A morte das humanidades: como a universidade brasileira se tornou uma escola de obediência

A universidade brasileira deixou de ser um espaço de formação crítica para se tornar uma linha de produção de sujeitos obedientes. Sob o argumento da ‘empregabilidade’ e da ‘eficiência’, as humanidades foram esvaziadas, a reflexão foi substituída pela técnica, e o que restou foi uma geração adestrada para o mercado e suscetível aos discursos autoritários que hoje ameaçam a democracia.


É inegável que houve um avanço no acesso ao ensino superior no Brasil, sobretudo durante os governos petistas. Entretanto, nesse mesmo período, a educação crítica e humanística foi sendo relegada à lateralidade. E, enquanto isso acontecia, a jovem democracia de 1988 definhava, a ponto de chegarmos à tentativa de sua supressão em 2023 e à eclosão de movimentos autoritários e até mesmo fascistas atualmente.

O processo de esvaziamento das humanidades não parece acidental, apesar de não ser linear e não ter iniciado com o PT. Ele atende a pressões por uma universidade vocacional, voltada ao mercado. Trata-se de uma exigência global, orientada para a empregabilidade e a eficiência, em detrimento da formação do sujeito crítico e da esfera pública de qualidade, essenciais à vida democrática. É um movimento de consequências civilizacionais, que ajuda a compreender o bolsonarismo e a violência que atravessa a vida nesta quadra de nossa história.

Se fôssemos regredir na história em busca de um marco inicial, no Brasil, a ditadura militar, com a sua Reforma Universitária de 1968, pode ser responsabilizada por ter iniciado um processo que culmina no que vemos hoje: a redução progressiva da formação superior à dimensão tecnocrática e instrumental, esvaziando a própria ideia de universidade e produzindo jovens cada vez menos vinculados à história e ao destino da sociedade em que vivem.

O neoliberalismo da passagem dos anos 1980 para os anos 1990 e a imposição da novilíngua, que passou a tratar a educação como investimento em “capital humano”, significaram a consolidação de uma nova matriz de pensamento. Áreas nas quais o retorno econômico não é visto como imediato e quantificável foram relegadas à lateralidade. E isso marginalizou, de modo persistente, a filosofia, as ciências sociais e as letras. Disciplinas não foram eliminadas, mas perderam prestígio, enquanto especialistas passaram a ser, não raro, estigmatizados.

Com o avanço do ensino superior privado, ainda que sob um modelo de amplo incentivo público, a situação se aprofundou. A educação passou a ser vista como “investimento” do indivíduo, perdendo progressivamente a ligação com o bem comum. A novilíngua neoliberal impôs o seu domínio sobre a subjetividade, e o mercado passou a reorganizar a própria ideia de sociedade. A financeirização tornou-se uma cultura, acompanhando a transformação de um capitalismo crescentemente orientado por dinâmicas financeiras. Ao penetrar no cotidiano, na linguagem e nos valores, essa lógica faz com que os alunos se enxerguem como “capital humano” que necessita da universidade para se valorizar. Pouco mais do que isso.

É nesse terreno que a extrema-direita avança com maior facilidade, apoiando-se em uma esfera pública fragilizada. Ela explora não apenas o desinteresse, mas também o empobrecimento do repertório crítico de gerações formadas sob esse modelo. A dificuldade de pensar o mundo e a própria condição social favorece a produção de sujeitos ressentidos e, por vezes, inclinados à simplificação violenta da realidade. Estimulados a desejar, mas frequentemente desprovidos de instrumentos para compreender a natureza de seus desejos e de suas frustrações, esses indivíduos aproximam-se, em alguma medida, da massa descrita por Reich em outro contexto histórico. A perda de profundidade na leitura e na atenção, marcada por fragmentação e dispersão, contribui para esse quadro, ainda que esses mesmos sujeitos permaneçam funcionais às lógicas produtivas contemporâneas.

É possível especular que chegamos, hoje, ao momento culminante de uma reconfiguração epistemológica no ensino superior. O que acontece com a universidade, com os alunos e com a democracia é fruto desse movimento que deslocou profundamente as humanidades e, com elas, abriu mão da formação do pensamento crítico, em favor da centralidade de métricas, indicadores e da linguagem matemática como critério dominante de validade. A ontologia implícita nisso é a de que só adquire legitimidade o que pode ser mensurado, formalizado e modelado. A novilíngua do neoliberalismo foi, assim, constituindo uma subjetividade propensa ao autoritarismo, na qual perguntas sobre lógica e história perdem relevância, e em que as contradições e ambiguidades constitutivas dos fenômenos tendem a ser ignoradas. Trata-se de um modelo de mundo que busca tornar impronunciável a crítica à sua própria legitimidade. O anti-intelectualismo converte-se em virtude. E chegamos, assim, à submissão crescente ao algoritmo. O homem rendido à coisa.

E, no entanto, algo resiste nos interstícios: no aluno que se perturba com uma questão sem resposta, no professor que recusa a capitulação silenciosa, no espaço público que, fragmentado e ruidoso, ainda abriga o dissenso. A requalificação da esfera pública democrática não é uma tarefa que se conclui, mas é uma prática que se reinicia, sempre que alguém se recusa a aceitar o mundo como ele é. Essa recusa, ainda que minoritária e dispersa, é a única forma de resistência à altura do que foi perdido.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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