A nau dos insensatos: o Brasil às vésperas da eleição

Em 1494, Sebastian Brant lançou ao mundo uma nau tripulada por tolos. Mais de cinco séculos depois, o Brasil embarca sem notar que o navio não tem rumo. O leme está nas mãos dos que acumulam todos os vícios que comprometem um destino: a ganância, o abuso do poder e o desprezo pelo bem comum.


Em setembro, durante uma cerimônia de colação de grau, um paraninfo julgou oportuno atacar um Poder da República para lembrar aos formandos que a profissão na qual ingressavam reclama ética. O episódio foi um dentre tantos que, dia após dia, se tornaram corriqueiros na sociedade brasileira, com pessoas considerando caluniar autoridades e investir contra as instituições da democracia algo banal, tão simples como respirar.

O Supremo Tribunal Federal, órgão máximo do Poder Judiciário e instituição fundamental da democracia brasileira de 1988, guardião do maior patrimônio de todos os cidadãos, que é a Constituição, tornou-se a vítima da sociedade. Os juízes, graças aos maus políticos e a jornalistas apressados, passaram a ser vistos como os responsáveis por todos os males do presente, do passado e vindouros. A revolução, se vier, há de condená-los à guilhotina para realizar sua tarefa regeneradora.

A alienação é tamanha que uma emissora de televisão considerou viável cancelar, horas antes de colocar no ar, um debate presidencial que havia anunciado, atribuindo a decisão à “insegurança jurídica”. A expressão fazia referência a decisões judiciais de última hora, entre elas a inclusão de mais um candidato no evento. O problema está no desdobramento, uma vez que em seus programas jornalísticos, a emissora reverberou a consternação, com analistas criticando o Judiciário sem estudar as decisões dos juízes e explicá-las tecnicamente ao telespectador. O objetivo, aparentemente, era investir contra o bode expiatório da programação diária, o Supremo Tribunal Federal.

Em uma sátira moral impressa em 1494, Sebastian Brant alerta sobre a falta de juízo coletivo e como ela pode comprometer a comunidade. A sociedade brasileira, que está prestes a decidir sobre o seu futuro neste mês de outubro, encaixa-se perfeitamente na retórica do autor nascido em Estrasburgo, no antigo Sacro Império Romano-Germânico. Ela se encontra em um navio sem rumo, conduzido por tolos rumo à Terra da Insensatez. Os que se apresentam como sábios navegantes, na verdade, são os que acumulam todos os vícios que comprometem o destino: a corrupção, a prática da usura, a ganância, o gosto pela ignorância, o abuso do poder e o desprezo pelo bem comum. São os que enriquecem à custa do dízimo dos fiéis ou das operações do Banco Master, que financiou uma produção hollywoodiana sobre o ex-presidente antes de ser liquidado extrajudicialmente pelo Banco Central1.

Em A Nau dos Insensatos, título do livro de Brant, que serve de metáfora para o Brasil de nossos dias, há uma galeria de tolos. Alguns merecem ser destacados por estarem no proscênio nestes dias, seja como timoneiros ou como passageiros do navio. Há os que recusam ouvir pessoas prudentes e agem de modo obstinado a serviço do “mito”; há os falsos sábios que inundam as redes digitais e desprezam a sabedoria moral, acreditando saber mais do que sabem; há os especuladores do mercado financeiro, que arriscam bens alheios e fazem do ganho a finalidade única de vida; há os ricos inúteis, que ostentam modo de vida no TikTok; há os religiosos corruptos, que vivem no luxo; há os pecadores presunçosos; e há, também, os que servem a dois senhores…

A galeria é extensa, mas reúne tipos de todos os estratos sociais que trocam o discernimento e a busca pelo bem comum por vaidade, ganho privado imediato e adesão acrítica a uma facção. E é exatamente a falta de crítica que parece embalar os insensatos que fazem profissão de fé num candidato a presidente cujas realizações, em quase um quarto de século como político profissional, são pequenas e controversas, com alcance público limitado.

Um dos timoneiros do navio merece exame detido. Flávio Bolsonaro iniciou a carreira política em 2002, aos 21 anos. Na ocasião, foi eleito para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde tomou posse como deputado em 2003, sendo reeleito em 2006, 2010 e 2014. Foram quatro mandatos consecutivos, com a aprovação de 12 projetos2. Eleito para o Senado em 2018, tomou posse em 2019 e não teve nenhum projeto de sua autoria transformado em lei3. O seu patrimônio, ao contrário da produção legislativa nos níveis estadual e federal, conheceu um aumento espetacular: saltou de um automóvel Gol 1.0, em 20024, para R$ 8.186.555,83 declarados ao Tribunal Superior Eleitoral, em 20265, uma evolução de 370% em oito anos, de 2018 a 2026 (214%, conforme cálculo da Folha6), período em que cumpriu mandato como senador e que coincidiu, em parte, com a presidência de seu pai, condenado a 27 anos e 3 meses de prisão por tentativa de golpe de Estado e hoje em prisão domiciliar.

Reportagens e colunas facilmente encontradas na internet, nos sites do Globo7, da Folha de S.Paulo8 e da Veja9, apontam que a principal causa da evolução patrimonial dos últimos oito anos é a aquisição de uma mansão no Lago Sul de Brasília, avaliada em R$ 6,2 milhões. Mas há uma desconexão entre esse aumento e os rendimentos declarados por Flávio Bolsonaro no período. Isso faz lembrar que, apesar de não haver condenação criminal contra o político, pesam contra ele suspeitas formais e investigações por corrupção. A mais recente é a da Polícia Federal sobre o pedido de R$ 61 milhões ao dono do Banco Master para financiar Dark Horse, filme sobre a vida do pai, com indícios de lavagem de dinheiro e corrupção10. A mais rumorosa, entretanto, é a do caso das “rachadinhas”. Em 2020, o Ministério Público do Rio de Janeiro o denunciou, juntamente com Fabrício Queiroz, apontado como operador financeiro do esquema, por organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro e apropriação indébita de parte dos salários dos seus assessores na Assembleia Legislativa; entre os denunciados figurava também o miliciano Adriano da Nóbrega. O valor supostamente desviado, segundo a denúncia, chegava a R$ 6 milhões, mas o caso nunca foi julgado no mérito pois a denúncia foi arquivada em 2022, depois que o STJ e o STF anularam as provas por irregularidades processuais11.

Não bastasse, há evidências de que Flávio Bolsonaro pretende submeter, caso eleito, a soberania do Brasil aos desígnios neocoloniais de Donald Trump e de seus aliados radicais do Partido Republicano. O alinhamento estratégico para combater o crime organizado, explorar minerais críticos e receber investimentos diretos é afirmado pelo próprio candidato e foi tratado em suas conversas com o líder norte-americano e com pessoas próximas a ele no Departamento de Estado12. Em encontro de direitistas no Texas, o próprio Flávio explicitou que enxerga o Brasil como a “solução” para os Estados Unidos reduzirem a dependência da China, o que, salvo engano, nos reduziria a fornecedores de produtos primários e compradores de manufaturados e tecnologia13.

Mas há os que estão embarcados nesta Nau rumo à Terra da Insensatez. Estão felizes, mesmo que na terceira classe. Cantam Pape Satàn, pape Satàn aleppe!, o enigmático verso que abre o Canto VII do Inferno, na Divina Comédia, de Dante Alighieri. Não por acaso, ele foi utilizado por Umberto Eco como título de um livro no qual estão reunidas crônicas de uma sociedade na qual a fragilização de todos os vínculos duráveis e reais, sobretudo pela aceleração da informação, leva as pessoas a naufragar no boato e na desinformação, sem conseguir separar fato de opinião. É isso que ajuda a compreender a violência dos que reagem antes de ouvir, que aceitam a informação fragmentada no lugar da contextualização histórica, que não querem a posição divergente e que se deixam mobilizar pelas emoções. É a gente que queima santos, destrói reputações e vota com o fígado.

Enquanto isso, um Poder da República está sob ataque e, com ele, a Constituição e o próprio Estado Democrático de Direito.

No poema de Brant, a nau jamais chega. Os tolos afundam na própria estultícia, sob o peso dos vícios que embarcaram. Em outubro, o Brasil decide se zarpa de vez ou se ainda há tempo de saltar ao cais.

Notas:

  1. Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Master. In: < Banco Central decreta liquidação extrajudicial do Banco Master >. Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  2. A trajetória de Flávio Bolsonaro: de deputado mais jovem do Rio a senador sob suspeita — Jornal O Globo. In: < A trajetória de Flávio Bolsonaro: de deputado mais jovem do Rio a senador sob suspeita – Jornal O Globo > . Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  3. Flávio mirou segurança sem transformar projetos em lei — 29/05/2026 — Política — Folha. In: < Flávio mirou segurança sem transformar projetos em lei – 29/05/2026 – Política – Folha > Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  4. A trajetória de Flávio Bolsonaro: de deputado mais jovem do Rio a senador sob suspeita — Jornal O Globo. < A trajetória de Flávio Bolsonaro: de deputado mais jovem do Rio a senador sob suspeita – Jornal O Globo > Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  5. Flávio Bolsonaro declara patrimônio de R$ 8,18 milhões, valor quase cinco vezes superior ao de 2018 – O Globo. In: < Flávio Bolsonaro declara patrimônio de R$ 8,18 milhões, valor quase cinco vezes superior ao de 2018 > Acesso em 03/10/2026 ↩︎
  6. Flávio Bolsonaro eleva patrimônio em 214% após imóvel — 13/08/2026 — Painel — Folha. In: <Flávio Bolsonaro eleva patrimônio em 214% após imóvel – 13/08/2026 – Painel – Folha > Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  7. ver nota 5. ↩︎
  8. Ver nota 6. ↩︎
  9. A evolução do patrimônio de Flávio Bolsonaro desde sua última eleição — VEJA. In: < A evolução do patrimônio de Flávio Bolsonaro desde sua última eleição | VEJA >. Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  10. Flávio Bolsonaro pediu R$ 61 milhões a banqueiro para filme do pai — G1. In: < Flávio Bolsonaro pediu R$ 61 milhões a banqueiro para filme do pai | G1 >. Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  11. ‘Rachadinha’: o que aconteceu com caso que envolve filho de Bolsonaro – BBC News Brasil. In: < ‘Rachadinha’: o que aconteceu com caso que envolve filho de Bolsonaro – BBC News Brasil > Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  12. Senador brasileiro e candidato à presidência Flavio Bolsonaro se encontra com Trump na Casa Branca — Reuters. In: < Senador brasileiro e candidato à presidência Flavio Bolsonaro se encontra com Trump na Casa Branca | Reuters >. Acesso em 03/10/2026. ↩︎
  13. Flávio diz que Brasil é “solução para EUA ter minerais de terras raras” — CNN Brasil. In: < Flávio diz que Brasil é “solução para EUA ter minerais de terras raras” | CNN Brasil >. Acesso em 03/10/2026. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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