Se um deputado muçulmano ou um vereador umbandista tentasse transformar o Congresso em mesquita ou terreiro, a mídia corporativa gritaria “separação entre Estado e religião”. Mas quando é o neopentecostalismo que faz isso, o tratamento normalizado ainda persiste em muitos editoriais. Por quê?
Em um dos espetáculos mais deploráveis do Congresso brasileiro, o plenário Nereu Ramos da Câmara dos deputados virou púlpito evangélico improvisado. Isso aconteceu em outubro de 2015. Com a participação do presidente da Casa, Eduardo Cunha, pastores e deputados oraram, cantaram louvores e concluíram com um show da cantora gospel Aline Barros. Os mesmos jornalistas que não poupam o Executivo por governar para todos, nem o Judiciário por interpretar a Constituição quando provocado, silenciam quando deputados e senadores transformam o Legislativo em templo, algo que se tornou corriqueiro desde então. O Executivo é populista; o Judiciário, ativista; mas o Legislativo, subvertido à revelia da Lei Maior, é tratado como natural.
A existência de uma bancada da Bíblia e a realização de cultos nos espaços do Congresso são um escárnio à República laica. O Estado brasileiro não é teocrático, e o espaço público, que pertence a todas as crenças, inclusive àqueles que não têm nenhuma, merece o respeito que lhe é devido.
Isso não é casual. Desde que a ascensão da extrema-direita foi incentivada por setores das elites financeiras, do agronegócio e por interesses estrangeiros, a religião foi instrumentalizada como arma política, alimentando a polarização e a guerra cultural na sociedade. O resultado é a disseminação da ideia de que o processo legislativo deve se basear em dogmas religiosos de certos grupos, em detrimento do destino comum dos cidadãos.
Eu poderia ter citado aqueles cristãos americanos do “arrebatamento’ cuja poderosa influência sobre a política americana no Oriente Médio é governada por sua crença bíblica no fato de que Israel tem um direito garantido por Deus a todas a terras da Palestina.
Richard Dawkins
A democracia amesquinhada pela retórica religiosa é resultado da militância de prosélitos nas igrejas e nos meios de comunicação social, que falam de Deus contra demônios, reduzindo a política, assim como a vida em geral, a uma espécie de guerra espiritual. Os adversários são inimigos a serem vencidos a todo custo e não devem ser sequer ouvidos, pois praticam a sedução maligna que desviará o fiel do caminho reto. É dessa forma que pautas legítimas, originadas na dinâmica de uma sociedade complexa como a brasileira, são criminalizadas e tratadas como pecados a serem combatidos. A simples menção ao direito das mulheres e das minorias, por exemplo, é blasfêmia.
Essa situação reflete as articulações internacionais dessa extrema-direita, de seus apoiadores e de seu candidato a presidente. Sua raiz está nos Estados Unidos e em movimentos evangélicos que buscam influenciar a política com base numa interpretação ultraconservadora de passagens bíblicas, insinuando que a terra deve ser dominada pelos seus1. O fim é a submissão de todas as esferas da sociedade a uma visão teocrática e fundamentalista de mundo, apoiada no que se convencionou chamar de teologia do domínio.
A teologia do domínio vai além da conversão individual. A doutrina propõe que os cristãos evangélicos devem exercer a autoridade sobre a sociedade, impondo valores bíblicos sobre todos os setores da vida, numa espécie de restauração da “nação de Deus”. A ideia é organizada sobre a teoria dos sete montes2, que são esferas de influência a serem conquistadas: a religião, a família, a educação, o governo, a mídia, as artes e o entretenimento e os negócios. A política é estratégica para o intento de controlar e influenciar. Portanto, nada de separação entre fé e política; nada de respeito à laicidade do Estado.
Políticos de extrema-direita e pastores evangélicos atuam de forma coordenada, hoje, em pautas como o fim do ensino crítico (Escola Sem Partido) e a inserção de ensino confessional em escolas públicas; controle ou criação de veículos de mídia evangélicos (redes de rádio, televisão e portais de internet); ocupação de cargos estratégicos na República; e, nos negócios, o empreendedorismo como expressão da teologia da prosperidade. Essa é uma batalha pela hegemonia cuja consequência, ao fim, será a imposição de uma espécie de teocracia, com a abolição da Constituição cidadã e o fim do pluralismo e das liberdades. O paradoxo da tolerância, de Karl Popper, se realiza na prática: os fundamentalistas dominam por não terem sido freados3.
Se não podemos pensar por nós mesmos, se não estamos dispostos a questionar a autoridade, somos apenas massa de manobra nas mãos daqueles que detém o poder.
Carl Sagan
A mobilização da religião como arma política é o perigo maior à democracia brasileira e ajuda a compreender a dissonância cognitiva que afeta amplos setores da população, influenciados por uma retórica que substitui a razão pela revelação. A fé, incentivada por autoproclamados apóstolos, bispos e pastores que vendem unções e falam com desenvoltura sobre demônios, política e Deus, é um fim em si mesmo. Pessoas cegas, em nome de uma moral absoluta, como a religiosa, agem dogmaticamente. Essa é a chave explicativa para a onda de intolerância que varre o cotidiano. O irracionalismo encontra os seus alvos nos professores, nos intelectuais e em todos que apresentam o modo científico de pensar, sem o qual o debate público fica inviabilizado e a guerra civil deixa de ser inaceitável para ser sagrada.
No belo livro O Mundo Assombrado pelos Demônios, o físico Carl Sagan argumenta que houve um tempo, no século XX, em que os professores eram avaliados pela sua capacidade de ensinar e inspirar as gerações, apresentando a ciência como “parte integrante da magnífica tapeçaria do conhecimento humano”4. Isso seria importante porque esta é também um modo de pensar. E, quando as pessoas não adquirem ou perdem essa capacidade, serão incapazes de distinguir entre o que dá prazer e o que é verdade, escorregando para a superstição e a escuridão, levando consigo as sociedades5.
Os Estados Unidos são o único país, entre as democracias ricas, com alto nível de adesão à religião; e também o que mais sofre com altos índices de homicídio, aborto, gravidez adolescente, doenças sexualmente transmissíveis e mortalidade infantil.
Sam Harris
É Richard Dawkins, em Deus, um Delírio, que alerta vigorosamente para os riscos da religião. Segundo ele, a fé religiosa é como um vírus que infecta a mente das pessoas. As sociedades seculares, continua, são mais éticas em termos de respeito aos direitos humanos que as religiosas e, sobretudo, tendem a ser menos violentas e mais tolerantes. A moral não depende de Deus: é construção humana e social. Quando se impede o reconhecimento dessa verdade, impedindo o ensino de sociologia, de história ou de ciências biológicas nos currículos escolares, o que se está fazendo, de fato, é doutrinando as crianças e os jovens, levando-os a pensar por inércia6.
Nesse sentido, Sam Harris vai além. Em Carta a uma Nação Cristã, ele argumenta que certezas religiosas abjetas, proferidas por figuras públicas, conduzem pessoas ao abismo, impedindo a pavimentação de uma civilização global7. Para ele, a moral é uma questão de bem-estar humano, não de obediência a dogmas. Quando a política é guiada pela fé, e não pela razão, a democracia se corrói.
A religião agrava e exacerba os conflitos humanos muito mais do que o tribalismo, o racismo ou a política jamais poderiam fazer.
Sam Harris.
A transformação do Congresso em púlpito, o crescimento da bancada evangélica e sua aliança com a extrema-direita, inclusive com o Projeto 2025 da Heritage Foundation, não são fenômenos isolados. Fazem parte de um projeto hegemônico que une oligarcas, autoritários e fundamentalistas: uns querem manter o poder econômico e político; outros, voltar a um passado mítico, em que a religião ditava as leis e a ciência era heresia. Figuras como Steve Bannon (estrategista de Trump), Aleksandr Dugin (ideólogo do eurasianismo) e o falecido Olavo de Carvalho (guru do bolsonarismo), cada uma a seu modo, convergem na aversão à modernidade8. A fé evangélica, nesses casos, não é espiritual, mas uma ferramenta de dominação.
A ciência, as instituições democráticas e o pluralismo são os alvos. E, enquanto a sociedade não reagir, o objetivo é atingido. Defender, portanto, o muro entre o púlpito e o plenário é, antes de tudo, defender a própria liberdade.
Notas
- A teologia do domínio, ou dominionism, tem suas raízes em correntes teológicas estadunidenses, como as de R.J. Rushdoony (fundador da Christian Reconstructionism), que defendem a submissão de todas as esferas sociais à lei bíblica. No Brasil, a adaptação dessa doutrina foi impulsionada por líderes como Silas Malafaia e Edir Macedo. ↩︎
- A teoria dos sete montes (ou Seven Mountain Prophecy) é um conceito central da teologia do domínio, popularizado por figuras como Lance Wallnau e Bill Bright. Ver Eliseu Pereira. Teologia do domínio: uma chave de interpretação da relação evangélico-política do bolsonarismo. In: Projeto História. São Paulo, v. 76, Jan.-Abr., 2023. Pp. 147-173. Disponível em < https://www.researchgate.net/publication/370576214_Teologia_do_Dominio_Uma_chave_de_interpretacao_da_relacao_politica_evangelico-bolsonarista > Acesso em 09/05/2026. ↩︎
- “A tolerância ilimitada pode levar ao desaparecimento da tolerância. Se estendermos a tolerância ilimitada até àqueles que são intolerantes; se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância.” Karl Popper. A sociedade aberta e seus inimigos. Tomo I. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1987. P. 289. ↩︎
- Ele se refere ao currículo planejado por Robert M. Hutchins, na Universidade de Chicago, em que o status do professor quase não guardava relação com a sua pesquisa, algo que não acontece mais. “Considerava-se impensável que alguém desejasse ser físico sem conhecer Platão, Aristóteles, Bach, Shakespeare, Gibbon, Malinowski e Freud – entre muitos outros.” Carl Sagan. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no escuro. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. P. 15. ↩︎
- Carl Sagan. Op. cit., p. 38-40. ↩︎
- Richard Dawkins. Deus, um Delírio. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. ↩︎
- Sam Harris. Carta a uma nação cristã. São Paulo: Cia. das Letras, 2007. ↩︎
- Ver Benjamin R. Teitelbaum. Guerra pela eternidade: o retorno do tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Campinas: Editora da Unicamp, 2020. ↩︎

Que excelência realidade escrita, só podia ser de um sociólogo com visão extremamente humanista, existencialista, com críticas verdadeiras em respeito a bancada neopentecostal, que assombra nossa Democracia. . Obrigado. Mas isso tudo me deixa depressivo. A história se repete… A Alemanha se arrepende, mas as ideias implantadas se ressurgem… Gde abraço
Obrigado, Sílvio. Um abraço