Em nome de Deus: a religião como arma da extrema-direita

Em nome de Deus, a extrema-direita global constrói seus demônios e justifica suas guerras. De Hitler a Trump, a religião é transformada em arma política: um instrumento de ódio, polarização e manipulação de massas. Mas a história mostra que, quando a fé vira ferramenta de poder, o que se perde é a humanidade.


Recentemente, me deparei nas redes digitais com um sujeito a fazer associações entre o nazismo e o protestantismo. Não bastasse, o “douto” apoiava em trechos de uma obra de Martinho Lutero o genocídio judaico, como se a tragédia que vitimou o povo semita na primeira metade do século XX tivesse relação direta com a questão religiosa.

Neste período da história em que a extrema-direita global mobiliza ferramentas de persuasão colocadas à sua disposição pelas big techs, com o objetivo de encher o mundo de demônios e inimigos imaginários, é importante atentar para o fato de que a religião é uma arma utilizada na guerra política em curso. E isso nos obriga a olhar para o passado, não só para não o repetir, mas porque muito do seu simbolismo é recuperado para fins de manipulação de massas.

No Brasil, em particular, o drama da humanidade se desenrola na associação entre os extremistas da direita e os evangélicos. A estratégia de poder do grupo vai além da utilização instrumental da religião. Na verdade, certa leitura fundamentalista do protestantismo, especialmente em sua versão neopentecostal, tende a reduzir a realidade a situações binárias, nas quais o bem está sempre em luta contra o mal, de forma que a democracia morre, pois não há possibilidade de criação de consensos sobre os temas em pauta na sociedade. Tudo se resume a uma guerra, na qual o inimigo, quase um ser demoníaco, deve ser eliminado. Daí o ódio e o desprezo ao outro, seja ele membro de uma minoria ou um simples divergente pontual.

Esse fascismo contemporâneo, que tem na religião um dos seus ingredientes, tem como marcos visíveis de sua retórica a noção de predestinação e eleição divina, ou seja: inculca em seus adeptos a ideia de que são eleitos para uma missão, que é geralmente combater o mal do comunismo e defender os valores da família cristã. É isso que fazem os evangélicos nos Estados Unidos e os neopentecostais brasileiros, todos incapazes de avaliar a própria situação, alienados e temerosos quanto ao futuro, presos ao que Zygmunt Bauman qualificou como retrotopia: um passado idealizado como seguro, autêntico, melhor. Daí o seu conservadorismo.

Mas a extrema-direita global usa a religião num outro sentido. A noção de indivíduo, de que cada fiel presta contas de seus atos apenas a Deus, retirada de uma leitura histórica distorcida da tradição protestante, da qual Lutero é apenas o ponto de partida, é utilizada para justificar o radicalismo contra a ordem legal e a desobediência civil. A negação das decisões judiciais, a revolta contra resultados eleitorais e a tentativa de fazer justiça com as próprias mãos, inclusive por parte de membros das forças policiais e militares, são um sintoma da subversão patrocinada pelos extremistas a serviço dos donos do mundo. Afinal, a extrema-direita não é autônoma: presta serviço aos oligarcas globais, que controlam as finanças e as big techs.

De qualquer forma, voltando ao início, a associação do protestantismo de Lutero ao nazismo é um desserviço à compreensão do fenômeno religioso e do fenômeno político. Ainda que a extrema-direita utilize elementos teológicos, tais como a predestinação e a relação entre o fiel e Deus, é na questão da culpa e da redenção que é possível alguma aproximação ao movimento que, a partir da Alemanha na década de 1930, vitimou os judeus. A ideia de que o mundo está corrompido e os puros de espírito, — ou os escolhidos, os verdadeiros fiéis — devem restaurá-lo associa a pregação neopentecostal à loucura hitlerista.

De fato, Martinho Lutero escreveu, no período final de sua vida, textos antissemitas, publicados em 1543 sob o título Dos Judeus e Suas Mentiras. Neles, há a defesa da expulsão dos judeus da Alemanha, da destruição de suas sinagogas e a proposição de sua perseguição sistemática. Medidas bárbaras, mas distintas do extermínio físico planejado que o nazismo viria a executar quatrocentos anos depois. Mas Lutero não estava só no antissemitismo naquele período. Ele tinha a companhia dos católicos, embora estes não tenham ido tão longe quanto à defesa da perseguição organizada. Durante boa parte da Idade Média, um motivo teológico justificava a hostilidade aos judeus por parte dos cristãos: a ideia de que rejeitavam Cristo como Deus.

Queremos evitar que nossa Alemanha sofra, como Aquele sofreu, da morte na cruz.

Hitler. 1923.

Os nazistas, apesar de terem resgatado Lutero, como fazem os membros da extrema-direita ao se associarem com a religião nos dias de hoje, fizeram-no de forma puramente instrumental. Seu objetivo era biológico, racial, e não tinha qualquer ligação com questões teológicas. Assim como Trump, Bolsonaro, Milei e outros expoentes da extrema-direita se apresentam como realizando uma luta divina contra o mal, os nazistas de Hitler citaram Lutero para legitimar suas políticas. Nada mais. O seu objetivo, assim como o dos extremistas contemporâneos, era secular. O regime nazista instrumentalizou a figura de Lutero para associar o protestantismo à sua causa, da mesma forma que, no Brasil, o bolsonarismo tem até pastores de estimação e um lema: “Deus acima de tudo”.

A tragédia do nosso tempo, que paradoxalmente é determinado pela ciência e pela técnica, é o uso intensivo da religião para a manipulação de massas. O delírio de que os seres humanos têm o seu destino atrelado a seres invisíveis é um mal absoluto. É isso que produz anacronismos como o que testemunhei na rede digital, com a associação de Lutero ao nazismo em linha direta, como se um fenômeno moderno pudesse ter sido gerado no século XVI. O reducionismo de tal visão, que responsabiliza um teólogo do Renascimento por um evento do capitalismo, essencialmente secular e anticristão, soa ridículo e perigoso. Mas é sinal deste tempo que a tecnologia permita que se apaguem as referências do saber.

Apenas para concluir, é importante lembrar que Hitler e os seus fanáticos, em sua visão íntima, consideravam o cristianismo uma religião fraca, ainda que, publicamente, o regime tenha explorado o vocabulário cristão por anos, de forma cínica e estratégica. O seu “negócio” era o culto à raça ariana, assim como o negócio de Trump é o culto à América grande, branca, protestante e anglo-saxônica. Todo o resto é ilusão para as vítimas.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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