Insistem que o Brasil gasta demais. Mas os números desmentem. Enquanto EUA e Japão mantêm dívidas muito maiores, o problema brasileiro não é o tamanho do Estado, e sim sua estrutura. Em ano de eleições, as lições de Keynes são um antídoto contra o dogma da austeridade.
A elite financeira e os analistas da mídia corporativa compartilham não apenas uma visão preconceituosa acerca do governo Lula, mas também o desejo de sua derrota nas eleições de outubro. Por trás de previsões sobre o futuro, sempre apresentadas como altamente técnicas, por especialistas em contas públicas, oculta-se uma ideologia segundo a qual qualquer gasto público é clientelista, cheira a corrupção e conduz à ineficiência do Estado.
Essa gente, que lucra com a especulação financeira em vez de investir na economia real, vende para a sociedade a ilusão de que o gasto público representa descontrole inflacionário. Mas esse é um falso dilema, não uma lei da física. Gasto público é, também, investimento em infraestrutura, educação e saúde, não apenas despesa em termos de contas públicas. A inflação, conforme sabemos, não é causada apenas pelo gasto, mas por fatores como choques de oferta, especulação e concentração de renda. O caso recente dos preços de alimentos e combustíveis tem muito mais a ver com a guerra e a concentração de mercado do que com a política fiscal.
O Brasil não é um país qualquer. Tem margem para gastar. Hoje, a dívida pública está em cerca de 80% do PIB, mas é considerada sustentável1. Para efeitos de comparação, a dívida pública japonesa está em 237% do PIB2, e a dos Estados Unidos ultrapassou os US$ 31 trilhões em 2023 (100,2% do PIB), conforme dados do Bureau of Economic Analysis3.
Por que os Estados Unidos, para ficar apenas no caso da pátria dos adoradores de Trump, não são citados como um caso de irresponsabilidade fiscal pela elite financeira e por seus advogados, que povoam a mídia corporativa? Por que apenas o governo Lula merece tratamento pejorativo e desrespeitoso? Será que é em função de o que qualificam como “gastança” ser, na verdade, redistribuição e promoção de justiça social? Programas como Bolsa Família e Minha Casa, Minha Vida são tratados como gasto; isenções fiscais para grandes empresas, subsídios para o agronegócio e juros altos, que beneficiam o setor financeiro, não merecem críticas. Populismo, para eles, é considerar os “de baixo” cidadãos.
No momento em que se completam noventa anos da publicação de A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936), de Keynes4, é importante lembrar que, apesar das tentativas dos apologistas do mercado financeiro de apagar as ideias do genial economista britânico, elas continuam válidas. Principalmente, a de que o Estado deve intervir na economia para corrigir falhas de mercado em contextos de desemprego e demanda insuficiente. E, como ele mesmo advertiu em Tratado da Reforma Monetária (1923)5, o longo prazo é um guia enganoso: “No fim das contas, todos nós estaremos mortos. Economistas se impõem uma tarefa fácil demais e inútil se, em estações tempestuosas, só podem nos dizer que, quando a tempestade passa, o oceano volta a ficar plano.” Keynes não defendia gasto ilimitado, mas sim investimento público contracíclico e produtivo, desde que financiado de forma sustentável e com impacto positivo na economia real. Se isso gerar crescimento, emprego e arrecadação, o gasto público se paga, como provam os dados do Bolsa Família: para cada R$ 1 adicionado ao programa se aumenta R$ 1,78 ao PIB6 . O exemplo concreto foi o New Deal de Roosevelt, que atenuou os efeitos da Grande Depressão e sentou as bases para a recuperação, embora tenha sido a Segunda Guerra Mundial que finalmente restaurou o pleno emprego nos EUA.
A história ensina que políticas de austeridade fiscal, sobretudo quando praticadas em economias em recessão ou estagnadas, deterioram ainda mais a economia. O caso da Grécia, em 2010, é emblemático. As pessoas vivem no hoje, e não no longo prazo dos projetos de ajuste. Elas precisam comer, vestir, morar e cuidar da saúde no tempo presente. Hoje, ao olharmos para a vizinha Argentina, temos uma imagem terrível de seres humanos se afogando em mar revolto.
Se há algo que o Brasil não precisa, ao contrário do que pregam os vendedores de ilusão, é de cortes. Os investimentos públicos devem continuar, sobretudo nos setores estratégicos. E deve ser implementada uma reforma tributária progressiva para incidir sobre renda, patrimônio e lucros, não sobre o consumo, que penaliza os trabalhadores e os “de baixo”. E, se quisermos ser, de fato, ousados, devemos controlar os preços de setores oligopolizados, como os combustíveis. Isso é fundamental para o desenvolvimento com justiça social, que nos projete como nação soberana, pátria de todos os brasileiros, de fato.
Ao contrário do que gritam nas TVs e nas rádios, o governo do presidente Lula não é irresponsável nem pratica gastos descontrolados. Há, sim, para quem tenha disposição para observar, a reconstrução das políticas sociais destruídas por Temer e Bolsonaro, dois sujeitos que se abraçaram numa trama antidemocrática e antipopular. Além disso, há também investimentos em infraestrutura, com a construção de ferrovias, portos e estradas, cujas licitações beneficiam, inclusive, governadores notadamente antipetistas. As políticas industriais, para desespero de negacionistas como o atual presidente da Fiesp, visam à reindustrialização do país. E, no campo fiscal, é visível a busca pelo equilíbrio, com metas claras de superávit primário e de controle da dívida. O déficit nominal, que inclui os juros, de fato, continua alto, mas é herança da política de juros altos do Banco Central e da dívida pública atrelada à taxa Selic, que explodiu no governo de Bolsonaro e Paulo Guedes, o homem do mercado financeiro.
O problema do Brasil, que não é informado à população pelos analistas, não é o tamanho do gasto público, que, em 80% do PIB, é considerado sustentável no cenário atual, desde que a taxa de juros seja compatível com o crescimento do PIB e que a estrutura da dívida seja reformada. Essa proporção é, de fato, inferior à de países como Japão ou EUA, mas a estrutura da dívida pública, indexada à Selic, e a concentração de renda no andar “de cima” são os verdadeiros desafios. Existe solução para isso, mas ela não agrada à banca, pois implica redução dos juros, o que levaria a perdas para os especuladores e ganhos para a economia real. A taxação dos super-ricos e o combate à sonegação completariam a receita. Mas não será a solução ofertada pelos candidatos da extrema direita, apoiados pelo mercado financeiro e louvados como responsáveis pelos empregados da mídia corporativa. Essa gente prefere defender os interesses do setor financeiro, não os da maioria da população.
Notas:
- Dívida continua “sustentável” em todos os cenários, diz Tesouro. Por Hamilton Ferrari. Poder 360. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poder-economia/divida-continua-sustentavel-em-todos-os-cenarios-diz-tesouro/. Acesso em 15 de agosto de 2026. ↩︎
- A dívida do Japão preocupa investidores de títulos japoneses? E por que isso importa? Por Alejandro Estevez-Breton. The Weekly Globe. Itaú Private Bank. Disponível em: https://www.itau.com.br/media/dam/m/4232c91f0b9645c7/original/TheWeeklyGlobe-200126.pdf. Acesso em 15 de agosto de 2026. ↩︎
- Dívida dos EUA ultrapassa o PIB e supera US$ 30 trilhões. G1. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/05/05/divida-dos-eua-supera-tamanho-da-economia-e-passa-de-us-31-trilhoes.ghtml. Acesso em 15 de agosto de 2026. ↩︎
- Keynes, J. M. A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. 2ª edição. São Paulo: Ed. Nova Cultural, 1985. ↩︎
- Keynes, J. M. Tratado da Reforma Monetária. 1923. ↩︎
- Cada real investido no Bolsa Família vira R$ 1,78 no PIB, diz Ipea. Bancários de Alagoas. Disponível em: https://bancariosal.org.br/noticia/26352/cada-real-investido-no-bolsa-familia-vira-r-no-pib-diz-ipea. Acesso em 15 de agosto de 2026. ↩︎

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