A armadilha do catastrofismo: o desespero como produto do capitalismo

Vivemos uma era de catastrofismo fabricado. A insegurança é vendida como verdade absoluta, a esperança como ingenuidade, e a ação coletiva como ilusão. Em um mundo onde as redes digitais e a mídia corporativa ditam o que é real, não surpreende que muitas pessoas se refugiem na conservação da ordem. Mas essa não é a saída.


Uma pessoa comum, submetida às redes digitais e ao jornalismo da mídia corporativa, tem razões de sobra para acreditar que as instituições estão corrompidas e que a esquerda é a principal responsável pela tragédia. Logo, por consequência, sobra-lhes refugiar-se na conservação da ordem. Essa é uma atitude aparentemente sensata, pois os que falam em mudança não passam de impostores, destruidores da segurança, criadores de caos. Mas será isso mesmo?

O catastrofismo das manchetes e das análises dos especialistas da mídia corporativa, bem como a difusão da mentira industrializada nas redes digitais, atormentam as pessoas e geram desespero. O ruído informacional paralisa o homem e a mulher comuns em um mundo que exige sua ação. E essa é a lógica do capitalismo desde sempre. O sistema econômico-social é dinâmico por necessidade, destrói identidades fixas, transforma ambientes, move pessoas pelo espaço e corrói a segurança. Ao mesmo tempo, vende a ideia de que todos ganham com isso. Sua superestrutura jurídica e política é criada exatamente para manter o conformismo.

O problema é que, apesar dos professores acríticos, dos pastores, dos jornalistas e dos influenciadores, a realidade se impõe. Grupos cada vez maiores de pessoas são vitimados pelo movimento não refreado do sistema econômico e são desprezados como dejetos. E a sensação de ser engolido, de ficar de fora, pesa. Diante de uma lógica cultural que afirma que todos estão inseridos e podem crescer, ser uma das vítimas do movimento é compreendido como fracasso pessoal. Faltam referências cognitivas para compreender o que ocorre. E é isso que acomete a imensa maioria.

Essa gente foi formada para imaginar que libertar-se da insegurança sistêmica é uma tarefa individual, que depende do esforço próprio e do trabalho duro. Esse catecismo, longe de libertar, como escreveu Max Weber, em 1904, representa sua desumanização e seu autoencarceramento: “Ninguém sabe ainda a quem caberá viver nessa prisão. […] Nesse caso, ‘os últimos homens’ desse desenvolvimento cultural poderiam ser designados como ‘especialistas sem espírito, sensualistas sem coração, nulidades que imaginam ter atingido um nível de civilização nunca alcançado’.” É por isso que não sentem prazer verdadeiro em viver e necessitam de coisas mortas, como o capital e o que ele pode comprar, para se autoafirmar. Sem isso, não são nada.

Diante de um mundo que lhes nega a humanidade, mas afirma que podem alcançar tudo comprando e acumulando coisas, é óbvio que necessitam de bodes expiatórios. São levados a isso por aqueles que os tratam como gado. Isso confirma sua impotência. É assim que desgraçados olham para o cadafalso e enxergam a libertação. Seu ressentimento é socialmente criado e explorado politicamente contra os de sua própria classe. Em nome das ficções que habitam suas mentes, manipuladas pelas religiões, voltam-se para um passado idealizado, como se ele estivesse congelado e pudesse retornar ao presente, trazendo a segurança. Isso justifica o reacionarismo político.

Não se emancipa quem vive preso às ilusões de época, aos produtos da mente e ao passado idealizado. Na verdade, esse ser está condenado à iteração, à repetição sem fim dos mesmos erros, como uma mosca aprisionada sob um copo, batendo em suas bordas a cada tentativa de fuga. Grita por deuses, reclama a depuração social, busca um juiz ungido, mas fica preso a uma disposição determinista, segundo a qual a ação transformadora é nula e não há como imprimir sentido ao movimento do sistema econômico e social. E é exatamente isso o que desejam os donos do mundo.

Homens e mulheres modernos estão condenados a uma experiência vital, segundo a qual, como explica Marshall Berman em Tudo o que é sólido desmancha no ar, glosando Marx, tudo está impregnado pelo seu contrário. E é preciso alegria e coragem para enfrentar esse mundo. Nele, nada está dado em definitivo. Tudo está com o final em aberto e depende de nós decidir o curso da história.

No Brasil de nossos dias, um juiz evangélico do Supremo Tribunal, parlamentares reacionários, pastores espertalhões, jornalistas empregados na mídia corporativa, professores acríticos e influenciadores nas redes digitais espalham mitos desmobilizantes, amparados em moralismo rasteiro e contando com a alienação das pessoas. No entanto, estas precisam saber que essa coisa chamada mercado não é sagrada nem natural, e que lutar para modificá-lo é demonstração de crença na humanidade.

Se os pobres hoje têm acesso à saúde e à educação públicas, por exemplo, não é devido aos deuses ou ao mercado, mas à sua ação política. A esquerda — e não a direita — conquistou o que hoje parece pouco, mas é muito, os direitos sociais e trabalhistas. Imagine viver sem isso? Imagine envelhecer sem previdência?

O problema das pessoas comuns não é apenas a corrupção, mas ela é um problema.

A emancipação não virá da resignação nem do isolamento, mas da organização e da luta. O futuro não está dado, e cabe a nós decidir seu curso. Se os direitos que hoje parecem naturais foram conquistados pela ação política, por que não lutar para ampliar essa vitória? A esquerda não é a vilã dessa história. Ela é, e sempre foi, a única força capaz de transformar o desespero em esperança ativa.


Notas:

BERMAN, Marsall. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura na modernidade. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. 6ª edição. São Paulo: Livraria Pioneira Editora, 1989.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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