O 13 de maio nas calçadas do meu bairro: o passado que permanece e atormenta

O 8 de janeiro de 2023 não foi um acidente. Foi a expressão mais brutal da recusa das elites em aceitar que o Brasil possa ser, de fato, uma democracia. Para elas, a Constituição de 1988, que prometeu direitos sociais, é um estorvo, assim como a abolição foi, em 1888, um mal necessário.


Na manhã deste dia 13 de maio, em que relembramos a abolição da escravidão no Brasil, no longínquo ano de 1888, caminhei pelo bairro em direção à universidade. Na primeira esquina, dois homens negros dormiam enrolados em trapos, na calçada. Outros homens e mulheres, negros e mestiços, varriam as entradas dos condomínios e, mesmo na portaria do campus, fui atendido por um trabalhador descendente de escravizados.

Cruzei, também, com pessoas passeando alegremente com seus cães. Todas brancas. E, na universidade, durante o intervalo, alunos descontraídos formavam rodas no pátio sob o sol matutino. Vi apenas um negro dentre centenas de estudantes universitários. Mas, nas praças de alimentação, os funcionários são mestiços.

A experiência matutina me faz pensar na sociedade brasileira e no papel desempenhado pela elite econômica e política. Os “de cima”, obviamente, sentem-se confortáveis em sua situação. Somente esse motivo justifica a negação dos direitos plenos aos homens negros e mestiços, estendendo-se a barreira aos pobres em geral. Como diria Darcy Ribeiro, somos um moinho de gastar gentes1. E os ricos usam o povo apenas para o seu serviço.

A construção de uma nação soberana e próspera, de classe média, certamente, não faz parte dos planos de uma elite que nasceu integrada ao mundo exterior, fazendo da cópia do estrangeiro o seu norte intelectual e moral. É como colônia que os “de cima” administram a terra e exploram o povo. Esse o motivo da aversão aos líderes nacional-populares autênticos no curso da história, todos vítimas de tramoias golpistas.

Neste país em que os “de cima” se apresentam como empresários e empreendedores e reclamam liberdade econômica, repugna o fato de que a liberdade social seja solenemente ignorada. Isso demonstra como faz sentido o atual transplante do ultraliberalismo bradado pela extrema-direita global para dentro do país. Recuperando e atualizando livremente a interpretação de Roberto Schwarz, para quem o liberalismo, no Brasil, foi adotada por uma elite que nunca implementou suas premissas igualitárias2, numa sociedade em que não se alcançou a democracia social (tal como prevista na Carta de 1988), o neoliberalismo não é uma anomalia, mas nossa forma de integração ao tempo, reafirmando apenas o caráter primitivo, atrasado e imitativo dessas elites. As mesmas elites que resistem à atualização da jornada de trabalho para o capitalismo de plataformas e à manutenção dos direitos trabalhistas são as que tratam os “de baixo” como cidadãos de segunda classe, quase escravos.

“O escravo é um ente privado dos direitos civis; não tem o de propriedade, o de liberdade individual, o de honra e reputação; todo o seu direito como criatura humana reduz-se ao da conservação da vida e da integridade do seu corpo; e só quando o senhor atenta contra este direito é que incorre em crime punível. Não há crime sem violação de um direito.”3

É por desconsiderar o povo que governadores consideram natural que as polícias pratiquem chacinas, como no Guarujá e no Rio de Janeiro, em que dezenas de pessoas foram mortas sob a justificativa de confronto e a população pobre e negra, em sua maioria, foi confinada e teve os direitos violados4. Essa gente pobre que morre é facilmente reposta e já não constitui um bem de capital como o escravo de outrora. A violência serve para a domesticação, para colocar as coisas no lugar e permitir que os negócios se realizem livremente, sem contratempos. Assim como após a escravidão os fazendeiros e seus representantes políticos negavam aos ex-escravos a condição de cidadãos, tratando-os como negros libertos, ainda hoje, os “de baixo” padecem a mesma sorte, e a história, como se vê, não poupou os detalhes:

“Costuma-se alegar que aos libertos nada foi concedido além da liberdade. Nem terras, nem instrução, nem qualquer reparação ou compensação pelos anos de cativeiro. Eles foram entregues à própria sorte, o que podia ser especialmente dramático para idosos e órfãos […]. Após essa data [a Abolição], os libertos tiveram de enfrentar as manobras, muitas vezes violentas, para forçá-los a se manter como ‘negros libertos’, numa condição civil diferenciada dos demais homens livres.”5

Pois bem, ainda hoje, numa manhã pelas ruas do bairro, minha mente se encontra com o passado. Por trás da modernidade das fachadas, ressoa a mentalidade colonial das elites e a perversão de uma sociedade que não é capaz de alçar-se soberana ao futuro, fazendo valer a sua Constituição cidadã. Esta, fruto de tanta luta, corre o risco de morrer e não entregar o país prometido. E me lembro de um verso resgatado por João do Rio, numa cela que confinava a população marginalizada pela República que iniciava. Ele exprime a situação das pessoas simples que trabalham ou dormem pelas calçadas, contrastando com a alegria dos alunos e dos que passeiam com os cães:

Sou um triste brasileiro

Vítima de perseguição

Sou preso, sou condenado

Por ser filho da Nação.6


Notas

  1. “O Brasil tem sido, ao longo dos séculos, um terrível moinho de gastar gentes, ainda que, um prodigioso criatório.”  Darcy Ribeiro. O Brasil como problema. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1995. P. 13. ↩︎
  2. Sugiro a leitura de As Ideias fora do lugar, ensaio de Roberto Schwarz, no qual ele argumenta que, no século XIX, a adoção do liberalismo pelas elites brasileiras servia para marcar a sua civilidade em relação às massas. Porém, a realidade da escravidão e do autoritarismo, negava os princípios adotados, gerando uma cultura cindida entre o discurso progressista e as estruturas arcaicas.  As ideias fora do lugar. In: Roberto Schwarz. Ao vencedor as batatas. 3ª. Edição. São Paulo: Livraria Dua Cidades Editora, 1988. ↩︎
  3. Recurso apresentado em 1874 à Relação do Maranhão. Citado por Hebe M. Mattos de Castro. Laços de família e direitos no final da escravidão. In: Fernando A. Novais (coord.). História da vida privada no Brasil: Império. Volume 2. São Paulo: Cia. das Letras, 1997. P. 338. ↩︎
  4. No Guarujá, em 2023, sob o comando do governador Tarcísio de Freitas, 600 policiais (civis e militares) realizaram uma operação num bairro popular que, após 6 dias, resultou em 16 mortes. 16 mortos em 6 dias: o que aconteceu na operação policial no Guarujá. In: BBC News Brasil. 02/08/2023. Disponível em < https://www.bbc.com/portuguese/articles/c2x54ynjzx4o > Acesso em 13/05/2023.
    No Rio de Janeiro, em outubro de 2025, a polícia sob o comando do governador cassado Claudio Castro, promoveu uma ação nas comunidades pobres da Penha e do Alemão. O resultado foram 122 mortos. Destes, 7 eram policiais. Operação com 122 mortos no Rio deve ser investigada como chacina, diz CIDH. Por Saulo Pereira Guimarães. UOL. 06/03/2026 . Disponível em < https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2026/03/06/rj-operacao-com-122-mortos-deve-ser-investigada-como-chacina-diz-cidh.htm?cmpid > Acesso em 13/05/2026.
    Em comum aos dois casos, os bairros pobres, onde a maioria da população era negra, mestiça e trabalhadora. E os dois governadores são da extrema-direita. A imprensa ainda revela que, no caso do paulista Tarcísio de Freitas, as operações da polícia no litoral fizeram mais vítimas:” Dois anos após a Operação Verão de 2024, em que a Polícia Militar PM) de São Paulo matou ao menos 56 pessoas em um intervalo de dois meses na Baixada Santista, pelo menos 85% dos processos sobre os homicídios foram arquivados, apesar de uma série de denúncias de execuções sumárias e tortura. Entre as vítimas dos casos que foram para a gaveta, estão, por exemplo, um homem que fuzilado a mais de 50 metros de distância e um deficiente físico, baleado de muleta.” Operação Verão: após 2 anos, 85% dos casos com mortes foram arquivados. Por Renan Porto. Metrópoles. 03/02/2026. Disponível em < https://www.metropoles.com/sao-paulo/operacao-verao-apos-2-anos-85-dos-casos-com-mortes-foram-arquivados > Acesso em 13/05/2026. ↩︎
  5. Hebe M. Mattos de Castro. Op. Cit. P. 378. ↩︎
  6. João do Rio. A alma encantadora das ruas. São Paulo; Cia. das letras, 2008. P. 216. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

Circulação é parte do debate

3 comentários

  1. Obrigado professor! Resistir as agressões a Constituição Cidadã (Ulisses Guimarães) e manter o enfrentamento para a garantia dos Direitos fundamentais, que nunca foram “concedidos” e sim conquistados com muita luta e sangue!

  2. Neste 13 de maio, lembramos que a abolição foi apenas um passo formal, mas nunca concluída. A luta pela verdadeira liberdade continua, e o local de fala negro é indispensável para que a história seja contada sem apagamentos. Em memória de Hilário Ferreira, saudamos sua representatividade e reafirmamos que sua voz ecoa nos movimentos negros do Ceará e do Brasil: a abolição só será plena quando houver justiça racial, reparação histórica e igualdade real.

    Obrigado pelo texto bem escrito, um abraço meu amigo.

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