A extrema-direita brasileira e a submissão da soberania

No 7 de Setembro de 2025, uma bandeira norte-americana de proporções gigantescas foi desfraldada na Avenida Paulista por manifestantes bolsonaristas. A cena resume melhor do que qualquer discurso o projeto político da extrema-direita brasileira: enriquecimento privado e submissão da soberania.


A extrema-direita brasileira apresenta três pré-candidatos à presidência da República: Romeu Zema, Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado. São ricos, bem-nascidos, com uma origem muito diferente da imensa maioria do povo que pretendem governar.

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, é herdeiro do conglomerado empresarial de sua família, com atuação no comércio varejista de móveis, eletrodomésticos e autopeças, distribuição de combustível, revenda de veículos e serviços financeiros. Ronaldo Caiado, governador de Goiás, é médico ortopedista e membro da oligarquia rural do estado. Sua família é ligada tradicionalmente à política e aos interesses dos donos de terras e do agronegócio. E, por fim, Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que fez fortuna na política, iniciou a carreira pública como deputado estadual, em 2005. No período em que exerceu mandato na Assembleia do Rio de Janeiro, até 2018, antes de se tornar senador da República, viu seu patrimônio declarado saltar de R$ 385 mil para R$ 1,74 milhão, com um crescimento expressivo de 397%1.

Apesar de se afirmarem como combatentes da corrupção, os três ricos candidatos da extrema-direita não estão imunes às denúncias envolvendo as suas vidas públicas. Sobre Romeu Zema, sua gestão foi investigada pela Polícia Federal por um esquema bilionário de corrupção na mineração, que articulava lobistas, empresários e mineradoras em um esquema criminoso para dominar a Serra do Curral, com suspeita de desvio de recursos públicos e favorecimentos a empresas2. Não bastasse, seu governo também foi investigado por contratos milionários com empresa suspeita por fraudes na área da educação3, denúncia de improbidade administrativa por uso irregular do Fundo de Erradicação da Miséria4 e relações com o banqueiro Daniel Vorcaro5.

Ronaldo Caiado, o candidato que parece fazer da probidade a sua marca, apresentando-se como o campeão da decência, também não está imune às suspeitas. O pré-candidato pelo PSD é acusado de ter recebido recursos ilícitos do bicheiro Carlinhos Cachoeira para as suas campanhas eleitorais de 2002, 2006 e 2010, conforme denúncia do ex-senador Demóstenes Torres (DEM)6. E o seu governo, via Agência de Fomento de Goiás, usou uma fintech que aparece investigada na Operação Carbono Oculto, a BK Bank, por atuar como banco paralelo do PCC, para movimentar 1,36 bilhão em programas de transferência de renda entre 2021 e 20257. E há ainda a denúncia de que um parente usou da influência na Secretaria de Segurança Pública do estado para tramar um assassinato que resultou em outras sete mortes8.

Flávio Bolsonaro, da fantástica loja de chocolates9, foi acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de enriquecimento ilícito por meio do esquema conhecido como “rachadinha”, algo que teria aprendido com o seu pai, também político. A patranha funcionava com a contratação de assessores nos gabinetes que devolviam parte dos salários, e era lavada em transações imobiliárias10. Agora, explode o escândalo da relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, investigado por fraude no sistema financeiro e ligações com o PCC. Este teria entregado US$ 10 milhões de um total combinado de até US$ 24 milhões para supostamente financiar um filme sobre Jair Bolsonaro. O problema é que o dinheiro foi parar num fundo nos Estados Unidos, onde vive um irmão foragido da Justiça brasileira e que conspira contra o país11.

Os três paladinos da extrema-direita não são apenas ricos, moralistas e políticos que, como muitos outros homens públicos no Brasil, carregam suspeição. Eles também são favoráveis à sujeição da soberania brasileira aos Estados Unidos. E isso fica claro no aplauso à classificação, pelo governo Donald Trump, do PCC (Primeiro Comando da Capital) e do CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas, como resultado do lobby feito pelos irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro junto a autoridades norte-americanas.

Para a família Bolsonaro, que tem o pai Jair Bolsonaro preso por tentativa de golpe de Estado e um dos membros autoexilado nos Estados Unidos para fugir da Justiça brasileira, o destino dos concidadãos pouco importa. O seu negócio é o enriquecimento privado por qualquer meio, como demonstra a história do clã12. Interessa perguntar qual a motivação de Zema e de Caiado em defender uma medida arbitrária que, no limite, submete a República que pretendem governar à legislação dos Estados Unidos. Eles não se sentem humilhados, ofendidos, em ver um governante estrangeiro tratar o Brasil como quase uma colônia, uma extensão do seu domínio ou, para ser mais preciso, do seu império?13  A resposta está na agenda comum dos três, que os unifica como candidatos desse ente que as mídias e gurus de economia definem como “o mercado”.

O estrato social que se abriga sob a designação de “o mercado” é contrário à Constituição de 1988 e aos direitos sociais nela consagrados e defende o Estado mínimo. É um grupo composto sobretudo por rentistas, que parasita a sociedade brasileira e tem como horizonte social Miami e o gosto duvidoso de sua arquitetura e estilo de vida. Para justificar a crítica à Constituição e a sua promessa de uma cidadania ampliada, os seus membros gritam que o Estado é ineficiente e o trabalhador improdutivo e até preguiçoso. Reclamam do excesso de feriados e dos muitos direitos. Usam argumentos alinhados com a teologia da prosperidade norte-americana, obviamente evangélica, em contradição com a matriz ibérica e católica da formação social brasileira, e atacam o que chamam de privilégios14. É para estes que pretendem governar Romeu Zema e Ronaldo Caiado, os apologetas locais da política do trickle-down, segundo a qual pobre não pode ter direitos e o rico precisa ter incentivos, com isso, os primeiros são obrigados a trabalhar e os segundos têm motivos para investir. Coisa bastante humana e certamente democrática.

Para os candidatos da extrema-direita e para “o mercado”, a sociedade brasileira é apenas um espaço a explorar. Este é o motivo de considerarem irrelevantes ofensas à ordem democrática, ao sistema da justiça e à soberania nacional. A única coisa que os tira do sério é a reivindicação de um direito que possa beneficiar o povo, como demonstram no debate sobre a redução da jornada de trabalho15. O desgraçado que conduziu à morte milhares de brasileiros por negar a compra de vacina durante uma pandemia e por incompetência na operação logística em Manaus é aplaudido; o trabalhador que reclama direitos é tratado como um pária em seu próprio solo. O governante estrangeiro que humilha a pátria é idolatrado; o presidente de todos os brasileiros é tratado como inimigo nas feiras agrícolas, mesmo garantindo financiamento recorde para as safras.

É por este motivo, por enxergarem a sociedade apenas como um negócio, que os candidatos da extrema-direita são úteis para “o mercado” e funcionais aos interesses estrangeiros que sabotam a soberania. Um país dependente, com Estado mínimo e riqueza a venda, sem leis que protejam o território e regulem a exploração das riquezas naturais é mais lucrativo para quem opera com finanças globalizadas. Zema e Caiado não aplaudem Trump porque o admiram, mas porque com Lula, que defende a Constituição de 1988, há regulação, tributação e distribuição. E isso constitui uma ameaça ao modelo de acumulação que os sustenta.

No jogo que será jogado quando começar de fato a campanha eleitoral, o trio da extrema-direita tem um lado, e não é o do povo brasileiro. Política é também expressão da luta de classes. No atual momento do capitalismo, em que o trabalho vê ameaçadas as suas conquistas históricas e a geografia se redivide entre os impérios, os três bem-nascidos da extrema-direita, apesar das gradações internas, são a expressão de pautas que imobilizam e conservam o status quo. São a reação do establishment num momento em que o novo não tem energia ainda para nascer. E detonam, portanto, uma grande tragédia.

Já vimos isso. Basta lembrar. Em 1954, um presidente se suicidou e atrasou em 10 anos um golpe de estado. Na ocasião, ele denunciou a campanha subterrânea de grupos internacionais aliados aos grupos conservadores de dentro do país em luta contra os interesses dos grupos nacionais. Na ocasião, o salário-mínimo, a criação da Petrobrás e da Eletrobrás foram pretexto. Agora, são terras raras, minérios e liderança regional que estão em questão. É uma orgia que se repete.


Notas

  1. Quatro perguntas sobre a nova mansão de Flávio Bolsonaro e o caso da rachadinha. In: BBC News Brasil. 2 março 2021. Disponível em < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-56257133 > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  2. Como operação contra fraudes na mineração em MG afetou alto escalão do governo Zema. In: g1 Minas. 19 setembro 2025.  Disponível em < https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/noticia/2025/09/19/como-operacao-contra-fraudes-na-mineracao-em-mg-afetou-alto-escalao-do-governo-zema.ghtml > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  3. De Helder Barbalho a Romeu Zema: secretário de Educação é responsável por contratos de R$ 850 milhões com empresa suspeita de fraude. Por Thalys Alcântara. In: Intercept Brasil. 20 abril 2026. Disponível em < https://www.intercept.com.br/2026/04/20/helder-barbalho-romeu-zema-secretario-educacao-contratos-850-milhoes-empresa-suspeita-fraude/ > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  4. Oposição denuncia Zema por improbidade administrativa. O Estado de Minas. Por Ana Mendonça. 24 abril 24. Disponível em < https://www.em.com.br/politica/2024/04/6844448-oposicao-denuncia-zema-por-improbidade-administrativa.html > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  5. Bola de neve: Zema, Vorcaro e suas relações com o crime organizado. Por Bella Gonçalves. In: Mídia NINJA. 11 dezembro 2025. Disponível em < https://midianinja.org/opiniao/bola-de-neve-zema-vorcaro-e-suas-relacoes-com-o-crime-organizado/ > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  6. TORRES, Demóstenes. Denúncia de recursos ilícitos de Carlinhos Cachoeira para campanhas de Ronaldo Caiado. Senado Federal. 2012. (Depoimento). ↩︎
  7. Bola de neve: Zema, Vorcaro e suas relações com o crime organizado. Por Bella Gonçalves. In: Mídia NINJA. 11 dezembro 2025. Disponível em < https://midianinja.org/opiniao/bola-de-neve-zema-vorcaro-e-suas-relacoes-com-o-crime-organizado/ > Acesso em 29/05/2026 ↩︎
  8. Primo de Ronaldo Caiado vira réu por assassinato de ex-aliado do governador. In: O tempo. 26 março 2024. Disponível em < https://www.otempo.com.br/brasilia/primo-de-ronaldo-caiado-vira-reu-por-assassinato-de-ex-aliado-do-governador-1.3355106 > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  9. Flávio Bolsonaro é chamado de Willy Wonka após receber R$ 1,6 milhão por chocolates. In: Rolling Stone. 20 dezembro 2019. Disponível em < https://rollingstone.com.br/noticia/flavio-bolsonaro-e-chamado-de-willy-wonka-apos-receber-r-16-milhao-por-chocolates/ > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  10. Flávio comprou 19 imóveis por R$ 9 mi, diz MP ao pedir quebra de sigilo. Por Fernando Molica. 15 maio 2019. In: Veja. Disponível em <  https://veja.abril.com.br/politica/exclusivo-flavio-bolsonaro-comprou-19-imoveis-por-r-9-milhoes-diz-mp/ > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  11. O filme de terror de Flávio Bolsonaro. Opinião do Estadão. In: O Estado de S. Paulo. 15 maio 2026. Disponível em < https://www.estadao.com.br/opiniao/o-filme-de-terror-de-flavio-bolsonaro/ > Acesso em 29/05/2026. ↩︎
  12. Flávio prova que extrema-direita é um projeto de enriquecimento. Por Por Matheus Pichonelli. 14 maio 2026. In: IG. Disponível em < https://ultimosegundo.ig.com.br/politica/2026-05-14/a-extrema-direita-e-um-projeto-de-enriquecimento-pessoal.html > Acesso em 30/05/2026. ↩︎
  13. Para efeito de compreensão, recorro à clássica distinção entre Dominium e Impeirium, segundo a qual o primeiro refere-se à propriedade (poder sobre coisas) e o segundo à autoridade (poder sobre pessoas e normas). ↩︎
  14. Não há estímulo para sair do Bolsa Família, diz Luciano Huck. Por Nicolas Proença. In: Poder 360. 23 maio 2026. Disponível em < https://www.poder360.com.br/poder-economia/nao-ha-estimulo-para-sair-do-bolsa-familia-diz-luciano-huck/  > Acesso em 30/05/2026. ↩︎
  15. Empresários se reúnem com Alcolumbre para atrasar fim da 6 X 1. In: Poder 360. 26 maio 2026. Disponível em < https://www.poder360.com.br/poder-economia/empresarios-se-reunem-com-alcolumbre-para-atrasar-fim-da-6-x-1/ >  Acesso em 30/05/2026. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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