Futebol, política e estereótipos: a Argentina da resistência popular

A Argentina é frequentemente retratada como um país soberbo, mas essa visão esconde uma rica história de resistência popular contra a imposição de modelos alheios. Em entrevista à BBC Brasil, tentei desmontar o estereótipo, mostrando como o futebol, a política e a cultura argentina desafiam a ordem estabelecida. De Maradona a Milei, do potrero ao tango, a Argentina é um laboratório de tensões entre elite e povo, civilização e barbárie. Confira a entrevista completa, sem edições, e entenda por que a Argentina incomoda tanto.


1) Historicamente, há mesmo um contexto que coloca os argentinos em um estereótipo de soberba e de pretensa superioridade? Se sim, qual a origem dessa ideia?

A soberba dos argentinos é um estereótipo, assim como a malandragem dos brasileiros. Suas raízes são históricas e, muito provavelmente, estão associadas à contradição entre a elite e o povo, no período pós-colonial, a partir do século XIX. O ex-presidente Domingo Faustino Sarmiento, em seu livro Facundo: Civilização e Barbárie, de 1845, trata da dicotomia entre o mundo das elites brancas, associado à cultura e ao progresso, e a barbárie, o atraso e o isolamento rural dos pampas. De certa forma, sob essa tensão foi construída a ideia da República que deveria se europeizar para ser moderna em um continente marcadamente mestiço.

O futebol argentino espelhou essa tensão entre elite e povo, civilização e barbárie. Desde os anos iniciais do século XX, ele foi um campo de disputa simbólica. É possível dizer que, para a elite branca, que importou nomes ingleses para os clubes, o esporte era uma via de civilização das massas, enquanto para o povo ele foi um instrumento de resistência cultural, com um estilo criollo de jogar, livre, artístico, baseado na improvisação do campo de terra (potrero), que teve em Maradona um ícone.

Maradona, como eu entendo, é a síntese do futebol argentino e, de certa forma, do povo argentino. Representa a rebeldia contra a ordem. O seu gol contra a Inglaterra, marcado com a mão, na Copa do Mundo do México, em 1986, que ele qualificou como feito com a “Mão de Deus”, é uma metáfora da astúcia do subalterno. É a Argentina que desafia as regras do jogo, o que, para uns, é genialidade e, para outros, arrogância. E isso transparece nas conversas sobre futebol e política travadas pelo técnico de futebol Ángel Cappa e pelo cientista político Marcos Roitman, transcritas no livro Fútbol y Política: Conversaciones desde la Izquierda (2022). O futebol argentino é subversivo e reflete a capacidade popular de burlar o sistema que oprime, seja no esporte, na política ou na economia.

O estereótipo que atribui ao argentino uma pretensa superioridade, portanto, não é de todo infundado, mas é reducionista. Se observarmos a história social, veremos que o que enxergamos como soberba pode ser qualificado, na verdade, como resistência à marginalização. É uma afirmação de identidade construída por oposição a uma elite que pretendeu impor à força um padrão de civilização em desacordo com a vida vivida pelo povo.

2) Isso justificaria uma certa onda anti-Argentina? Ou esse discurso é uma maneira como a extrema-direita instrumentaliza um sentimento não tão nítido assim?

Eu não consigo enxergar uma onda global anti-Argentina. Na verdade, as redes digitais amplificam isso que se convencionou chamar de narrativa, construída por setores políticos que dela extraem benefícios. É uma teoria, como é óbvio, mas há bons motivos para acreditar que o presidente Javier Milei use o argumento para desviar a atenção sobre os resultados sociais do seu governo, que infelicitam as classes médias e os trabalhadores argentinos. Essa é uma estratégia clássica da extrema-direita, de Trump a Bolsonaro: criar inimigos externos e capitalizar o ressentimento.

A Argentina não é especialmente odiada. O que há, sobretudo por conta do evento da Copa do Mundo e graças às redes digitais, é um desvio de foco. O ceticismo quanto ao futuro econômico do país e à sua estabilidade foi transplantado para uma questão de orgulho nacional. Um problema complexo, como a crise econômica e social, se torna uma narrativa emocional acerca do amor-próprio dos argentinos, vítimas do ódio global.

3) No futebol, isso se tornou mais factível? Na recente edição da Copa do Mundo, havia um discurso nas mesas-redondas mundo afora de que a Fifa estaria privilegiando a Argentina, favorecendo a Argentina, etc. Isso teria dado mais munição a esses discursos de que há uma onda anti-Argentina?

De fato, a Copa do Mundo é emblemática, pois houve situações em que a Argentina foi beneficiada por decisões polêmicas, como é comum acontecer no futebol. Mas isso não foi uma exclusividade. A maior intervenção no jogo aconteceu fora de campo, com a pressão do presidente norte-americano Donald Trump para que o comitê responsável da FIFA retirasse a suspensão automática por cartão vermelho de um jogador da seleção dos Estados Unidos, sendo atendido. E, em outras copas, outras seleções, inclusive a brasileira, foram beneficiadas, como a do Brasil, em 1962, no Chile, ou a da Inglaterra, em 1966. A lista é longa e conhecida.

Eu creio que, nesta copa, o discurso nas mídias contra a Argentina, sobretudo as europeias, foi amplificado pelo fato de a seleção desafiar a ordem estabelecida com o seu jogo. Ironicamente, o modelo que levou o grupo liderado por Messi ao título contra a França em 2022 e foi mantido na derrota de 2026 era prático, não estético. Um futebol baseado na catimba, na irritação do adversário. E os puristas defensores do futebol bonito não aceitam isso que chamam de antijogo.

No fundo, há um preconceito contra o estilo emocional de futebol dos argentinos. Apesar de contar com Messi, assim como já tiveram Maradona, os sul-americanos mostram aos europeus que podem vencer com paixão e desordem criativa. E isso ofende o establishment.

4) Fique à vontade para complementar com informações adicionais e/ou correlatas

Anualmente, no mês de janeiro, na localidade de Jesús María, a cerca de 50 km de Córdoba, acontece um grande evento de doma de cavalos e de música folclórica na Argentina. É a expressão do país rural, tradicional, do pampa. Para um estrangeiro que conhece apenas a europeia Buenos Aires, assistir pela televisão à programação de 10 dias do festival soa como conhecer outro mundo. A Argentina é assim, essa é a sua excepcionalidade histórica, marca da dualidade que transparece, por exemplo, no tango e no futebol: é ao mesmo tempo sofisticada e marginal, europeia e crioula. Isso a torna diferente e, creio, pode ser confundido com soberba, mas marca, talvez, a relação tensa entre a promessa de modernização e a frustração da não realização plena, conforme o desejo das elites. O jeito de ser do povo.


Pós-escrito:

Em um momento em que a Argentina é governada por um presidente que emula a ditadura e trai a soberania nacional, alinhando-se incondicionalmente aos Estados Unidos e a Israel, sem considerar os interesses do povo ou a história do país, as ruas de Buenos Aires voltaram a ser palco de resistência. Na última quinta-feira (6 de agosto), milhares de aposentados, trabalhadores e estudantes protestaram em frente ao Congresso contra o projeto de Lei da Inviolabilidade da Propriedade Privada, que, embora tenha retirado o polêmico dispositivo sobre a venda de terras a estrangeiros, ainda representa uma entrega dos bens nacionais a interesses privados. Com o lema “A pátria não está à venda”, os manifestantes enfrentaram a polícia com balas de borracha, gás lacrimogêneo e jatos d’água, em mais um ato de repúdio ao brutal ajuste econômico de Javier Milei.

A resistência popular mostra que a Argentina continua de pé. Não é a soberba que define o país, mas a luta contra a submissão aos poderosos1.

Esta entrevista é um convite à reflexão sobre como os estereótipos são construídos e instrumentalizados. A Argentina que incomoda não é a da soberba, mas a da resistência. A soberba, na verdade, está do lado dos que governam para uma minoria, ignorando a história e os interesses nacionais.


Notas:

  1. “Por sus características, el acto tuvo una carga simbólica. La gente se convirtió en pueblo con un sentido de país y de pueblo soberano: un sentido de Nación, no por odio al extranjero, sino por respeto a sus derechos. Fue a defender contra viento y marea, un reclamo de soberanía. Del otro lado, en el Congreso, la represión estaba preparada para hacer una sobreactuación con los que tiraron las primeras piedras en Rivadavia y Callao. Los manifestantes, que estaban en una actitud pacífica, se apartaron del grupo que había comenzado a tirar piedras, pero cuando vieron la violencia desproporcionada de la represión, a partir de allí defendieron su derecho a manifestarse.
    Miles de policías de la Federal y porteños, más decenas de prefectos repartieron palos y gases a diestra y siniestra y no pudieron despejar la zona sino hasta cinco horas más tarde. Tiraron gases y balas de goma a los vecinos que aplaudían a la gente desde los balcones y muchos se refugiaron en los bares donde los mozos no dejaron entrar a los represores que los perseguían.
    Si en la simbología de ese enfrentamjento, los manifestantes encarnaban la defensa de la tierra, los represores hicieron las veces de ejército de ocupación: Estaban defendiendo el remate indiscriminado del territorio a extranjeros. Cuando los senadores votaron, ya no había gente en la plaza de los dos Congresos. Pero el acto fue un éxito porque tuvieron que sacar varios capítulos al proyecto. Fue una derrota tan fuerte en la calle y en el parlamento, como la de Santiago del Estero en las urnas.”. Cf.: Movimiento de tierra. Por Luis Bruschtein. Página 12. 08 de agosto de 2026. Disponível em: < https://www.pagina12.com.ar/2026/08/08/movimiento-de-tierra/ > Acesso em 08 de agosto de 2026. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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