Cuba e o declínio do império americano

Mais de seis décadas após a Revolução Cubana, a ilha segue sob pressão constante dos Estados Unidos. Em meio a sanções, disputas e estratégias de desestabilização, o caso cubano expõe menos a fragilidade de Havana e mais os sinais de um império que reage ao seu próprio declínio.


Cuba é o maior país insular do Caribe, localizado na confluência com o Golfo do México e o Oceano Atlântico. Com população estimada em cerca de 10 milhões de pessoas, sua posição estratégica fez da ilha alvo histórico de disputas entre potências coloniais e, posteriormente, objetivo geopolítico dos Estados Unidos, localizados ao norte.

Até 1959, o país caribenho era uma espécie de parque de diversões para norte-americanos endinheirados e um inferno de opressão para o povo negro e pobre. Marcada por desigualdades sociais brutais e dependente economicamente dos Estados Unidos, Cuba vivia sob a sombra de Fulgêncio Batista desde os anos 1930, com um intervalo democrático entre 1944 e 1952, rapidamente encerrado pelo golpe que devolveu o poder ao homem de Washington. Batista, de forma direta ou indireta, manteve-se no poder apoiando os interesses americanos, inclusive os da máfia, que controlava cassinos, hotéis e prostíbulos em Havana. O povo era contido pelo terror. Corriam soltas a repressão política, a censura e a violência contra opositores.

O presidente Donald Trump, que reincluiu Cuba na lista americana de patrocinadores do terrorismo e endureceu as sanções já no primeiro dia do seu segundo governo, age como quem quer restituir a ordem anterior a 1959, quando a ilha era domínio sem resistência do capital norte-americano. Até então, a mineração de níquel, o turismo, as terras mais férteis, boa parte das indústrias e os principais bancos estavam sob controle de empresas americanas, numa penetração econômica tão profunda que deixava pouco espaço para qualquer projeto nacional cubano. Aos locais, restavam apenas a pobreza, o analfabetismo, o desemprego e a falta de acesso a serviços básicos, além de uma expectativa de vida muito menor que a dos seus “patrões” do norte.

No campo, a população vivia em condições de pobreza extrema, trabalhando em regime de semiescravidão nas plantações de cana-de-açúcar. Nas zonas urbanas, para muitas meninas e mulheres jovens, a prostituição era uma das poucas saídas para escapar da miséria dos bairros periféricos, sem infraestrutura. Sem acesso à saúde, a mortalidade entre os cubanos era alta, e doenças como tuberculose e malária se espalhavam sem controle. Esse é o mundo que a patota abrigada em Miami sonha reconstruir: um inferno social para a maioria, disfarçado de paraíso para poucos.

A Revolução Cubana, cujo marco simbólico foi o ataque ao Quartel Moncada em 26 de julho de 1953 e que triunfou em 1º de janeiro de 1959, tem sua razão de ser justamente nesse cenário de desigualdade, pobreza e violência. Os que hoje criticam o processo revolucionário sob a acusação de “comunismo” parecem ignorar e até justificar as condições degradantes que tornaram a revolução necessária e urgente. É isso que qualificam como “defesa da liberdade econômica” e dos “valores cristãos”. Os valentes parecem reivindicar a volta de um sistema que condenava multidões à miséria.

Símbolo de resistência anti-imperialista, Cuba tornou-se uma inspiração para os movimentos políticos e sociais de toda a América Latina, uma região marcada por economias coloniais, desenvolvimento desigual e elites que agem como administradoras da dependência, ignorando o sofrimento do próprio povo. Para as gerações que enfrentaram os golpes orquestrados pela CIA nas décadas de 1960 e 1970, a ilha de Fidel, Che e dos barbudos de 1959 segue como um modelo simbólico de soberania.

Vítima de um bloqueio econômico que começou a se construir já em 1959, com restrições progressivas, se formalizou em 1960, e que foi agravado após o fim da União Soviética, que a apoiava durante a Guerra Fria, Cuba viu sua situação interna se deteriorar ainda mais com as políticas de Trump. Hoje, a população da ilha enfrenta uma tragédia humanitária. O embargo permanente afeta a produção de energia (dependente da importação de petróleo), o sistema de saúde (que depende de insumos básicos) e o abastecimento de alimentos. Como se não bastasse, Trump intensificou publicamente a retórica de pressão máxima sobre Cuba, incluindo ameaças de novas intervenções, em linha com a postura que adotou em relação a outros territórios que deseja ver submetidos à lógica do capital estrangeiro.

Seria desonesto ignorar que Cuba tem seus próprios problemas internos, como a repressão a opositores, a falta de liberdades civis e a crise migratória. Mas é igualmente desonesto atribuir ao governo cubano toda a responsabilidade por uma crise que o bloqueio deliberado, sistemático e declaradamente voltado a “aumentar o desconforto” da população, nas palavras do subsecretário de Estado Lester Mallory, em memorando confidencial de abril de 1960, ajudou a construir.

Nesse contexto, Donald Trump aparece como o líder de um império em declínio. Seu segundo governo, marcado por ameaças, beligerância e desrespeito ao direito internacional não exprime força, mas desespero. O uso da força militar, as sanções econômicas impostas ao mundo e as intervenções políticas na América Latina não restituem a grandeza dos EUA, mas revelam sua incapacidade de liderar sem recorrer à coerção. Não há “Make America Great Again” possível. A América que eles querem de volta já não existe, e seu tempo está passando.

O que se vê hoje é uma grande confusão proposital, especialmente nesta zona de influência que os EUA estão perdendo. Em associação com as big techs, pratica-se o que analistas chamam de guerra híbrida: campanhas de desinformação nas redes sociais, financiamento de mídias locais alinhadas a Washington, como documentou o caso USAID-ZunZuneo, o programa secreto americano de rede social criado para desestabilizar Cuba, e pressão sobre plataformas digitais para amplificar narrativas favoráveis à intervenção. Os três objetivos dessa estratégia decadente são garantir acesso a recursos estratégicos (água, lítio, petróleo, biodiversidade), expulsar a China da região e manter a hegemonia regional, mesmo que à custa da soberania e da dignidade dos povos latino-americanos.”

O que está em jogo não é a sobrevivência de um governo em Havana, mas a disputa pelo modelo de inserção da América Latina numa ordem mundial em transição. Não é Cuba que agoniza, mas o império que a sufoca. Não é a ilha o alvo de Trump, mas a América Latina como um todo, sua soberania e a riqueza de seus povos. A resistência cubana, mesmo em meio à crise, segue como um lembrete incômodo de que a história não acabou. A luta por dignidade e autonomia continua necessária.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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2 comentários

  1. Bom dia, professor. Urge organizar a resistência, fortalecendo os BRICS. O Brasil, não se ajuda, comportando-se como centenário fornecedor de produtos primários aos impérios: todos.

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