O ressentimento mantém viva a memória do agravo, dirige a agressividade para fora e impede a elaboração simbólica do que se vive. Em vez de perguntar o que pode fazer para mudar a própria condição, o ressentido pergunta quem deve ser punido.
Vivemos numa quadra histórica em que o ressentimento é o alimento do ódio. O Brasil em que pessoas votam num sujeito como Flávio Bolsonaro é um lugar em que o temor da classe média de perder status, renda e poder se converte em identidade coletiva: o sofrimento individual transmuda-se em desejo de punição dos demais, em raiva expressa contra bodes expiatórios. Os pretos, os pobres, os homossexuais, os intelectuais carregam o fardo de serem apontados como culpados pelo sofrimento psíquico dos que veem a própria situação derruir.
Para quem não sabe, ressentimento é mais do que raiva. É um afeto que dura ao longo do tempo, com carga negativa1. O idiota ressentido pensa que vale mais do que os outros, considera-se douto entre ignorantes. Alimentado por sua impotência, busca vingança em todas as ocasiões. Sempre atribui ao outro a culpa pela sua situação. Desvaloriza o eleitor de Lula, o defensor da causa palestina, o professor que domina o conhecimento e não necessita do Google. É um imbecil que busca um adversário para se afirmar.
Em sua lógica torta, pensa que sofre porque o outro é feliz ou, ainda, porque o outro o prejudica por ser ignorante. É como o bolsonarista que certa vez, num bar, entrou cheio de si e disse ao conhecido que, assim que Flávio vencer a eleição, vai eliminá-lo para melhorar o ambiente. Um jacu. Uma ave galinácea triste, triste, que mal avoa.
O ressentimento é um perigo para a sociedade, pois gera uma força social perversa. Isso acontece quando as experiências dos sujeitos se enfeixam (a lembrança do fascismo é proposital) numa mesma narrativa organizada, como, por exemplo: Getúlio Vargas é corrupto, o comunismo vai tomar os seus bens e destruir as famílias, Lula é ladrão. O desgraçado em vias de perder o seu lugar na estratificação social, o homem que perdeu os seus bens, o sujeito a quem a vida fechou as portas encontram uma explicação comum para a sua condição. E é o outro. Esse é um discurso dual e religioso, fácil. Sedutor.
A dinâmica do ressentimento pode ser descrita começando pelo sentimento de humilhação. O humilhado vive o temor da perda de segurança e de reconhecimento social. Depois, transita pela impotência, quando o sujeito não encontra forma de reverter a situação. A partir disso, projeta a culpa sobre um bode expiatório, um inimigo externo. É quando acontece a moralização, que nada mais é do que a declaração de que aquele outro é inimigo não pelo que fez, mas pelo que é (o caso do sujeito no bar). Quando os ressentidos se encontram, há o fortalecimento e a criação de uma identidade coletiva. Passam a ser a “gente de bem” em relação ao comunista. Disso resulta a violência em todas as suas formas, simbólicas ou concretas. E sempre parecerá justa. E estará tudo certo.
O que o ressentido não sabe, entretanto, é que perdeu a capacidade de ser um indivíduo único, no sentido arendtiano2. Sempre vai necessitar de um líder para dar forma ao que sente e expressar a sua dor e o seu ódio. Este vai encarnar o “eu” e produzir a revanche, restituindo a sensação de dignidade perdida ao tonto que já não realiza nada sozinho, pois é mais uma vítima das estruturas do mundo.
Talvez seja por este motivo, por não realizar mais nada sozinhos, que os ressentidos necessitem de Bolsonaro, de Trump, de Milei e de outros seres aberrantes. São como seres castrados que creem que a sua humilhação será reparada pela ereção do outro. Na verdade, buscam um sentido para o sofrimento que disfarçam na destruição do que consideram inimigo. Pena que nunca o alcancem.
Reich diria que a couraça dessa gente3, a mesma do líder que se declarou “imorrível, imbrochável e incomível”4, é uma defesa rígida que os impede de entrar em contato com a dor, a fragilidade e a responsabilidade de enfrentar a vida e transformá-la. O ressentimento mantém viva a memória do agravo, dirige a agressividade para fora e impede a elaboração simbólica do que se vive, mantém a alienação e impede a ação consciente. É coisa a ser explorada pelos que manipulam a massa. Em vez de perguntar “o que posso fazer para mudar a minha condição?”, o desgraçado pergunta “quem devo punir?”. Esse é o bolsonarismo.
Eu devo ser humilhado e eliminado porque não sou eleitor de Bolsonaro. Não pertenço ao grupo e ofendo a identidade coletiva. Sou o bode expiatório da turma. É sobre mim que a vingança deve ser dirigida. Isso os torna seguros de si. Necessitam me expulsar e humilhar.
A couraça do caráter, que, segundo Reich, protege o ego contra as angústias internas e ameaças externas, torna, para o bolsonarista, todo aquele que não comunga a sua crença um judeu na Alemanha dos anos 1930. Sou uma ameaça e um bode expiatório, ainda que esteja apenas bebendo um chopp. Sou um inimigo porque traio o grupo, a família, a nação ou o que quer que seja. Não sou concidadão, mas alguém a eliminar. A minha simples presença incomoda, pois não partilho a ficção da mamadeira de piroca, não desqualifico homossexuais, não humilho pretos. Devo ser despersonalizado por isso.
Os doentes morais, vítimas de forças que não compreendem, julgam a pessoa diferente, não os atos cometidos. Essa lealdade identitária, base do totalitarismo, está acima da responsabilidade ética e moral e é sintomática da doença moral que os acomete. O seu critério de certo e errado, verdadeiro e falso, é ditado pelo pertencimento, pelo ser dos nossos contra os deles. Essa é uma defesa narcísica da própria dignidade, tida como tão pura que é imune a desvios. O caminho da psicopatia.
O que vivemos hoje, no Brasil, na véspera de uma eleição decisiva para a nossa jovem democracia, não se deve simplesmente à manipulação de um líder ou à crise econômica. Há, na estrutura psíquica e moral da população, disposições autoritárias. O estudo da formação social brasileira a partir dos seus clássicos — entre os quais incluo os autores pré-sociológicos, como Paulo Prado5 — apresenta pistas para o peso da figura paterna, a sexualidade e a sua repressão no catolicismo da Contrarreforma, o nacionalismo, a figura do líder como salvador ou condutor e o desprezo pelas minorias.
Entre nós, a família patriarcal e autoritária cumpre a função que Reich identificou na Alemanha, no mesmo modelo de família, a de ser um estado em miniatura, no qual o infante se submete à autoridade, reprime a rebeldia e, depois, transfere essa energia para um líder, que segue cegamente6. Os funcionários médios, entre nós, os mestiços que ocuparam os cargos do estado como apadrinhados, são, na analogia, a pequena burguesia alemã que temia perder status pela ascensão do proletariado; aqui, o papel do proletariado em ascensão cabe aos beneficiados do Bolsa Família, do Prouni e dos demais mecanismos redistributivos. São eles os bodes expiatórios.
A Psicologia de Massas do Fascismo continua uma leitura necessária. Li-a no segundo grau, por conta da militância estudantil. Reli-a em outras ocasiões. Continuo apenas desejando beber um chopp e viver em paz, mas em um mundo com justiça social.
Notas:
- KEHL, Maria Rita. Ressentimento. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004. ↩︎
- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, v. 1, 1989. A perda da individualidade e da capacidade de agir por conta própria no homem das massas e a exploração da solidão como solo do totalitarismo. ↩︎
- REICH, Wilhelm. Análise do Caráter. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes,
(1933) 1995. A couraça do caráter (Charakterpanzer) como “expressão concreta da defesa narcísica cronicamente implantada na estrutura psíquica”. ↩︎ - A autodescrição é de Jair Bolsonaro, repetida em discursos e publicações entre 2020 e 2021 (“sou imorrível, imbrochável e também sou incomível”). Ver “Imbrochável? Discurso hipersexualizado de Bolsonaro é típico de quem se sente ameaçado, diz psicanalista”. BBC News Brasil, set. 2022. Disponível em: < https://www.bbc.com/portuguese/brasil-62795997 > . Acesso em 22/10/2026. ↩︎
- PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. L&PM Pocket, 2023. ↩︎
- WILHELM, Reich. Psicologia de massas do fascismo. Porto: Publicações Escorpião, 1971. ↩︎
