Lula, Messias e o custo da representatividade religiosa no STF

No dia 29 de maio, durante uma agenda oficial em Sergipe, o presidente Lula anunciou a intenção de reindicar Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). Em entrevista ao Nexo Jornal, analisei os riscos dessa escolha: desde o reforço à lógica da representatividade religiosa em um Estado laico até o desgaste político frente a um Senado hostil. A seguir, as respostas integrais que dei à repórter Isadora Raupp, com um comentário final sobre como a política brasileira tem sido refém de cálculos eleitorais de curto prazo. 


1. O que Lula tem a ganhar indicando Messias de novo para o Supremo?

É difícil responder, mas Lula pode ganhar algum capital político junto ao eleitorado evangélico, um segmento que representa mais de 20% dos votos e que, embora majoritariamente alinhado à direita, tem setores passíveis de negociação.

A indicação de um nome evangélico sinaliza uma tentativa de diálogo com essa base, especialmente em um contexto radicalizado, onde o governo busca ampliar sua coalizão para além da esquerda tradicional.

Do ponto de vista puramente institucional, Messias preenche os requisitos para o cargo: tem experiência em direito constitucional e já foi indicado antes, embora o Senado tenha barrado sua aprovação antes mesmo de qualquer sabatina formal. Evitar um novo processo de indicação poderia poupar o governo de um desgaste adicional, em um momento em que enfrenta resistência no Congresso e no próprio Senado. Isso, porém, não significa que a recondução será aceita.


2. O que Lula tem a perder indicando Messias de novo para o Supremo?

O custo de uma nova indicação me parece alto e não deveria ser bancado.

Primeiro, reforça a lógica da representatividade religiosa em um Estado laico, um recuo simbólico que pode ser explorado pela extrema-direita para normalizar a infiltração de agendas teocráticas em instituições republicanas. Isso é especialmente perigoso em um país onde o neopentecostalismo já atua como força política organizada, contando inclusive com bancada no Congresso, onde o discurso moralista e antipluralista sabota o debate e subverte a representação.

Segundo, pode enfraquecer ainda mais a autoridade do governo perante o Senado. A derrota anterior de Messias mostrou que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tem poder para barrar indicações, mesmo que isso signifique desgaste para a democracia. Insistir no nome pode ser lido como falta de capacidade de negociação ou de leitura do jogo político, especialmente com um Congresso hostil.

Por fim, perde-se a oportunidade de indicar um nome mais alinhado à agenda progressista, sobretudo quanto à necessária laicidade do Estado. Há quadros tão qualificados quanto Messias, ou mais, e o Senado já demonstrou que ele não é o nome desejado. É alguém muito ligado ao governo. Isso pesa.

O momento é ruim para Lula. O Senado atual já demonstrou ser um sabotador. Uma nova derrota pode ser usada para desgastá-lo ainda mais diante de um eleitorado sensível à manipulação. Em um cenário em que as armas da desinformação são usadas sem controle, cada derrota pode ser transformada em munição pela oposição.


Um comentário extra:

A indicação de Messias é um exemplo de como a política brasileira tem sido refém de cálculos eleitorais de curto prazo, em detrimento de princípios republicanos.

A República é laica para evitar que o Estado seja capturado por dogmas, sejam eles religiosos, ideológicos ou corporativos.

Ceder a essa lógica, mesmo que com boas intenções, é abrir precedentes perigosos. O Supremo não pode ser um espelho das divisões sociais, mas sim um contrapeso a elas.

Lula, ao indicar Messias, cometeu um erro, em minha opinião. Não percebeu o processo em curso, que tem na conversão religiosa de amplos contingentes um elemento essencial para o desmonte da ordem constitucional de 1988 e sua agenda de direitos sociais.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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