Lula e a democracia amesquinhada em debates espetacularizados


Os debates entre candidatos não são mais um espaço de diálogo, mas um palco de espetacularização e desinformação. Em entrevista concedida ao site Terra, com trechos utilizados na matéria Estratégia, peso da IA e imagem com indecisos: como especialistas veem Lula ir ou não aos debates, analisei como a ausência de Lula pode ser uma estratégia de resistência em um cenário onde a democracia é amesquinhada por adversários que não primam pela verdade. Abaixo, a entrevista na íntegra.


1. Do ponto de vista eleitoral, quais são hoje os principais ganhos e riscos para Lula ao participar dos debates? Em uma eleição na qual ele aparece como um dos favoritos, a exposição tende a ser mais vantajosa ou perigosa?

Lula lidera as pesquisas, embora algumas apontem empate técnico com Flávio Bolsonaro no segundo turno. Sua participação nos debates seria uma oportunidade para consolidar sua imagem de estadista em um cenário polarizado, onde a oposição dissemina mentiras nas redes sociais, como a suposta ligação de seu governo com o crime organizado ou de seus familiares com a corrupção.

Os debates, mesmo com regras restritivas, seguem sendo um espaço privilegiado para destacar as realizações do governo e contrastá-las com o legado bolsonarista: afronta à democracia, desmonte de direitos sociais e relativização da soberania nacional. Além disso, permitem uma conversa direta com o eleitor, onde o carisma de Lula pode ser usado para conquistar indecisos e desiludidos com a política. Outro ativo poderoso é o contraste entre sua experiência e a inexperiência do principal adversário.

No entanto, não participar também faz sentido. Ao debater com opositores que não fazem outra coisa senão atacar o governo e sua pessoa, muitas vezes com mentiras para confundir a opinião pública, Lula estaria legitimando um jogo político desleal. Essa direita não se mostra republicana nem democrática. Não merece validação por parte do candidato à reeleição, que, como chefe de Estado e de Governo em exercício, já enfrenta um Congresso hostil, a má vontade de setores da mídia corporativa, uma campanha difamatória nas redes sociais e pressões externas.

Os riscos da participação são basicamente dois: exposição a erros ou deslizes, que serão editados e viralizados nas redes, e o desgaste físico e emocional causado pela violência dos adversários. Isso será usado para afirmar que, por conta da idade, Lula já não teria condições para um novo mandato.

Os debates, em um ambiente saudável, são fundamentais para a democracia, pois ajudam a formar a convicção do eleitor. Na eleição, os cidadãos estão governando diretamente, e por isso devem estar bem-informados. O problema é que, no Brasil de 2026, os debates não são mais um espaço de formação democrática, mas um palco para espetacularização e desinformação, e Lula, como presidente, tem o direito de escolher onde e como debater.

Para o eleitor indeciso, a participação de Lula pode ser decisiva para desconstruir narrativas falsas e apresentar seu projeto de forma direta, enquanto a ausência pode ser interpretada como desprezo pelo diálogo, um risco em um cenário de alta polarização.

2. Lula corre o risco de passar uma imagem de candidato que está evitando o confronto ao escolher quais debates participar? Qual pode ser o impacto dessa estratégia entre eleitores indecisos ou menos identificados com o petista?

O risco existe, mas é pequeno. Em 2022, como candidato de oposição contra Bolsonaro, Lula precisou reconstruir sua imagem após anos de lawfare. Hoje, como presidente em exercício, com um mandato avaliado pela população, a seletividade nos debates não é fuga, mas estratégia.

Quanto ao impacto nos indecisos, é difícil aferir com precisão, mas é possível traçar um perfil. Eleitores progressistas ou desiludidos com a política podem considerar a ausência inteligente, uma forma de não validar o baixo nível dos debates atuais. Eleitores moderados, por sua vez, podem interpretar a ausência como arrogância, especialmente se a campanha não justificar a decisão de forma clara. Esse é o grupo mais suscetível a narrativas de medo do confronto, e precisa ser convencido de que a estratégia é priorizar debates relevantes. Eleitores conservadores de direita certamente farão um cavalo de batalha, atribuindo a Lula covardia. Mas esses não votariam nele de qualquer forma.

O mais importante é a campanha comunicar os motivos da ausência.

3. Em 2022, Lula faltou a alguns debates no segundo turno, mas participou de outros, inclusive do último debate da Globo. O que aquela estratégia ensinou para a campanha atual? Há diferenças importantes entre o cenário de 2022 e o de 2026?

A lição de 2022 é que o último debate é decisivo. Nele, os eleitores indecisos prestam atenção máxima, e um deslize pode ser fatal. Por isso, Lula não pode faltar ao debate final, mas deve evitar erros que possam ser explorados pela máquina de desinformação.

Em relação a 2022, a diferença crucial em 2026 é Flávio Bolsonaro. Ele não é só um adversário, mas o herdeiro político do projeto golpista que culminou no 8 de janeiro, além de ser aliado aos interesses do governo dos Estados Unidos. Isso muda a natureza do debate. Já não é mais uma disputa eleitoral comum, mas uma batalha pela democracia da Carta de 1988.

Se em 2022 Lula precisou reconstruir sua imagem, em 2026 ele precisa defender a democracia. E os debates são um campo de batalha simbólico para isso.

4. Como comparar a situação atual com 2018, quando Lula estava preso, tentou participar do debate e teve o pedido negado pela Justiça? O fato de hoje ele poder escolher se participa ou não muda o significado político dessa decisão?

Em 2018, a proibição de Lula participar dos debates, fruto do lawfare, reforçou a narrativa de perseguição política entre seus eleitores e democratas, mobilizando a resistência contra Bolsonaro. A ausência forçada simbolizou a injustiça e contribuiu para a ideia de que Lula era uma vítima do sistema.

Hoje, ao poder decidir se participa ou não, a decisão de Lula assume outro significado: ele é agente de sua própria estratégia, não mais vítima de perseguição. Se participar, reafirma seu compromisso com a democracia e a transparência; se decidir não participar, recusa-se a legitimar um debate viciado por desinformação e ódio. Em ambos os casos, a decisão é um ato de resistência.

Em 2018, Lula foi silenciado pela Justiça; em 2026, ele decide quando e como falará. E essa liberdade é, por si só, uma vitória da democracia.

5. Considerando a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro, a ausência de um dos dois pode prejudicar mais quem? E, caso ambos não participem de um debate, quem tende a se beneficiar politicamente desse espaço?

Um debate sem um dos principais candidatos perde relevância. O público quer ver Lula e Flávio, não um confronto entre coadjuvantes.

Se Lula faltar e Flávio Bolsonaro participar, este domina o palco e pode explorar a narrativa de que Lula teme o confronto, uma estratégia clássica do bolsonarismo para mobilizar sua base. Além disso, Flávio ganha visibilidade como único candidato forte no palco. Se Flávio faltar e Lula participar, o presidente se posiciona como o adulto na sala, alguém com experiência, conhecimento de governo e um projeto para o país. A ausência de Flávio pode ser usada para reforçar a ideia de que o bolsonarismo não tem coragem de enfrentar o debate democrático. Se ambos faltarem, o debate perde seu atrativo principal.

A estratégia ideal para Lula é participar dos debates de alta audiência para neutralizar Flávio e reafirmar sua liderança, mas evitar os debates menores, onde o risco de desgaste supera o ganho eleitoral.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

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