Às vésperas da eleição de outubro de 2026, o Brasil se encontra em uma encruzilhada que transcende a simples alternância de poder. O que está em jogo é a sobrevivência do pacto democrático de 1988 frente a uma elite que, historicamente, abdica do projeto de nação em troca de uma integração subordinada ao capital externo.
O destino nacional em disputa
Com a aproximação das eleições presidenciais, não é demais recordar o que está em jogo desde que o povo brasileiro reconquistou, em 1988, os direitos que lhe foram usurpados por uma coalizão empresarial e militar de caráter autocrático1. Não se trata apenas de escolher um presidente, mas de decidir se o Brasil se consolidará como uma nação soberana, justa e democrática, ou se permanecerá sob o controle de elites que resistem à plena vigência da Constituição de 1988 e à universalização da cidadania. Elites criadas à custa do trabalho alheio.
O que realmente importa em outubro é a justiça social, capaz de mitigar as desigualdades que marginalizam a maioria dos brasileiros; a soberania econômica, que assegure ao país o controle de suas riquezas em benefício de sua população; e a democracia, como espaço de cidadania ativa e participação popular. Foi esse imperativo que nos levou, para lembrar a histórica proclamação de Ulysses Guimarães, a nutrir “ódio e nojo à ditadura”.
A disputa civilizatória de 2026
Neste ano, a sociedade brasileira será novamente convocada a decidir sobre o seu futuro. E, talvez de forma mais grave do que em qualquer momento desde a redemocratização, não se vota apenas em candidatos, mas sobre o próprio pacto constitucional de 1988, o documento que estabelece os direitos fundamentais e o sentido de nossa existência coletiva.
As elites brasileiras apresentam um padrão histórico de atuação, transmutando o que deveria ser a alternância democrática em uma disputa civilizatória. De um lado, há o projeto democrático-popular e de defesa da soberania nacional; de outro, o projeto de setores das elites, hoje hegemonizados pelo capital financeiro e por frações do agronegócio, articulados em torno da extrema-direita e alinhados ao “trumpismo”2 externamente.
Essas elites operam, desde sempre, na condição de “sócias menores” de projetos transnacionais que, na prática, resultam em desindustrialização e perda de autonomia3. Como analisou o Celso Furtado, a trajetória do subdesenvolvimento brasileiro é marcada por uma classe dirigente que prioriza a cópia de padrões de consumo externos e a preservação de privilégios imediatos em detrimento de um projeto de desenvolvimento nacional autônomo4. E essa é a nossa desgraça enquanto povo e nação.
O padrão histórico: sabotagem e mediação política
A história republicana revela um padrão de resistência das elites contra a soberania popular. A mobilização dos “de baixo” e da classe média por meio da manipulação e do uso instrumental de instituições, incluindo o Judiciário e segmentos das Forças Armadas, é uma constante. Embora cada episódio possua especificidades, um fio condutor une a crise de 1954, que culminou no sacrifício de Getúlio Vargas; o golpe de 1964; a construção midiática de 1989, que culminou na eleição de Fernando Collor; o processo de impeachment de 2016; e a ascensão do projeto autoritário em 2018, com o bolsonarismo que infelicita.
Em todos esses momentos, os grandes grupos de comunicação atuaram como aparelhos ideológicos centrais. Não é possível deixar de registrar o papel histórico do Grupo Globo: das manchetes difamantes contra o governo Vargas em 1954 à edição tendenciosa do debate presidencial de 19895. Mais recentemente, o grupo serviu como câmara de eco para o espetáculo midiático da Operação Lava Jato, que promoveu a desestabilização do sistema político e a criminalização de lideranças populares.
A comunicação como ator político e o papel do STF
A Rede Globo não atua meramente como um veículo de informação, mas como um ator político que exerce influência na reconstrução da realidade. O recente episódio da exibição do powerpoint não é um fato isolado, mas parte de uma estratégia de desgaste institucional.
Atualmente, o alvo preferencial das investidas é o Supremo Tribunal Federal (STF). Apesar de suas contradições, o Tribunal tem se constituído como um Poder relevante contra o desmonte das garantias fundamentais6. O Tribunal incomoda setores da elite e seus parceiros internacionais justamente quando atua como guardião da Constituição, protegendo direitos sociais, trabalhistas e a autonomia das instituições brasileiras frente ao autoritarismo. Nada, nesse cenário, é fruto do acaso.
Lula: símbolo da resistência democrática
Lula, candidato à reeleição, apesar de toda controvérsia, transcende a figura individual para tornar-se a expressão do movimento de redemocratização. Líder de um partido surgido das lutas do movimento operário, ele representa a possibilidade de um Brasil que aspire à justiça social e à soberania. Essa representação é vista como uma ofensa por uma elite de formação estamental, cuja acumulação histórica de riqueza se fez com base na exploração sistemática do trabalho e na negação de direitos fundamentais. Ainda hoje, persistem aqui, trabalhadores em condições análogas à escravidão.
O Brasil no tabuleiro global
A eleição de outubro ocorre em meio a uma crise estrutural da ordem internacional. A disputa pela hegemonia global faz com que os Estados Unidos em declínio voltem a sua atenção para a América Latina, vista como reserva estratégica de recursos naturais. O Brasil, por sua dimensão geopolítica e riquezas minerais, como o petróleo do pré-sal e as reservas de terras raras, é o alvo central dessa disputa.
O projeto de extrema-direita já sinalizou sua disposição para uma integração subordinada e a concessão de ativos estratégicos, contando com a complacência de elites financeiras desprovidas de sentido nacional. Flávio Bolsonaro, no convescote fascista nos EUA, declarou a disposição para a inserção colonial. Portanto, o que está em jogo ultrapassa a escolha de um governante: trata-se da sobrevivência da Constituição de 1988 e da própria soberania nacional.
O desafio que enfrentamos é reconhecer que, como advertiu Getúlio Vargas em sua Carta-Testamento, as forças da reação agem para impedir que o povo seja livre e exerça plenamente sua soberania7. Diante do impasse histórico, é preciso reafirmar o lado da democracia. Aqueles que atentam contra o destino da nação, como disse Ulysses Guimarães, serão, inevitavelmente, amaldiçoados pela história.
Notas:
- Para os que querem contestar, aqui há a atuação documentada de grupos como o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), que coordenou o apoio empresarial ao golpe de 1964, conforme detalhado no Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (2014). A denominação “civil-militar” é adotada por expressiva parcela da historiografia. cf. DREIFUSS, René A. 1964: A Conquista do Estado. Petrópolis: Vozes, 1981. O debate terminológico permanece aberto na literatura especializada (cf. FICO, Carlos. Além do Golpe. Rio de Janeiro: Record, 2004) ↩︎
- O “trumpismo” é aqui entendido como a vertente do populismo autoritário de extrema-direita que utiliza a desinformação e o ataque às instituições democráticas como ferramenta de poder. Cf. LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. Como as Democracias Morrem. Rio de Janeiro: Zahar, 2018. ↩︎
- Cf. BRESSER-PEREIRA, Luiz Carlos. A Construção Política do Brasil. São Paulo: Editora 34, 2014. O autor documenta empiricamente a perda de participação da indústria no PIB e a transferência de excedentes ao exterior nas últimas décadas ↩︎
- O conceito de cópia de padrões de consumo sem autonomia produtiva encontra formulação em FURTADO, Celso. O Mito do Desenvolvimento Econômico. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974. Esta é obra de referência central para o argumento aqui desenvolvido. Cf. também FURTADO, Celso. O Brasil: A Construção Interrompida. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992, onde o autor retoma o tema sob o ângulo da modernização inconclusa. ↩︎
- A Globo reconheceu o erro. Fez isso por meio de admissão pública feita no portal “Memória Globo” e no editorial do 50.º aniversário da emissora, reconhecendo o desequilíbrio na edição do Jornal Nacional no debate presidencial de 1989 entre Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva. ↩︎
- A atuação do STF pode ser verificada, entre outros precedentes, nas decisões que asseguraram a manutenção de políticas sociais durante crises fiscais (ADI 5595), na proteção de direitos trabalhistas fundamentais e na afirmação da competência da Corte para a tutela do Estado Democrático de Direito frente a atos de natureza antidemocrática (AP 1044 e correlatas). ↩︎
- Carta-Testamento, Getúlio Vargas, 24 de agosto de 1954. Texto integral disponível no Arquivo Nacional. O trecho que inspira a paráfrase é: “Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.” A paráfrase no corpo do texto condensa o sentido político do documento, sem pretensão de citação literal. ↩︎
