Imagine um mundo onde você não é explorado e simplesmente não existe. Não para o mercado, não para os algoritmos, não para o sistema. Você é um ‘inconsumível’: alguém cuja vida, cujos desejos, cujas necessidades foram julgadas sem valor por máquinas que decidem quem merece crédito, emprego ou até mesmo atenção. Esse mundo não é ficção. É o capitalismo algorítmico, onde big techs, extrema direita e neopentecostalismo se unem para fabricar uma nova casta de excluídos.
A revista Carta Capital, em sua edição de nº 1.4001, estampou sua capa com uma manchete sobre o crescimento da desconfiança dos mercados nos investimentos em IA. Mais do que especular sobre os cenários futuros para as finanças, interessa aqui discutir o modelo de negócios das big techs e suas implicações sociais e políticas. Afinal, essas corporações e suas plataformas digitais não são neutras e criam estruturas de poder que reforçam assimetrias mundo afora. Essa desconfiança é a ponta do iceberg. O problema real que envolve a IA é o modelo extrativista que a sustenta.
O modelo de negócios das big techs é baseado na extração em massa de dados pessoais dos usuários de seus serviços, o que lhes permite criar perfis detalhados dos indivíduos e dos grupos, como localização, hábitos de consumo, interações e preferências políticas. Esse conjunto de informações é utilizado para manipular comportamentos por meio da publicidade microssegmentada, que faz mais do que vender produtos: cria ciclos de consumo compulsivo, modula desejos e necessidades. Não bastasse, os algoritmos exercem influência política, como ficou demonstrado no caso da Cambridge Analytica2, que usou dados de milhões de usuários do Facebook para influenciar eleições em vários países, incluindo o pleito presidencial dos EUA em 2016 e o referendo do Brexit. Eles ampliam a desinformação e favorecem determinados atores ou temas. Por fim, no cotidiano, empresas utilizam esses dados para negar acesso a crédito, seguros e empregos, gerando a discriminação algorítmica. Há denúncias de que empresas como a Amazon demitem funcionários com base em métricas de “produtividade” não transparentes, enquanto bancos negam empréstimos a populações inteiras com base em perfis que carregam recortes racistas e classistas.
É justamente essa discriminação algorítmica que convém tratar aqui, extrapolando a definição para além da negação de um serviço por meio de dados enviesados. Neste ensaio, ela é vista como um mecanismo de produção de miséria estrutural, que gera desemprego tecnológico, exclusão do consumo e o fim da experiência humana como valor fundamental. Ao negar acesso a crédito, moradia ou emprego com base em dados enviesados, os algoritmos não apenas reproduzem desigualdades: eles as aprofundam, criando uma casta de “inconsumíveis”, indivíduos excluídos até mesmo da possibilidade de mobilidade social. Esses “inconsumíveis” não são apenas pobres no sentido tradicional: são invisíveis para o sistema, inexistentes enquanto sujeitos econômicos. O algoritmo não os explora, simplesmente os ignora, o que é, talvez, uma forma ainda mais radical de exclusão. Sem score, sem perfil monetizável, sem utilidade para a lógica extrativista, eles são descartados antes mesmo de entrar no jogo. É a miséria como dado, não como tragédia.
No estágio atual do capitalismo, ou, para falar como Yanis Varoufakis3, no tecnofeudalismo, as IAs e a automação eliminam postos de trabalho e não criam alternativas para a geração de emprego e renda. Como consequência, forma-se uma massa de trabalhadores precarizados que, na condição de desempregados, executam microtarefas em plataformas digitais sob condições sub-humanas. Além disso, os algoritmos, com base em scores não transparentes, definem quem está inserido nos sistemas de crédito, saúde e moradia, criando uma estratificação por castas incomunicáveis entre si. A razão iluminista, que colocou o ser humano no centro da cena, é substituída pela razão algorítmica, que reduz tudo a dados comportamentais. É o fim da experiência humana como valor fundamental. O novo sujeito não é sequer cidadão: é uma entidade passiva, previsível e monetizável. Essa lógica se reproduz, de forma estrutural, no sistema educacional. O avanço da educação empreendedora, baseada na linguagem matemática e avessa ao pensamento crítico, não é um acidente pedagógico: é uma resposta funcional ao tecnofeudalismo, que precisa de operadores, não de cidadãos. Universidades colonizadas por think tanks neoliberais substituem a formação crítica por “competências” técnicas, produzindo mão de obra dócil e incapaz de nomear, e portanto de contestar, a estrutura que a constrange. Formar quem não questiona é, nesse sentido, tão estratégico quanto controlar o crédito ou o emprego: é o fechamento do cerco pelo lado da consciência.
Esse sujeito, condenado à miséria de uma realidade que não compreende e que reconstrói como intangível à crítica e à ação transformadora, não é imune à frustração. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman comenta, em A arte da vida4, que em sociedades como as que estão se formando, que não são de afluência e dificultam a mobilidade social, o membro da classe média vive confinado entre os “de cima”, que estão confortáveis e seguros em sua posição, e os “de baixo”, precarizados e excluídos, que têm pouco a perder. Essa é a razão de seu desespero e angústia: eles dependem de um equilíbrio frágil, cujo status é condicionado por situações que não dominam. Basta uma crise ou transformação tecnológica para que seus empregos, padrão de consumo e reconhecimento social se diluam.
O medo real de cair socialmente insere a classe média no centro da transformação contemporânea. É ela que é explorada pelas big techs, que lucram com a instabilidade e, com seus negócios, promovem a erosão da democracia e a deterioração dos vínculos sociais. O geógrafo francês Christophe Guilluy identificou o problema ao analisar o desaparecimento da classe média ocidental. Na introdução de O Fim da Classe Média5, ele escreve que “essa ruptura dos elos, inclusive os conflituosos, entre a parte de cima e a de baixo, que continha a semente do abandono do bem comum, nos fez entrar na a-sociedade. De agora em diante, no more society” (p. 10).
O temor de ser visto como um fracasso em um mundo que idolatra o sucesso, reforçado pelo sistema educacional e pelas igrejas neopentecostais, que mostram a riqueza como sinal de eleição divina, ajuda a compreender a triangulação entre as big techs, a extrema direita política e a religião de vertente messiânica. Essa aliança não é circunstancial: ela tem uma arquitetura. As big techs fornecem a infraestrutura do ressentimento, algoritmos que amplificam o medo, a raiva e a sensação de humilhação, porque esses afetos geram engajamento e engajamento gera lucro. A extrema direita oferece o enquadramento político desse ressentimento, convertendo ansiedade difusa em inimigos concretos e em projetos de poder. E a religião messiânica fecha o circuito, dotando tudo isso de uma narrativa de sentido: a crise não é sistêmica, é espiritual; a solução não é coletiva, é individual e providencial. Nada é ocasional ou inocente: há um modelo de negócios em curso, reestruturando a ordem do mundo com base na extração de renda e na concentração inédita de riqueza e poder. Ao mesmo tempo, há um outro mundo, com suas instituições e valores, que oferece um obstáculo à reconfiguração do novo, pois a democracia e o universo de direitos configuram um tipo de sociedade política voltada à promoção do bem comum. Por fim, existe a exploração do ressentimento, algo que lembra a análise de Wilhelm Reich6 sobre a situação da classe média alemã nos anos 1930. A classe média contemporânea, ameaçada pela precarização e pela perda de status, busca refúgio em lógicas que prometem restaurar uma ordem perdida por meio do autoritarismo político, da salvação religiosa ou da tecnologia como solução mágica. As big techs lucram com essa busca, oferecendo “soluções” algorítmicas que, na verdade, aprofundam a crise.
Os medos da classe média são similares aos dos alemães da República de Weimar, ameaçados pela crise econômica: o temor relacionado ao futuro e à perda de status. Daí sua adesão ao conservadorismo, ou, para lembrar novamente Bauman, sua visão retrotópica7, uma utopia às avessas, de um passado idealizado visto como melhor por ser já conhecido (como o sonho de alguns brasileiros de reviver a ditadura militar de 1964). Reich observou que, diante de uma situação que fazia declinar o poder aquisitivo e o prestígio social, surgiam a desorientação e, com ela, o ressentimento. Pessoas recalcadas, formadas sob um padrão psíquico que oferecia o conforto de uma identidade clara, viam-se sob o temor da desorientação e da perda de lugar. O pai provedor, autoritário, lutava para restaurar a hierarquia social que julgava ameaçada por inimigos concretos: os judeus e os comunistas. Isso lhe garantiria a satisfação simbólica de restituição da ordem e de seu lugar nela.
Sob certo aspecto, a ansiedade da classe média é o motor da extrema direita e o alimento do fascismo. É isso que está colapsando as democracias e destruindo as sociedades erigidas sob a lógica da razão iluminista. Se a razão algorítmica reduz a humanidade a dados e a democracia a um mercado, cabe a nós, intelectuais, educadores e cidadãos recuperar a experiência humana como valor central. Isso exige não apenas criticar as big techs, mas construir alternativas: desde a regulamentação estrita dos algoritmos até a reinvenção de uma educação que forme cidadãos, não consumidores. O futuro não está escrito nos códigos das plataformas. Ele ainda pode ser disputado.
Notas:
- A manchete da capa era “A Nova Bolha? Cresce nos mercados a desconfiança em relação aos investimentos em IA”. A matéria, assinada por Carlos Drummond, é intitulada “Bola de Neve” e trata das projeções de receitas das bigh techs. ↩︎
- O caso Cambridge Analytica foi um escândalo global ocorrido em 2018. Dados de cerca de 80 milhões de usuários do Facebook foram coletados sem consentimento e usados para criar perfis psicológicos influenciando a eleição de Donald Trump em 2016 e a votação do Brexit, no Reino Unido. Aparece ligado à Cambridge o nome de Steve Bannon, prócer da extrema direita e relacionado aos Bolsonaro, no Brasil. ↩︎
- Yanis Varoufakis. Tecnofeudalismo: o que matou o capitalismo? São Paulo: Planeta do Brasil, 2025. ↩︎
- Zygmunt Bauman. A arte da vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009. ↩︎
- Christophe Guilluy. O fim da classe média: a fragmentação das elites e o esgotamento de um modelo que já não constrói sociedades. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2020. ↩︎
- Wilhelm Reich. Psicologia de massas do fascismo. 2.ª edição. São Paulo: Ed. Martins Fontes, 1988. ↩︎
- Zygmunt Bauman. Retrotopia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2017. ↩︎
