Neste Domingo de Ramos, a polícia israelense impediu o Cardeal Pierbattista Pizzaballa e o Custódio da Terra Santa de celebrar a Missa na Igreja do Santo Sepulcro. Um fato inédito em séculos que revela, para além do conflito no Oriente Médio, a perigosa cumplicidade entre escatologia religiosa e poder político.
Para os católicos, a Missa de Ramos guarda um simbolismo especial. Ela celebra o início da Semana Santa e relembra a entrada triunfal de Jesus na cidade de Jerusalém, montado em um jumento, pouco antes de seu martírio e crucificação. É a preparação para um momento de transição espiritual, no qual os fiéis refletem sobre a gravidade dos eventos que se seguiram naqueles poucos dias: a Última Ceia, a crucificação e, finalmente, a ressurreição, com a vitória sobre a morte.
Diferente de muitos grupos cristãos evangélicos, especialmente os de linha pentecostal ou neopentecostal, os católicos adotam uma leitura sobre os eventos finais amplamente simbólica e moral. Sua tradição teológica rejeita leituras literais e cronológicas dos textos apocalípticos, evitando sua associação a eventos políticos do presente ou a especulações sobre o “fim dos tempos”. Não há, na prática litúrgica da Igreja de Roma, a ênfase na expectativa apocalíptica. Nas missas, recupera-se a ideia do Reino de Deus no presente, por meio da justiça, da caridade e da santidade. Uma segunda vinda de Cristo, expressa no Credo Niceno-Constantinopolitano na frase “de onde há de vir julgar os vivos e os mortos”, é um mistério da fé. E já é muito.
Desde a Patrística, com Santo Agostinho em A Cidade de Deus, a Igreja Católica rejeita interpretações literais dos textos bíblicos que permitam sua associação a eventos políticos ou a leituras que apostam no final dos tempos. É preciso lembrar que, para o que interessa aqui, a doutrina católica está ligada à plenitude do Reino de Deus e à esperança na justiça, não a especulações sobre o fim dos tempos ou a grupos eleitos. Isso parece estar mais próximo ao Jesus que pregava o amor aos inimigos (Mateus 5:44), a justiça para os pobres (Lucas 4:18) e a renúncia ao poder temporal (João 18:36), com pouca relação aos textos apocalípticos lidos de forma literal.
Certos grupos cristãos evangélicos que reivindicam uma leitura bíblica segundo a qual está próxima uma segunda vinda de Cristo, cumprindo promessas eternas a Israel, geralmente apoiam o Estado sionista no Oriente Médio. Eles parecem orientados por uma instrumentalização da fé para fins políticos, o que explica sua ligação com a extrema-direita, legitimando guerras e ocupações como uma questão de fé. Na visão teológica que une nacionalismo e conservadorismo religioso, a estratégia de ocupação das terras palestinas para a criação de assentamentos judeus, por exemplo, estaria correta. E como estão com a atenção voltada para um evento futuro e fora da realidade, não enxergam as questões sociais, a pobreza ou o desrespeito aos direitos humanos. Tudo se resume a uma questão de guerra espiritual, de luta das forças do bem contra o mal.
Ao contrário dos grupos citados, os católicos, sob a liderança do Papa Leão XIV, eleito em 2025 após a morte de Francisco, mantêm vivo o legado da justiça social e da opção preferencial pelos pobres, reafirmado no Concílio Vaticano II. Embora com um estilo mais discreto e institucional, Leão XIV tem dado continuidade às prioridades de seu antecessor, especialmente na defesa da Doutrina Social da Igreja e na crítica à instrumentalização da fé por grupos políticos. Sua postura pública tem reafirmado que a missão da Igreja é libertar os seres humanos de todas as formas de escravidão, não servir a agendas partidárias. Essa postura, no entanto, não está isenta de resistências internas. Setores ultraconservadores, aliados a movimentos de extrema-direita global, seguem acusando o pontífice de “abandonar a tradição” ao dialogar com muçulmanos, defender migrantes ou criticar o nacionalismo excludente.
Para o que interessa, neste Domingo de Ramos de 2026, o Cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, e o padre Francesco Patton, Custódio da Terra Santa, foram impedidos pela polícia israelense de entrar na Igreja do Santo Sepulcro para celebrar a Missa de Ramos. O local, para os católicos, é sagrado, pois é considerado o lugar que abriga tanto o Gólgota (ou Calvário), onde Jesus foi crucificado, quanto o Túmulo Vazio, de onde Ele teria ressuscitado. O seu fechamento é uma ofensa. E ocorre pela primeira vez em séculos, afetando as relações entre o Estado de Israel e o Vaticano. Embora o Papa Leão XIV ainda não tenha se manifestado diretamente sobre o fechamento, sua ênfase na Doutrina Social da Igreja e na defesa dos direitos dos cristãos no Oriente Médio, aliada à herança de Francisco, indica que o Vaticano não deixaria de condenar a restrição ao acesso dos fiéis a um local sagrado, especialmente quando motivada por razões políticas ou de segurança questionáveis.
Para os que “enchem a boca” para falar em defesa da liberdade e dos valores ocidentais ameaçados por uma suposta ameaça comunista, o que acontece no Estado de Israel neste momento é um sinal da erosão da liberdade religiosa. Que fique claro: a crítica aqui é dirigida às políticas do governo israelense, não ao povo judeu nem ao judaísmo. Jerusalém não é importante apenas para o catolicismo, mas é a terceira cidade mais sagrada do Islã, depois de Meca e Medina, devido à sua ligação com a Noite da Ascensão do profeta Maomé. Muçulmanos e católicos, apesar das tensões, convivem relativamente bem na região, muito em função da diversidade religiosa histórica da Palestina. Hoje, o governo de Israel faz com que eles tenham um inimigo comum, assim como a maioria dos marginalizados do Oriente Médio. E, a continuar a insanidade da exploração da relação entre escatologia religiosa e política, a extrema-direita produzirá um choque civilizacional de consequências trágicas para o mundo todo.
E caminhamos para mais uma Páscoa.

Obrigado professor! Os fatos revelam que nós católicos estamos corretos ao condenar todas as ações terroristas (por violarem os direitos humanos e as Leis Internacionais) praticadas pelo Estado Sionista, genocida e invasor de Israel! Que o Santo Padre, Papa Leão XIV, nos represente, respondendo como necessário!