George Orwell imaginou um mundo governado pela mentira organizada. Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força. A América Latina corre o risco de se tornar esse lugar: uma sombra projetada por uma potência em crise que, incapaz de liderar pelo exemplo, recorre à manipulação, à Novilíngua e aos seus capatazes locais para segurar o que já não se sustenta.
Ao pensar no avanço da extrema-direita na Argentina, no Chile, na Colômbia, no Equador e no Brasil me lembrei do clássico de George Orwell, 1984. A distopia apresenta logo nas primeiras páginas um Ministério da Verdade, no qual o personagem Winston Smith, conseguia ler os lemas do partido na fachada: guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força1.
Todos os países citados foram colônias e, em comum, partilham uma história marcada por autoritarismo político, desigualdades sociais, perseguições aos dissidentes. E, ainda assim, parte considerável de suas populações, principalmente a mais pobre, despeja seus votos em candidatos que agem como sabujos de uma potência estrangeira2, defendem o status quo, manifestam ódio aos trabalhadores e às minorias e ofendem os que divergem. Isso, é óbvio, soa como construção do Ministério da Verdade e de sua Novilíngua, “única cujo vocabulário se reduz de ano para ano”. É o que explica a incapacidade de avaliar os próprios interesses quando seguem líderes antipopulares, antinacionais, autoritários e, no limite, entreguistas. As big techs, com suas redes digitais, a religião e os gurus da economia fazem o serviço de Winston Smith em favor do Grande Irmão do norte.
Trump não nos colocou aqui por acidente. Na verdade, ele quer quebrar o nosso sistema, porque ele e pessoas como ele só prosperam em um sistema quebrado.
Thomas Friedman
Os Estados Unidos de Donald Trump que “força o sistema até o seu ponto de ruptura” e “inunda a [sociedade] com mentiras para que o povo confie apenas neles [ele e o seu grupo]”, como denunciou Thomas Friedman3, não são a pátria da liberdade como querem fazer crer os aspirantes a capatazes da América Latina. Na verdade, em seu desenvolvimento capitalista, a ideia de liberalismo econômico funciona mais como uma construção ideológica para afirmar o “paraíso do livre do mercado” do que uma convicção seguida de forma ortodoxa.
Alexander Hamilton, o primeiro Secretário do Tesouro arquitetou, no final do século XVIII, a política econômica fundamental para a modernização industrial dos norte-americanos, basicamente protecionista e intervencionista. Os alunos do primeiro semestre de todos os cursos de Economia a conhecem como proteção à indústria nascente e sabem que a sua base foram as tarifas altas para as manufaturas importadas e os subsídios para os produtores locais, numa lógica anti laissez-faire. No século seguinte, Henry Clay e a escola americana de economia advogavam as altas tarifas do sistema, para proteger e desenvolver a indústria doméstica que sofria a concorrência da britânica, mais madura e com domínio comercial mundial.
Não é demais lembrar, que a grande crise do capitalismo de 1929, que explodiu com a quebra da bolsa de Nova Iorque, foi precedida por uma escalada protecionista norte-americana, que colapsou o comércio internacional. E, após 1930, o presidente Roosevelt, implementou políticas anticíclicas para salvar a economia do país, com regulação estatal, gasto público massivo e controle de preços. Um keynesiano avant la lettre. Ou seja, o capitalismo na pátria que se pretende campeã do livre mercado, não nasceu e vicejou sob o liberalismo econômico. Isso é uma falácia, coisa da Novilíngua. Um recurso retórico para a domesticação dos outros4.
Os estudantes de Economia, que também leem Adam Smith, ou deveriam ler, pois é o pai da ciência que querem praticar, sabem que ele alertava que o livre mercado depende de instituições políticas estáveis e do Estado para a garantia dos contratos e a proteção da propriedade. De certa forma, o liberalismo econômico de Smith reclamava o liberalismo político que o antecedeu, com sua tradição jusnaturalista. O problema é que a realidade o contradisse, bastando observar o caso norte-americano, mais uma vez.
Nos Estados Unidos, o sul dos estados confederados era adepto do liberalismo econômico, sobretudo, por conta do mercado internacional do algodão, mas negava o liberalismo político, haja visto a defesa radical da escravidão, coisa que aconteceu também no Brasil da oligarquia do café. O fenômeno, que parece contraditório, na verdade demonstra que o capitalismo sobrevive e se expande sob regimes não liberais, que negam a humanidade do outro, ou seja, dos que trabalham. Basta observar a brutal exploração dos operários nas fábricas sob a gestão da administração moderna taylorista e fordista. O Ford Sociological Department foi um exemplo de vigilância e controle da vida privada dos assalariados, travestido de departamento de recursos humanos e órgão de assistência social5. O seu objetivo, conforme observou Gramsci, não era apenas organizar a técnica da produção, mas transformar os hábitos e a mentalidade dos indivíduos. A fábrica como expressão do Ministério de Orwell.
É cínica, para não dizer perversa, a visão dos devotos de Donald Trump, que se arvoram, na América Latina, em libertadores do povo com a oferta de menos Estado, desregulação total e tudo o que vem na esteira. Essa gente é a mesma que enriqueceu apoiando ditaduras no passado. Em nome de estabilidade para negócios, eles sacrificam as liberdades civis, mas sempre com um discurso religioso e moralista. E, quando necessário, para emprestar um verniz de autoridade às falas, recorrem a um guru econômico que retira da cartola Friedrich Hayek e sua conversa de que o planejamento econômico estatal leva à servidão6, ocultando que o neoliberalismo convive com a erosão dos direitos sociais e trabalhistas, com a pobreza, a fome e com o encarceramento em massa da população. Aliás, os Estados Unidos, que são tratados como nosso exemplo, promovem a repressão aos sindicatos por meio do Taft-Hartley Act, de 19477, e usam o militarismo como ferramenta de expansão de mercados, como assistimos neste momento.
O paradoxo dos liberais da economia é que necessitam de um Estado forte para proteger o capital privado e sua reprodução, com subsídios às empresas, proteção contra concorrência e repressão aos trabalhadores. Marcham com deus e com o diabo, mas sempre ganham. Como escreveu Karl Polanyi, em A Grande Transformação, não há nada de natural no livre mercado. Ele é um projeto político que, para existir, necessita desregulamentar a sociedade em benefício da concentração do capital8. E os Estados Unidos são o exemplo perfeito disso. Lá, o Estado intervém para os ricos enriquecerem à custa do empobrecimento dos pobres. Um exemplo? Basta olhar a atuação seletiva do Federal Reserve System, criado para estabilizar a economia, mas que na prática, salva os “de cima” nas crises e abandona os pobres. Esse Estado capturado pelo capital não se contenta, porém, com as fronteiras domésticas. Ele projeta para fora a mesma lógica: privatizar os ganhos, socializar as perdas, e garantir que a periferia permaneça periferia.
A ofensiva da extrema-direita na América Latina não é um fenômeno doméstico. Ela está vinculada ao projeto Make America Great Again (MAGA) de Trump. É mais do que apenas um episódio de protecionismo econômico. Trata-se de uma estratégia de poder global. Suas tarifas arbitrárias e a guerra comercial contra a China não são sobre “livre mercado”, mas sobre a reindustrialização forçada dos Estados Unidos, para a qual colaboram os sabujos que, neste dia de Corpus Christi, fingem marchar por motivos religiosos9. Além disso, visam desacoplar a região da China e impor um alinhamento automático e subserviente, nos termos da doutrina Monroe10 que, de fato, nunca morreu. É a sobrevivência da potência do norte que está em causa, não da Argentina, do Chile, da Colômbia, do Equador ou do Brasil. Nós somos os subjugados, não os parceiros.
Considerando que a China faz crescer sua presença e influência na região, financiando e construindo infraestrutura em quase toda a América do Sul, além de ser o principal parceiro comercial do Brasil, do Chile e do Peru, os norte-americanos buscam reforçar a interferência regional por meio de influência em processos eleitorais, sansões econômicos e manipulações de massas, para as quais as big techs com suas redes digitais cumprem papel destacado. Por trás do discurso de defesa da liberdade de expressão, de defesa de valores ameaçados, está, na verdade, a busca pela subordinação. O Grande Irmão do norte e sua Novilíngua liberal usa a teologia da prosperidade, o conservadorismo e faz até Cristo garoto propaganda. O que importa é impor a escravidão com a aparência de liberdade. O alinhamento forçado e a administração entregue a um nativo traidor.
Sob a frondosa castanheira
George Orwell. 1984
eu te vendi e tu me vendeste…
A intensidade da loucura que assistimos não pode ser ignorada. O funcionário Winston, nas páginas finais de 1984, ouve uma voz suave, que canta: “sob a frondosa castanheira/ eu te vendi e tu me vendeste…” e chora. Nós, os latino-americanos não temos diante de nós um sujeito que demonstre força, como no livro de Orwell. Pelo contrário. A situação dos Estados Unidos é de fraqueza. É sabido que potencias em ascensão não precisam se esforçar tanto para manter a sua influência. Elas lideram pelo exemplo. São os impérios decadentes que entregam o seu destino a loucos e violentos e espalham o terror e fazem da sabotagem a sua arma. Roma, por exemplo não foi destruída de fora, mas se corroeu por dentro, pela concentração de riqueza, pela degradação das instituições republicanas e pelo militarismo que drenava recursos sem produzir segurança duradoura11. E não é isso que assistimos?
O país que vai sediar a Copa do Mundo de futebol juntamente com México e Canadá enfrenta uma crise sem precedente. Hoje, os Estados Unidos estão desindustrializados, com cidades inteiras vazias e uma classe trabalhadora empobrecida e ressentida. A infraestrutura local é envelhecida e, não fosse o setor de tecnologia, concentrado nas mãos de alguns oligarcas privados, o país não teria condições de competir no atual estágio do capitalismo, se mantendo apenas pela força militar. A desigualdade social nunca foi tão grande e já não se pode dizer que aquela é uma típica sociedade de classe média. Suas instituições estão corrompidas por líderes do porte de Trump e seus aliados do MAGA e de think tanks ultraliberais, que apostam no vale tudo e destroem a ordem do após guerra.
O eleitor pobre da América Latina, vitimado por séculos de exclusão e violência política, agora é o peão num jogo em que o principal ator, mais uma vez, como na época colonial, está fora, manipulando pessoas com o poder do dinheiro e promessas de grandeza. Enquanto isso, marcha para deuses invisíveis e caminha para o abismo da escravidão. Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força
Notas
- George Orwell. 1984. 29ª edição. São Paulo; Companhia Editora nacional, 2004. ↩︎
- Javier Milei presidente da Argentina, eleito em 2023, tem forte alinhamento ideológico com Donald Trump. Se identifica como de direita e libertário.
José Antonio Kast é presidente do Chile. Foi eleito em dezembro de 2025, com uma plataforma de direita e é alinhado a Donald Trump.
Abelardo de la Espriella, o candidato de extrema direita da Colômbia, recebeu apoio declarado de Donald Trump.
Daniel Noboa é o atual presidente do Equador. Foi eleito em 2023 e reeleito em 2025. É de direita e alinhado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Os candidatos da extrema-direita brasileira, Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado se alinham com o governo Trump declaradamente em pautas selecionadas, sobretudo, na questão da qualificação dos grupos criminosos locais como terroristas, o que relativa a soberania brasileira ↩︎ - Trump Thrives in a Broken System. He’ll Get Us There Soon. Thomas L. Friedman. The New Yok Times. June 13, 2023. Disponível em < https://www.nytimes.com/2023/06/13/opinion/trump-indictment-presidency.html > Acesso em 04/06/2026. ↩︎
- Há farta literatura sobre o assunto. Para efeito de consulta, sugiro:
Ha-Joon Chang. Economia: modo de usar – Um guia básico dos principais conceitos econômicos. São Paulo: Portfolio-Penguin, 2015.
John Kenneth Galbraith. O pensamento econômico em perspectiva: uma história crítica. São Paulo: Livraria Pioneira Editora/ Editora da Universidade de São Paulo, 1989. ↩︎ - Harry Braverman. Trabalho e capital monopolista: a degradação do trabalho no século XX. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara, 1987.
Gramsci. Americanismo e fordismo. In: Maquiavel, a política e o Estado moderno. 8ª edição. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira,1991. ↩︎ - Friedrich August von Hayek. O Caminho da Servidão. São Paulo: Vide Editorial, 2013. ↩︎
- O Taft-Hartley Act de 1947 (oficialmente chamado de Labor Management Relations Act) é um dos pilares da regulamentação trabalhista nos Estados Unidos. Os seus principais pilares são: os sindicatos não podem obrigar as empresas, por contrato, a contratar apenas trabalhadores que já sejam sindicalizados; estados individuais podem proibir o Union Shop (contratos que exigem que o trabalhador se associe ao sindicato após ser contratado). Atualmente, mais de 25 estados americanos usam essa prerrogativa; o presidente dos EUA tem o poder de intervir e congelar greves por até 80 dias (o chamado período de reflexão ou cooling-off period) se considerar que a paralisação ameaça a saúde ou a segurança nacional; os sindicatos são impedidos de fazer piquetes ou greves contra uma empresa neutra apenas para pressionar outra empresa com a qual têm uma disputa direta. ↩︎
- Karl Polanyi. A grande transformação: as origens da nossa época. São Paulo: Elsevier Editora, 2012. ↩︎
- ‘Mundo do mal vai ser expulso do governo neste ano’, diz Flávio Bolsonaro na Marcha para Jesus. Por Samuel Lima. In: O Globo. Disponível em < https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/06/04/marcha-para-jesus-reune-flavio-tarcisio-e-messias-no-palco-principal-em-sao-paulo.ghtml > Acesso em 04/06/2026. ↩︎
- A Doutrina Monroe foi a política externa dos Estados Unidos iniciada sob a presidência de James Monroe em 1823. Ela se tornou um dos pilares do imperialismo norte-americano na América Latina e um marco na história das relações hemisféricas. Seus três pilares podem ser assim resumidos: 1) A América é para os americanos (os EUA declararam que a América (Norte, Central e Sul) não era mais aberta à colonização europeia) 2) Não-intervenção nos assuntos europeus (em troca, os EUA exigiam que a Europa não interferisse nos assuntos do hemisfério ocidental); 3) Neutralidade e Isolacionismo (Aparente).
A doutrina foi uma declaração de hegemonia dos EUA sobre a América Latina. ↩︎ - Edward Gibbon. Declínio e queda do Império Romano. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. ↩︎
