O Supremo Tribunal Federal tornou-se o alvo de uma campanha orquestrada por setores da grande mídia, de políticos conservadores e de elites econômicas. As críticas desproporcionais ao órgão não são inocentes. Elas seguem um roteiro autoritário global, com paralelos claros nos Estados Unidos de Trump e na Hungria de Orbán: ataques às instituições, criação de crises artificiais, uso das redes digitais para amplificar versões e propostas de “reformas” que, na prática, visam capturar o Estado.
A forma como a mídia tem tratado o Supremo Tribunal Federal (STF) merece atenção. Parece, ao menos, desproporcional o peso das críticas ao órgão máximo do Poder Judiciário quando se observa o Congresso e o comportamento de seus membros. A mesma comparação pode ser feita em relação aos governadores dos estados e a certos setores da elite financeira. O foco nos ministros do STF não parece inocente e, tampouco, motivado pelo mais alto interesse público. Há algo mais a ser observado.
Autores que se debruçaram sobre a ascensão do que pode ser qualificado como um movimento internacional de ataque às democracias dão pistas para o que parece ser um roteiro autoritário, com etapas e táticas comuns, implementado no Brasil neste momento1. O que vemos tem paralelo com os Estados Unidos de Trump e sua aliança com a FOX News, e com a Hungria de Orbán e o uso da mídia. Há, aqui, os ataques às instituições (o STF); a tentativa de criar crises; o uso das redes digitais para amplificar o impacto das notícias e dos editoriais; a proposição de reformas institucionais “milagrosas” (reforma do STF); a normalização do discurso autoritário (cassação de ministros do STF, quebra de sigilos de pessoas não investigadas); e a criminalização da oposição. O nome disso é fascismo.
Não é possível provar, mas se pode conjecturar que o objetivo manifesto da deslegitimação do Supremo seja a captura do Estado para garantir a implementação de uma agenda de interesse de poderosos grupos privados. A sabotagem da democracia conquistada pelo povo brasileiro em suas lutas terá como ganhadores o consórcio formado entre as finanças, os oligarcas das Big Techs e os grupos conservadores. Sem a barreira da Justiça, com um Congresso esvaziado em sua representatividade e uma mídia submissa, a desregulamentação econômica, o conservadorismo moral e o autoritarismo político não encontrarão barreiras. A sociedade estará subjugada.
É o que faz pensar que estamos diante de mais uma crise fabricada em nossa história. A grande mídia do Rio de Janeiro e de São Paulo tem reproduzido uma estratégia que guarda paralelos com a FOX News e com a mídia estatal húngara quando se trata de atacar o Poder Judiciário, amplificar crises e reivindicar insistentemente o retorno ao que chamam de “equilíbrio institucional”. A desproporcionalidade das críticas ao STF fica evidente em editoriais e colunas recentes2. Já O Globo, por meio de sua colunista, repetiu narrativas de “parcialidade” e “corrupção” contra ministros da Corte, usando fontes anônimas e silenciando o contexto de que o STF agiu para proteger a democracia dos atos golpistas de 8 de janeiro de 20233. Até o uso de pesquisas de opinião para justificar o descrédito de um Poder está em curso.
Editoriais, jornalistas e colunistas têm se esmerado em desgastar o Supremo Tribunal Federal, justamente a Corte que atuou fortemente para proteger a democracia brasileira, ameaçada de morte pelo bolsonarismo. Disseminam a ideia de que o STF é um poder sem limites; usam o discurso de que é necessário restaurar o equilíbrio entre os Poderes para normalizar os ataques aos ministros; e, não bastasse, silenciam diante de contextos nitidamente autoritários, como as propostas de emenda à Constituição que limitam a atuação judicial, ignorando e ocultando ao público o seu papel constitucional.
O que assistimos não é novo, embora guarde contornos inéditos. Getúlio Vargas, durante o seu último período de governo democrático (1951–1954), enfrentou um cerco semelhante. A União Democrática Nacional (UDN), partido que representava as elites, e a imprensa conservadora pressionavam as instituições, incluindo o Judiciário, exigindo uma postura enérgica contra o “populismo” e a suposta corrupção do governo. O objetivo era fabricar uma crise e deslegitimar o presidente. Na época, porém, os ataques eram focados na tentativa de usar o Judiciário como instrumento de oposição eleitoral; inexistia a intenção aberta de desmantelar a autoridade da Corte, distinção importante que não deve ser confundida com o período do Estado Novo (1937–1945), quando Vargas de fato dissolveu o Congresso e subordinou o Judiciário. Isso se tornou meta sistemática após o desdobramento da Operação Lava Jato e as denúncias de lawfare que a envolveram. A mídia corporativa, que se empenhou fortemente para criar o ambiente favorável à condenação de políticos, servindo de porta-voz ao juiz e aos promotores da operação, voltou-se contra o Supremo Tribunal Federal quando este retomou seu papel garantista, anulou provas e reconheceu a parcialidade nos processos.
Pela primeira vez, parece haver uma campanha permanente contra o STF, com uso de redes digitais e discurso conspiratório que lança os ministros como inimigos da sociedade e insinua práticas de corrupção na Corte. Esta é uma aliança entre mídia, políticos e milícias digitais. O alvo é a democracia e sua última barreira de defesa. Os direitos conquistados em jornadas históricas do povo brasileiro estão sob ameaça concreta, assim como o patrimônio nacional. É preciso, como diz o trecho da canção de Caetano Veloso4, “estar atento e forte”.
Notas
- Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem, 2018; Jason Stanley, Como Funciona o Fascismo: A política do ‘nós’ e ‘eles’, 2018. Ver também Madeleine Albright, Fascismo: Um Alerta, 2018. ↩︎
- Folha de S.Paulo, editorial de outubro de 2024. Disponível em: < https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/10/limitar-decisao-monocratica-ajuda-equilibrio-institucional.shtml >. Acesso em 22/03/2026.
O texto elogiou a PEC que limita decisões monocráticas dos ministros do STF como “avanço para o equilíbrio institucional”, ignorando que a proposta foi impulsionada por setores bolsonaristas e que ministros da Corte a consideraram inconstitucional. ↩︎ - Malu Gaspar, coluna em O Globo. Disponível em: < https://oglobo.globo.com/blogs/malu-gaspar/coluna/2024/11/o-desconforto-no-stf-com-a-decisao-de-alexandre-de-moraes-de-levar-golpistas-para-1a-turma.ghtml >. Acesso em 22/03/2026.
A colunista reproduziu narrativas de “parcialidade” e “corrupção” contra ministros como Alexandre de Moraes, com base em fontes anônimas, silenciando o contexto de que o STF agiu para proteger a democracia dos atos golpistas de 8 de janeiro de 2023. ↩︎ - “Divino Maravilhoso” (1968), de Caetano Veloso e Gilberto Gil, gravada por Gal Costa no álbum Gal (1969). ↩︎
Bibliografia
Madeleine Albright, Fascismo: Um Alerta. São Paulo: Planeta, 2018.
Jason Stanley, Como Funciona o Fascismo: A política do ‘nós’ e ‘eles’. Porto Alegre: L&PM Editores, 2018.
Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018
