. É de saúde pública que se trata. A conversa da liberdade econômica é falaciosa e explora a doença.
3 – Que soluções você acredita que o Brasil poderia tomar?
Enfrentar a calamidade criada pelas bets reclama o concurso de especialistas de múltiplas áreas, mas me permito sugerir algumas ações para que pensemos numa possibilidade de enfrentamento comum e organizado.
Há que se fazer a regulação rigorosa e a fiscalização ativa do negócio. Para tanto, o primeiro passo é a proibição da publicidade massiva que normaliza o jogo como algo inofensivo. Concomitantemente, a limitação do acesso às plataformas é urgente. Deve ser exigida a verificação de idade, e o depósito deve ser rigorosamente limitado a um valor mínimo, comprovado conforme a renda do usuário. Não bastasse, parte dos lucros do negócio deve ser destinada a programas de saúde mental e dependência química, não para o caixa geral do Estado, por meio do exercício do monopólio sobre o jogo ou de parcerias público-privadas, o que reduziria, também, o apelo comercial hoje exercido pelas bets.
Noutra frente, o tratamento do vício em apostas deve ser objeto de políticas públicas de saúde, com equipes especializadas no SUS, e amparado por amplas campanhas de conscientização sobre como operam as bets. A rede de educação deve informar os jovens sobre a dinâmica digital e a captura da atenção pelos algoritmos. É preciso enfrentar a ilusão do autocontrole neste capitalismo dominado por big techs e explorado por plataformas.
4 – Fique à vontade para complementar com informações adicionais e/ou correlatas.
O que causa indignação é a perversidade da situação criada com a legalização das bets. O Estado arrecada impostos com as apostas e falha miseravelmente na proteção da sociedade, permitindo que os cidadãos, sobretudo os mais vulneráveis econômica e socialmente, sejam submetidos aos danos causados pelo jogo descontrolado.
As bets são um negócio bilionário e seu lobby é poderoso. Os cidadãos são lembrados apenas a cada eleição. São quase um estorvo para os que decidem no Congresso.
Enquanto se normaliza o vício, a democracia brasileira deteriora rapidamente, e as bets contribuem para aprofundar esse processo. A normalização das apostas, assim como a exploração da teologia da prosperidade protestante, corrói a noção de coletividade. Em uma sociedade que reduz tudo ao indivíduo, ao seu esforço e à sua sorte, não sobra espaço para a noção de bem comum. Tudo é mercantilizado: até o destino é para quem pode comprar, e não construção política coletiva.
