Capital financeiro e eleições brasileiras: o povo na linha de tiro

O capitalismo financeiro não tem mais onde se esconder. Com pilhas de capital acumulado e sem realização na economia real, o sistema precisa destruir para reiniciar seu ciclo de acumulação. Nas eleições de 2026, o povo brasileiro está na linha de tiro entre a precarização do trabalho, a concentração de riqueza e o autoritarismo que sempre volta para garantir os privilégios dos rentistas. A democracia e os direitos sociais, mais uma vez, sob ataque.


A eleição presidencial de 2026 não é apenas uma disputa política. É um capítulo da guerra do capital financeiro contra a democracia. Thatcher, Reagan, Trump, Bolsonaro, Zelensky, Milei e os oligarcas das big techs são os atores de uma peça em que o sistema, para sobreviver, precisa destruir ativos, precarizar vidas e sufocar a resistência.

Em 1994, na Monthly Review, Paul Sweezy publicou O Triunfo do Capital Financeiro1. No ensaio, ele analisa como o capital financeiro — bancos, fundos de investimento, mercados de ações — domina a economia, ocupando um lugar central, sem conexão com a produção real de bens e serviços. A dinâmica criada faz com que a acumulação de riqueza abstrata se torne o motor do sistema capitalista, em detrimento da economia produtiva. Dinheiro gerando mais dinheiro (D – D’). Rentismo puro e simples.

Para quem imagina que isso é positivo, como os atuais influenciadores do YouTube e do Instagram, agora autointitulados “especialistas” em finanças, a financeirização não é um sinal de progresso, mas de estagnação. Afinal, trata-se do processo em que o capital migra da produção real para a especulação em mercados financeiros. Conforme explica Sweezy, ela acontece porque a economia real não encontra formas de expansão, seja por limites impostos pela demanda, pela concorrência ou pela queda da taxa de retorno do investimento, a famosa queda da taxa de lucro. Isso leva o capital a migrar do setor industrial para o setor financeiro, buscando valorização. E surgem as bolhas especulativas e as crises recorrentes.

Como explicou Marx em O Capital2 , o capitalismo depende da fórmula D – C – D’ (dinheiro – mercadoria – mais dinheiro), em que o lucro vem da exploração do trabalho. Mas, quando o sistema atinge seus limites, o capital migra para a especulação pura (D – D’), onde o dinheiro gera mais dinheiro sem mediação da produção real.

Nesta etapa financeira do capitalismo, até a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), outrora sindicato da vanguarda dos empresários industriais, é presidida por um empresário ligado às finanças, sem qualquer vínculo com a indústria. O sistema, portanto, não celebra sua saúde, mas demonstra sua fragilidade estrutural. Com enormes pilhas de capital financeiro acumulado e sem encontrar realização na economia real, o capitalismo precisa destruir ativos para reiniciar o ciclo de concentração. Empregos, pessoas e economias nacionais estão na linha de tiro. Isso explica o desespero da Faria Lima ante uma possível vitória de Lula 3. Ela significaria um freio ao processo que precariza a vida da maioria que trabalha e concentra riqueza nos especuladores.

A financeirização, no entanto, ao contrário do que imaginam os amigos do dono do Banco Master e do banco Digimais, é apenas uma forma de adiar o colapso, enquanto agrava a desigualdade social e a precarização do trabalho. O lucro financeiro está dissociado de investimentos produtivos e da geração de salários. Na verdade, ele precisa, paradoxalmente, de um Estado forte para garantir as condições de sua acumulação. É o Estado, tão execrado pelos liberais das redes digitais e das universidades de negócios, que garante os resgates bancários, desregulamenta e impõe a austeridade. Por isso, o capitalismo financeiro não tolera a democracia e as instituições republicanas em pleno funcionamento. Ele recorre ao autoritarismo e a golpes com frequência.

Para horror da “gente de bem” que infesta a mídia corporativa e as universidades de negócios, é possível recorrer a Marx para lembrar que o capitalismo é um sistema que precisa crescer infinitamente. A enorme quantidade de riqueza abstrata acumulada na forma de ações, fundos e derivativos não encontra correspondência na economia real. A produção de valor real — da indústria, dos serviços e do trabalho — é incapaz de absorver essa montanha de capital excedente. Isso cria a seguinte situação: ou a crise destrói os ativos e o ciclo reinicia, ou se salta para frente com privatizações, financeirização da vida e especulação imobiliária.

De certa forma, o governador Tarcísio de Freitas está cumprindo bem este roteiro em São Paulo, assim como Milei na Argentina. Ao contrário do que os analistas insistem em desinformar, não é o governo do presidente Lula que está impondo dificuldades às empresas na economia real. Quebrar empresas, desvalorizar ativos e a economia de países, como foi feito com a Grécia em 2010, é uma forma de limpar o sistema e permitir um novo ciclo de expansão nocivo, tão ao gosto dos mercados. A adoração por parte das oligarcas das big techs também é óbvia. Trata-se de apostas em extração predatória, ou seja, na busca de novas fronteiras de exploração, como a tecnologia, os dados, a natureza e a precarização contínua do trabalho. Quando tudo falha, resta a ficção, afinal o capitalismo depende basicamente da fidúcia, de gente que acredite em coisas como criptomoedas ou destino.

Desde o século XIX, o capitalismo aponta para a barbárie. A cada ciclo, homens, mulheres e crianças têm suas vidas destruídas por causa daqueles que avançam como locomotivas sem controle, buscando a acumulação pela acumulação. Para que o processo continue em ritmo acelerado, cada vez mais frenético, o trabalho enfrenta as crises com mais força e intensidade, tornando-se instável e precário. A infelicidade se generaliza e a riqueza se concentra. Aos capitalistas, apenas uma política interessa, a cada conjuntura. É a eliminação das barreiras à acumulação. Para tanto, investem contra as leis trabalhistas, ambientais e tributárias que possam impor limites à extração de lucro. Atacam o Judiciário, a imprensa crítica, os sindicatos e os partidos de esquerda, porque estes são obstáculos à acumulação ilimitada. O fascismo é a ferramenta que sempre volta, travestida de discurso moral, religioso ou qualquer outro. É a justificativa para a repressão contra quem luta por dignidade.

Nesta eleição, mais uma vez, a democracia e os direitos sociais estão sob ataque. As mentiras e a desinformação são parte de uma engrenagem que visa manter privilégios e garantir a celebração das orgias dos rentistas ao custo da miséria dos brasileiros que vivem do trabalho. Enquanto a patota estava berrando em Barretos ou participando de convescotes privados, em mesas fartas com banqueiros, o povo seguia carregando a economia nas costas.

E resistimos.


Notas:

  1. SWEEZY, Paul. The Triumph of Financial CapitalMonthly Review, Nova York, v. 46, n. 2, jun. 1994. ↩︎
  2. MARX, Karl. O Capital. 1ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2024. Ver especialmente: Livro I, Segunda Seção, Capítulo 4 (Transformação do dinheiro em capital) e Sétima Seção, Capítulo 24 (A chamada acumulação primitiva). ↩︎
  3. ANDRADE, Bruno. Por que Lula desagradou ainda mais a Faria Lima com a sua sabatinaVeja Negócios, 28 ago. 2026. Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/as-preocupacoes-do-mercado-com-um-possivel-lula-4-apos-a-sabatina-do-jn/. Acesso em: 31 ago. 2026. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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