Lula, o PT e o nó da rejeição.

Em entrevista concedida a um repórter de Curitiba, do jornal Gazeta do Povo, na segunda-feira, logo após o primeiro turno das eleições presidenciais, avaliei o desempenho de Lula no primeiro turno e as perspectivas para o segundo, respondendo às provocações sobre as cartadas do governo para buscar a vitória. As respostas, porém, cobrem apenas parte do cenário. As pressões externas do governo de Donald Trump, a desinformação que corre solta nas redes digitais e o pânico semeado pelo agronegócio e pelo setor financeiro junto ao eleitorado formam o pano de fundo que a entrevista não alcança, e sem o qual nenhuma leitura da disputa é completa.

Abaixo a entrevista completa.


O que podemos esperar das próximas cartadas de Lula para tentar garantir uma reeleição que está se mostrando cada vez mais distante…. Quais os efeitos de instrumentos que estão à mão como as canetas emagrecedoras, a jornada 6×1, a possibilidade de extrair petróleo na Margem Equatorial, as terras raras, etc.?

 É difícil, imediatamente após o revés eleitoral no primeiro turno, imaginar quais as soluções que a campanha de Lula encontrará para reverter a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro. O certo é que ela inicia na defensiva, pois foi alterada a narrativa de vitória, predominante antes de 4 de outubro.

Com a apuração finalizada na noite de domingo, Lula perdeu a vantagem psicológica e já não é mais o favorito. Para reverter o quadro, a campanha do petista terá de enfrentar a dura realidade da alta rejeição ao governo, algo que parece ter sido negligenciado pelos estrategistas do PT. Em apenas 20 dias, o que fará os descontentes mudarem a sua opinião em relação a quem, há quatro anos, foi eleito prometendo mudanças e, na percepção dos cidadãos, não foi capaz de entregar?  Todos os institutos de pesquisa indicaram que, no segundo turno, a oposição teria força contra Lula, independente do candidato. Mesmo Zema, com votação inexpressiva, encarnaria a rejeição ao presidente no segundo turno.

O que o discurso da noite de domingo pareceu apontar é que a campanha de Lula apostará no contraste, apresentando ao eleitor a escolha entre a defesa das políticas sociais e o risco de retrocesso, a defesa da soberania nacional e a dependência externa e, sobretudo, entre a experiência e a incerteza. Mas isso não parece comover a cidadania.

Talvez a cartada com maior potencial eleitoral para Lula, seja o fim da escala 6 x 1, cujo texto depende de tramitação no Senado. A aprovação da iniciativa pode ser apresentada pela campanha como uma conquista em defesa da dignidade do trabalhador, explorando o discurso de classes como bandeira.   Se considerarmos que há um segmento expressivo de trabalhadores a ser beneficiado no comércio, nos serviços, em restaurantes, supermercados, em transportes e segurança, por exemplo, o ganho pode se reverter em voto.

Quanto às canetas emagrecedoras e sua incorporação ao SUS, a medida já foi anunciada pelo governo e explorada no primeiro turno. Apesar de oferecer uma resposta a um problema de saúde sensível e tentar aproximar a classe média de Lula, por conta do alto preço do medicamento, há limites importantes.  Quando aprovada, a distribuição será determinada por critérios clínicos e isso pode frustrar pessoas que buscam ganhos estéticos, mas esse é um problema futuro. Para as próximas três semanas, não produzirá uma virada eleitoral.

O petróleo na margem equatorial e a terras raras certamente apareceram na campanha. Devem ser usados como parte do discurso de reindustrialização do Brasil, de melhorar a oferta de emprego e a qualidade da renda do trabalho. Sobretudo, Lula deve apostar no tema da soberania nacional, mas os eleitores não se mostraram comovidos com isso. Basta observar a votação dos partidos mais à direita e a composição da Câmara e do Senado.

Mais do que promessas, afirmação de direitos ou aposta no nacionalismo econômico, o governo, em minha avaliação, deveria enfrentar a si próprio. A pergunta a ser feita pela campanha é sobre a rejeição que foi apontada por todos os institutos e faz o segundo turno ser difícil contra Flávio e contra todos os demais. Por que Lula, neste terceiro mandato, frustrou parte significativa dos brasileiros?

Essas medidas, especialmente as canetas emagrecedoras e a jornada 6×1, que deve ir à votação 6 x 1, não são mais do mesmo? Não é correr atrás do tempo perdido?

Todas essas propostas, exceto a jornada 6 x1, salvo engano, foram apresentadas na reta final do primeiro turno. Isso demonstra que a campanha de Lula percebeu a necessidade de se movimentar para ganhar terreno junto ao eleitorado. Agora, há uma evidente necessidade de correr atrás do tempo perdido. Mas, como respondi anteriormente, não sei se isso é suficiente para reverter o quadro.

Tentar converter demandas sociais, como a oferta de canetas emagrecedoras pelos SUS e a diminuição da jornada de trabalho em pautas de campanha nesta reta final é corrigir erros de governo. Durante quatro anos deixou de fazer. Então por que agora? E o que há de novo? Por que Lula foi eleito anteriormente? O que fez a percepção do eleitor mudar em relação ao governo? Não há esta avaliação no PT?

Do ponto de vista econômico, o grande erro de Lula não foi ter “dilmado” na economia? Muitos gastos, déficits crônicos nas contas públicas, a demora em buscar soluções para um problema macroeconômico que ajuda a contribuir para gerar inflação e obrigou o Banco Central a adotar uma política monetária mais austera….

Essa é uma pergunta importante, porque ajuda a compreender o nó do governo Lula e também parte da frustração que ele produziu.

Afirmar que Lula “dilmou” na economia só é válido como recurso retórico. Na realidade, durante seu terceiro mandato, a economia registrou crescimento e gerou empregos, algo que o governo deve perseguir, além de combater a inflação. O problema foi a relativa tolerância com o crescimento das despesas e a lentidão no enfrentamento dos gastos obrigatórios.

É preciso lembrar, contudo, para não estabelecer uma falsa simetria entre Lula e Dilma, que o arcabouço fiscal atual é diferente das regras vigentes no período anterior e que a maior parte do déficit nominal decorre dos juros acumulados sobre uma dívida elevada, parte dela herdada de governos anteriores.

Talvez o grande erro político e econômico do governo Lula tenha sido ampliar gastos e políticas sociais sem conseguir convencer a população de que sua vida havia melhorado. Circula na internet um vídeo que recorta um trecho de uma fala da economista Maria da Conceição Tavares, no qual ela lembra que as pessoas não se alimentam de PIB e de números. A observação é verdadeira.

As políticas sociais do governo Lula são importantes e produziram efeitos, mas foram acompanhadas de uma deterioração de expectativas. Isso aconteceu porque o governo pareceu operar com duas cabeças: uma voltada para a responsabilidade perante o mercado e outra para a expansão das políticas sociais. Ao não definir com clareza como conciliaria essas duas dimensões, perdeu capacidade de comunicação e deixou crescer a percepção de que seus resultados são ruins.

Um dos grandes trunfos do PT, na primeira vitória de Lula lá em 2002, foi a moderação na área econômica, o que ajudou a atrair o eleitorado da classe média… Apesar dos sucessivos escândalos de corrupção, a situação econômica mais favorável ajudou a garantir sua reeleição em 2006. Podemos dizer que nesta nova tentativa de reeleição, o grande calcanhar de aquiles é a situação da economia?

Eu penso que a economia se tornou um obstáculo à reeleição de Lula, mas não porque esteja ruim. Há mais emprego, mais gente ocupada, a renda cresceu e a inflação é inferior à do final do governo de Jair Bolsonaro. O problema é que as pessoas não conseguem perceber isso em suas vidas cotidianas. Os juros estão altos, o endividamento das famílias é grande e existe a sensação de que os preços sobem mais rapidamente do que a renda. E a oposição explora muito bem o fato. Afinal, é oposição e, para a desgraça do governo, ela se comunica bem pelas redes digitais e explora com eficiência as frustações e angústias da população.

Em 2006, com crescimento e inflação controlada, a classe média e os cidadãos, em geral, toleravam melhor o governo, pois sentiam que suas vidas avançavam. Hoje, ao contrário, a melhora é estatística, mas não é experimentada. E o governo não conseguiu comunicar às pessoas que elas estavam conhecendo um processo em direção à segurança econômica. Falhou.

Ter perdido o respaldo do eleitor de classe média, não foi o grande problema de Lula e do PT?

Sim. E eu creio ter respondido isso na última pergunta. O fenômeno não é recente e nem, tampouco, exclusivamente brasileiro. A classe média, no mundo todo, está sofrendo um processo de perda de horizonte social de ascensão. As mudanças no mundo do trabalho afetaram o seu lugar na estratificação social e a sua forma de perceber a vida. Isso explica a sedução dos seus membros pelas fórmulas do passado, por aquilo que o sociólogo polonês, já falecido, Zygmunt Bauman, qualificou como retrotopia. E Lula e o PT não falaram para ela durante o governo.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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