Em uma época em que o debate público foi reduzido ao espetáculo da indignação encomendada, a democracia não morre por um golpe dramático, mas pela erosão silenciosa do pensamento crítico. O verdadeiro campo de batalha contemporâneo não é apenas político ou econômico; é a disputa pelo controle do nosso imaginário e pela sobrevivência da própria educação pública.
A política, nesta era de redes digitais, foi reduzida à indignação fabricada. A mídia corporativa e os influenciadores parecem nada mais fazer do que moldar uma realidade distorcida, de acordo com determinados interesses. Este é um sintoma desse tempo, em que a informação se tornou moeda de manipulação e triunfa sobre as pessoas e a vida vivida. A “não-coisa”, do título de um ensaio de Byung-Chul Han, esvazia o espaço público de sentido autêntico e o preenche com estímulos que colonizam o imaginário e induzem à raiva e ao ressentimento.
Até a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na televisão se organiza de acordo com essa lógica torta, sobrepondo o fútil ao relevante. Diante de nós, a materialização da crise civilizatória que acomete a sociedade política, na qual a hierarquia da informação foi substituída pela lógica do clique, do engajamento e da polarização.
A democracia, compreendida como governo dos mais, se vê asfixiada em um ambiente onde a mentira e a banalidade competem com vantagem com a verdade e a profundidade. Cidadãos acríticos e desinformados são incapazes de governar as próprias vidas, quanto mais de decidir sobre o destino comum. Não é o comportamento corrompido dos políticos ou magistrados que está destruindo nossas instituições, mas a colonização do imaginário, um processo em que a capacidade de pensar criticamente é substituída pela passividade de consumir estímulos.
Alexis de Tocqueville enxergava a democracia como uma ordem equilibrada entre liberdade e igualdade. Porém, ela não sobrevive quando os participantes não são informados e autônomos. Se a informação é sequestrada e manipulada, como vemos hoje, o “governo dos mais” conduz ao seu oposto, produz horrores. As pessoas se transformam em marionetes dos que controlam os meios.
Essa algaravia das manchetes — que fabricam um novo escândalo a cada dia — é amplificada pelas redes digitais com seu ruído estridente. O resultado é um caos informacional no qual a atenção é fragmentada e a indignação, fabricada. A consequência é a verdade relativizada e a morte da capacidade crítica. Tudo passa a ser uma questão de opinião, de gostar ou não gostar, de “nós contra eles”. É o triunfo do ódio.
A democracia está morrendo. Não de um golpe, mas pela erosão fabricada da capacidade crítica das pessoas. Sem cidadãos autônomos, informados e capazes de deliberar, todo o edifício institucional do Estado moderno desmonta. E é isso que está em curso.
Os poderosos da tecnologia e das finanças e seus satélites na política e na mídia corporativa avançam ferozmente em direção a esse objetivo. Expõem a multidão a estímulos que impedem a concentração e fragmentam a atenção; capturam dados pessoais para controlar e manipular comportamentos; e, o que é cínico, fazem isso vendendo a ilusão de que entregam liberdade, informação e conexão.
Sob o capitalismo, a tecnologia, que poderia libertar e fazer avançar a humanidade, é usada para explorar. Os oligarcas das big techs, os rentistas e seus aliados fazem exatamente isso. Eles são os que querem retroceder a roda da história, daí o caráter fascista de sua ação política: um fascismo disfarçado de inovação, que se alimenta da ignorância fabricada e da passividade das massas.
É preciso clareza no diagnóstico. A luta em defesa da democracia é política e tem corte de classe. Quem controla os meios de produção digital controla também a informação, o comportamento e o futuro. Essa gente é contra a regulamentação da exploração dos dados, dos algoritmos e das plataformas porque extrai renda e poder disso.
O futuro dependerá de quem controlará a tecnologia. Os poderosos, hoje, submetem os trabalhadores e comunidades inteiras à opressão, dizendo oferecer liberdade. A ignorância fabricada reclama uma resistência em nível cultural. Não se trata de impedir o avanço da automação, mas de atuar para formar cidadãos críticos e autônomos, que façam da tecnologia uma ferramenta de progresso, não de opressão. E esse é um esforço pela desalienação.
A educação crítica é a única capaz de desmontar a farsa. E a extrema-direita sabe que, sem cidadãos capazes de pensar, questionar e agir, seu projeto de poder não enfrenta resistência. Por isso, ataca professores, escolas e universidades públicas. A luta pela democracia, portanto, não é apenas política ou tecnológica, mas é, acima de tudo, cultural. E é nela que devemos investir.
