Nos Estados Unidos, uma cruzada reacionária busca revogar a 19ª Emenda da Constituição, que garante o voto feminino desde 1920. Líderes como Doug Wilson, teólogo e pastor, usam a Bíblia como justificativa para impor o patriarcado em todas as esferas da vida social. O que está por trás dessa ofensiva contra as mulheres?
Nos Estados Unidos, um certo Douglas James Wilson, popularmente conhecido como Doug Wilson, defende a revogação da 19ª Emenda da Constituição, que garante o voto feminino desde 1920. O sujeito, que é teólogo e pastor, líder de uma comunidade evangélica em Idaho, apoia sua posição numa interpretação distorcida da Bíblia, que justificaria o patriarcado bíblico. Sua igreja promove uma ideologia segundo a qual, para ser agradável a Deus, o fiel deve impor a hierarquia masculina em todas as esferas da vida social. O patriarcado bíblico não é a única excentricidade defendida por Wilson. Ele também promove um modelo de educação religiosa em detrimento da educação pública e laica, e tem ideias controversas acerca da escravidão que vitimou a população negra no sul daquele país.
O pastor Doug não está solitário em sua cruzada contra os direitos políticos das mulheres. Toby Sumpter, também teólogo e pastor evangélico, conforme reportagem da CNN americana com trecho publicado na conta do X pertencente ao Secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, diz que o voto é feito pelo homem, mas que este conversa com a mulher antes de decidir1.
Ao grupo, é importante juntar o ativista de extrema-direita Nick Fuentes, que apresenta o programa America First, dedicado a reunir influenciadores para a promoção do nacionalismo cristão, da supremacia branca e aberrações como a negação do Holocausto, a misoginia e a perseguição às minorias. Fuentes integra o movimento incel2, uma subcultura que reúne homens heterossexuais que atribuem ao feminismo e às mulheres sua incapacidade de encontrar parceiras afetivas ou sexuais. Infelizes e ressentidos.
À tropa, é importante acrescentar o apoio declarado de Helen Andrews, uma comentarista política e autora conservadora, que associa o movimento social que busca conscientizar sobre injustiças e desigualdades, promovendo inclusão e justiça social na sociedade americana, à feminização dos Estados Unidos. Essa cultura progressista (ou “woke”)3, segundo ela, cresceu e se expandiu à medida que as mulheres assumiram posições importantes na sociedade americana, fazendo com que a empatia superasse a racionalidade. Logo, é fundamental restaurar a “ordem natural das coisas” para “fazer a América grande novamente”4.
É impossível não associar o ataque aos direitos políticos das mulheres ao plano de políticas conservadoras e de extrema-direita elaborado pela Heritage Foundation para orientar a administração republicana, conhecido como Projeto 2025. Lançado em 2023, com o apoio de mais de 100 grupos de direita e de extrema-direita, o programa prevê a remodelação do governo federal e a ampliação dos poderes do presidente. Em cerca de 900 páginas, em que ressoa o nacionalismo cristão e o autoritarismo, o projeto apoiado pelos aliados de Donald Trump propõe a restrição de direitos reprodutivos, a eliminação da “ideologia de gênero” nas escolas e a promoção de uma agenda cristã nacionalista. Ele é um programa para este segundo mandato e inclui medidas para dificultar o voto de mulheres casadas e pessoas trans, como a exigência de prova de cidadania com compatibilidade exata de nomes, que afeta mulheres que adotaram o sobrenome do marido, por exemplo. É fundamental destacar que isso não é ocasional: as mulheres, para desgosto dos fascistas, tendem a votar mais nos democratas, daí a tentativa de restringir seus direitos políticos5.
Donald Trump, que não é exatamente um exemplo de homem de família segundo o manual dos cristãos que o apoiam (basta lembrar seu envolvimento no caso Epstein)6, apoia a Lei SAVE (SAVE America Act), que exige prova de cidadania para votar. Caso aprovada no Senado, ela pode desqualificar para o sufrágio milhões de mulheres casadas e pessoas transgênero cujos documentos não batem com os registros. Segundo especialistas locais, as mulheres casadas que adotaram o sobrenome do marido sofrerão mais, assim como as pessoas trans e os pobres, que têm dificuldade para custear a atualização de documentos.
Doug Wilson, Toby Sumpter, Pete Hegseth, Nick Fuentes, Helen Andrews, Donald Trump e os extremistas por trás do Projeto 2025 não são conservadores cristãos. São reacionários que buscam reverter direitos. Seu desejo é o retorno a uma ordem pré-democrática. São repugnantes, pois falam de conservar, mas querem destruir os direitos, a justiça e a cidadania inclusiva. A Bíblia é apenas um recurso ideológico de quem usa a fé como arma política e as redes digitais como meio de difusão. São tão perigosos quanto foram os fascistas de período anterior, que também exploraram o medo do desemprego, o ressentimento e a frustração das pessoas em sociedades sem alternativas de ascensão social, e entregaram bodes expiatórios: as mulheres, as minorias étnicas, os dissidentes. Querem criar uma sociedade na qual alguns — eles — sejam mais humanos do que os outros.
Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus
Galátas 3:28
O ataque aos direitos políticos das mulheres, representado na tentativa de retirar-lhes o direito ao voto com base numa leitura bíblica que valoriza o patriarcado, é uma ofensa ao próprio cristianismo. O Jesus histórico aboliu as diferenças. Essa é sua verdade. Basta ler Gálatas 3:28: “Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher, pois todos vós sois um em Cristo Jesus”7. A desigualdade não combina com o núcleo ético da doutrina cristã. Na verdade, ela é histórica e social. Não é preciso teologia para compreendê-la e enfrentá-la. Para isso, as ciências sociais são as mais adequadas. Justamente as combatidas pela direita e pela extrema-direita.
Em 1952, em discurso intitulado “Raça e História”8, proferido na UNESCO, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss marcou a reflexão sobre a construção social da ideia de humanidade. Segundo ele, a humanidade, essa ideia universal e abstrata, não existe em si mesma. Ela é uma construção. O que existe, de fato, é a diversidade de culturas que, juntas, compõem o que chamamos de humanidade. Cada sociedade, com sua cultura, constrói sua própria visão do que é ser humano. É um erro primário afirmar que há uma civilização cristã ocidental baseada no tal patriarcado bíblico, segundo o qual, na família, o homem é quem toma as decisões e a mulher obedece ou é o ser frágil a ser protegido. Isso apenas justifica a dominação das mulheres, a imposição de valores tidos como válidos e a exclusão. É a imposição de um poder.
A humanidade não é um dado. É um projeto não linear ou hierárquico. É uma construção histórica que avança quando descobrimos que não há culturas superiores ou inferiores, mas diferentes formas de resolver problemas humanos. A ilusão de que algumas sociedades são sagradas e outras pagãs, ou que algumas são civilizadas e outras bárbaras, é perigosa e nega o que pretende afirmar: o humano.
As mulheres foram, por muitos séculos, desumanizadas. Michelle Perrot mostra como as mulheres foram confinadas à esfera privada, enquanto a história era escrita por e para os homens9. Hoje, reduzi-las à minoridade política e social não é apenas um retrocesso, mas a reafirmação violenta de privilégios que a modernidade democrática ainda luta por superar. As redes digitais, com seus algoritmos que amplificam discursos misóginos; a política, que abriga e imuniza bárbaros; e uma cultura dominada por espertalhões que exploram a fé e a fragilidade intelectual e emocional das pessoas, compõem o cenário de ameaças atuais. Mas é possível enfrentá-las.
No Brasil e no mundo, unificar as lutas contra o reacionarismo religioso, o autoritarismo político e o poder das big techs em torno de uma agenda democrática e progressista comum é a saída. Há que se ter coragem e disposição para tanto. Democratas, progressistas, feministas, ambientalistas e religiosos autênticos detêm a força da resistência.
Incel (involuntarily celibate). O movimento reúne homens que culpam as mulheres e o feminismo por sua solidão afetiva e sexual. ↩︎
Em inglês, MAGA (Make America Great Again). Lema da campanha de Donald Trump e nome do movimento político sob sua liderança. ↩︎
Woke: Originalmente, o termo vem do inglês e é o particípio passado do verbo to wake (acordar). Literalmente, significa “acordado”. É usado para definir a cultura progressista que busca justiça social e inclusão. ↩︎
Donald Trump manteve relações de proximidade com o bilionário Jeffrey Epstein, acusado de tráfico sexual, que se suicidou em 2019. Há indícios de que o ex-presidente norte-americano tenha participado das festas com meninas menores de idade promovidas na mansão do bilionário. Para saber mais, leia em: Sara Dorn. Entenda a história de Donald Trump com Jeffrey Epstein. Forbes Brasil, 13/11/2025. Disponível em < https://forbes.com.br/geral/2025/11/entenda-a-historia-de-donald-trump-com-jeffrey-epstein/ > Acesso em 24/04/2026 ↩︎
Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.