A história não regride, mas avança para um matadouro. E nós, suas vítimas, marchamos em direção ao abismo com bandeiras alheias nas mãos e mentiras na boca. Em um mundo onde a verdade é uma moeda desvalorizada e a política é um teatro de sombras, resta-nos uma pergunta: como resistir quando a própria realidade foi sequestrada?
Eu posso apenas imaginar o que sentiu quem viveu a loucura do nazismo e tentou resistir à barbárie. Mas hoje enfrento a tragédia do meu tempo. Este é um momento angustiante, no qual a realidade foi substituída pela construção de percepções. A guerra de narrativas se tornou a ferramenta principal da política, substituindo o debate de ideias e ameaçando enterrar as democracias para inaugurar uma longa noite de trevas. A história não regride, mas avança para um matadouro sob a cumplicidade das vítimas.
Este é o momento em que populações inteiras se tornam seguidoras fanáticas de sujeitos como Trump, Milei, o ex-presidente Bolsonaro e Kast. Vivemos a era da pós-verdade, na qual fatos objetivos são substituídos por apelos emocionais e crenças pessoais. Os políticos citados, membros do que se pode qualificar como extrema-direita internacional, usam a mentira como arma central de sua estratégia. E essa estratégia é facilitada pelas big techs e seus algoritmos.
As plataformas não são neutras. São estruturas de negócios e ferramentas de dominação, cujos algoritmos priorizam o engajamento, não a veracidade. Assim, aprisionam os usuários em bolhas de desinformação e câmaras de eco que apenas ressoam suas convicções já formadas. É um horizonte de controle da opinião que a propaganda totalitária do século XX buscou, mas não teve meios técnicos para alcançar.
A extrema direita internacional e os oligarcas das big techs caminham juntos na mesma direção, que é deslegitimar as democracias. Seu alvo são as instituições que sustentam a sociedade aberta: a imprensa tradicional, a ciência, o sistema de justiça e a crença nas eleições. O resultado? Uma guerra cognitiva que, por enquanto, eles estão vencendo.
Hoje, a política está esvaziada de conteúdo. Dominada por influenciadores e figuras aberrantes, não há mais debate sobre projetos de futuro. Restam apenas farsa e embuste. No modelo de negócios das big techs, a desinformação é monetizada. Quanto maior o engajamento, maior o retorno. E isso favorece o extremismo de direita.
As elites que controlam essas plataformas, formada por tipos como Peter Thiel, Mark Zuckerberg e Elon Musk, demonstraram ter pouco ou nenhum compromisso com a democracia e os direitos humanos. O poder que concentram as coloca na condição de uma casta que ambiciona controlar a humanidade e sugar a renda do trabalho alheio, matando inclusive o capitalismo. São o que o economista grego Yanis Varoufakis, em seu livro Tecnofeudalismo (2023), qualificou como tecnofeudalistas: um grupo que já não lucra apenas explorando o trabalho, mas cobrando pedágio pelo acesso às plataformas digitais que organizam a vida contemporânea.
A posse de Donald Trump para este segundo mandato foi significativa nesse sentido. Boa parte do grupo dos oligarcas das big techs estava ao seu lado, assim como Peter Thiel, cofundador da Palantir, demonstra aproximação crescente com Milei na Argentina1.
Este novo período eleitoral brasileiro, com personagens como Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado, demonstra quão afastados estamos dos princípios que sustentam a democracia. A regra do sistema de representação é utilizada para mobilizar emoções e identidades, não para discutir o futuro da sociedade política.
As redes sociais substituíram as ruas e o parlamento. São o campo de batalha no qual a desinformação é a arma de guerra escalável e quase impossível de combater. O WhatsApp e o Telegram mobilizam grupos, e a inteligência artificial cumpre a função de construir difamações e substituir a realidade. Tudo baseado na mentira industrializada, como no caso das fake news sobre urnas eletrônicas em 2022, que mobilizaram milhares para atos antidemocráticos, ou das teorias conspiratórias sobre o STF, que deslegitimam a justiça.
As multidões que desfilam com bandeiras de Israel ou dos Estados Unidos em atos da extrema-direita perderam a capacidade crítica. Aderem por um mecanismo de fanatismo que, guardadas as radicais diferenças históricas, ecoa o que Hannah Arendt chamou de “a banalidade do mal”. São pessoas comuns, manipuladas e alienadas, que aderem ao autoritarismo sem perceber as consequências. Aceitam teorias conspiratórias contra vizinhos e concidadãos.
Essa gente, manipulada por pastores, influenciadores e políticos oportunistas, aprendeu a desprezar a democracia e negar a soberania. Caminha para o matadouro crendo encontrar a glória. Isso acontece porque seu medo e sua insegurança econômica são explorados por quem oferece soluções fáceis e bodes expiatórios, ocultando as causas complexas dos problemas. Soluções binárias do tipo “contra o mal, ficamos com o bem”, tendem a oferecer esperança. O curto prazo engole as construções de longo prazo e a racionalidade.
Como democrata, sinto-me chamado a reivindicar “o direito a não mentir”, conforme o instigante título do livro que reúne os discursos de Albert Camus, editado pelo selo Debate (Penguin Random House) sob o título original Conferências e Discursos (1936-1958)2. Em um mundo no qual a estratégia política é a mentira, defender a verdade é fundamental para a democracia e um imperativo ético civilizacional.
Não se trata de abandonar a esfera pública, mas de reivindicar radicalmente valores e práticas democráticas; apontar os inimigos, pois não são meros adversários os que fazem da mentira uma arma e atacam os direitos humanos universais em nome de coisas como religião, liberdade econômica ou o que seja. Quem ataca e destrói instituições e despreza os seres humanos, sobretudo os mais fracos, é inimigo, não adversário. E assim deve ser tratado. Sem tolerância com os intolerantes.
O momento é crítico. A resistência baseada na verdade, em oposição à pós-verdade, em uma frente ampla de progressistas, capazes de defender a laicidade do Estado, é urgente. É preciso recuperar o senso de urgência e desconstruir a canalhice travestida de empoderamento do indivíduo.
É da civilização que temos de tratar, numa guerra de posições cujo sentido é o nosso destino comum.

Obrigado professor! Poucas vezes li algo tão lúcido!