A camisa amarela, outrora símbolo de união, hoje é bandeira de ódio. E os jogadores celebram com gestos religiosos enquanto o capital celebra o fim de um esporte que já foi resistência. Ao povo resta a conversão ou o vício das apostas.
Houve um tempo em que futebol e samba se misturavam como expressão de um Brasil popular e mestiço. Naquela época, gente trabalhadora, cuja origem era a escravidão e a imigração que a sucedeu, se unia na construção das bases do Brasil Moderno, cujo legado é desfrutado pelos filhos da elite. Ainda assim, nos morros e nas várzeas, batuque e bola formaram o imaginário hoje apropriado pelos donos do dinheiro.
Quando as chuteiras eram de couro e a bola rolava na grama, o futebol era jogado por gente igual aos demais brasileiros. Os tipos que frequentavam o cimento das arquibancadas dos estádios se enxergavam nos seus craques, cujos nomes eram João, José e, às vezes, apelidos de nascimento. Um pai levava seu filho ao campo de jogo, se sentava ao lado de um torcedor de outro time e ainda tinha uns trocados para comer um lanche. Era o tempo em que se buscava o benzimento da mãe ou do pai de santo para a proteção, sem agradecimentos com dedos apontados ao céu a cada gol e louvores a cada entrevista.
Esse tempo passou. Hoje o samba está confinado no carnaval dos sambódromos com seus camarotes para endinheirados e famosos; e o futebol foi aprisionado em locais chamados de arenas, nos quais o piso em que rola a bola é sintético, assim como a expressão de muitos jogadores. O capital tomou tudo e arrancou dos trabalhadores a sua forma mais autêntica de manifestação cultural. A identidade construída ao longo do século XX, manifestação do que o país poderia ser, é um negócio administrado pela dona da marca da seleção brasileira e suas parceiras corporativas. Aos pobres resta a conversão às igrejas que inundam as periferias do Brasil. Impõe-se uma teologia importada cujo resultado é a mentalidade submissa.
Neste início de noite, quando estrear na Copa do Mundo de 2026, nos Estados Unidos, provavelmente nenhum jogador da seleção, todos ricos e famosos, se lembrará de Leônidas da Silva, que foi aclamado pelos franceses, ou da elegância de Didi, da classe de Zizinho e de todos os que vieram antes e depois. Quando muito, farão reverência aos mundialmente conhecidos, que possuem status de celebridade. O povo que os viu nascer e está ameaçado por sanções pelo país anfitrião também será esquecido. Afinal, política e futebol não se misturam. A organização permite apenas a confusão do esporte com o negócio, haja vista os inúmeros contratos assinados por cada participante do evento e pela própria promotora.
Esta Copa do Mundo, de certa forma, significa o fim de uma ideia de nação que tinha no futebol um símbolo. Ao observar os comentaristas de futebol na TV, nas redes digitais e em canais no YouTube, é possível perceber que não falam mais do jogo. Discutem fenômenos de uma plataforma de entretenimento que envolve muitas formas de drenar a renda dos aficionados, sendo a mais perversa o jogo de azar. Este destrói as vidas dos trabalhadores usando o patrimônio imaterial construído pelas gerações passadas como meio para o vício. E haja jogador levantando os dedos para o céu a cada gol. Todos crentes!
E pensar que, em outro tempo, numa Copa disputada sob uma ditadura sanguinária na Argentina, houve jogadores que denunciaram a apropriação do futebol por inescrupulosos. O selecionado francês ficou famoso por pensar em boicotar o torneio, e a Suécia se opôs à sua organização. Sabe-se, até, que alguns jogadores teriam ido à Praça de Maio prestar solidariedade às mães dos desaparecidos. Os do escrete brasileiro foram se manifestar em outro contexto, alguns anos mais tarde, sob o nome de Democracia Corinthiana. Na Argentina, sob tutela de militares, a começar pelo técnico, era impossível.
Enfim, no Brasil, que se diz o “país do futebol”, a camisa amarela hoje é usada como bandeira por setores da extrema-direita, que a transformaram em adereço de ódio e divisão. Enquanto a FIFA prega a inclusão, a Copa de 2026 é marcada por restrições a seleções como o Irã e árbitros como o somali, barrados pelos EUA. O ‘Fair Play’ virou piada. O que importa é o dinheiro.
Amém?
