O jantar de Flávio Bolsonaro e a guerra contra o Estado social

Em um jantar discreto, Flávio Bolsonaro selou com banqueiros e gestores de investimento o destino que o mercado financeiro reserva ao Brasil: austeridade, cortes em direitos sociais e o desmonte do Estado como projeto de nação. Não foi um simples encontro, mas um ato de guerra contra o Estado social, repetindo a estratégia que, em 1954, levou Getúlio Vargas ao suicídio e, hoje, mira Lula e a Constituição de 1988.


O grupo que ganha com a exploração do povo e da terra no Brasil não é original em sua estratégia de domínio. Na década de 1950, apoiado nos barões da imprensa, hoje transformados em proprietários da mídia corporativa, mobilizou bens simbólicos para impor a deslegitimação política do construtor do Brasil moderno. Getúlio Vargas suicidou-se em 24 de agosto de 1954, após a difusão de uma série de manchetes que o envolviam em um “mar de lama” e o desmoralizavam como líder corrupto de um governo igualmente corrupto.

Para a construção do imaginário popular, jornais como a Tribuna da Imprensa, por exemplo, publicaram artigos difamatórios e ofensivos, contendo palavras repugnantes, como estas de João Duarte Filho: “Sobretudo, é preciso alijar Getúlio. Em primeiro lugar, é preciso alijar Getúlio. Erradicá-lo, extirpá-lo da vida pública nacional, como se faz, pela cirurgia, com as infecções e com os cancros. Ele pesteia, deteriora tudo em que toca. Ele é o fim.”1

O destino de líderes populares, envolvidos em projetos de desenvolvimento nacional e com atenção à justiça social, é sempre a desmoralização. A mídia não faz outra coisa senão destruir suas reputações com textos morais redigidos por analistas a soldo dos donos do dinheiro e do poder. Cada rico tem seu jornalista de estimação, seu tabloide, sua rádio e, talvez, sua TV. Coisa fina.

Com seu suicídio, em 24 de agosto de 1954, Getúlio Vargas aplicou um contragolpe nos grupos exploradores e em seus sócios na imprensa. O povo, que havia sido mobilizado para derrubar o governo que concedera o aumento de 100% no salário mínimo, em maio daquele ano, acordou e passou a hostilizar os jornalistas e seus patrões. Viaturas dos jornais O Globo e Tribuna da Imprensa foram depredadas. No Rio de Janeiro, como descreve Jorge Ferreira, “o sentimento de injustiça provocou violentos motins populares, apesar da grande repressão policial.”2

Hoje, passadas mais de sete décadas da tragédia que vitimou o líder gaúcho, a história se repete contra outro presidente popular e com um projeto de desenvolvimento nacional. Luís Inácio Lula da Silva, em seu terceiro mandato, parece ser o destinatário das palavras da carta-testamento de Getúlio Vargas, quando este adverte: “Não querem que o trabalhador seja livre.”

De fato, contra Lula e seu partido pesam preconceitos e acusações sem provas. Todas envolvem juízos morais. As elites conservadoras lutam desesperadamente para manter o status quo e sabotar o próprio povo. Para elas, o Estado, enquanto sociedade política, não aponta para um destino comum. A justiça social e a democracia são obstáculos e devem ser suprimidos para garantir a fruição privada da vida, ao custo do bem-estar coletivo. É por isso que gritam por austeridade fiscal contra os direitos e contra a redução das desigualdades. Não lhes interessa a sorte dos “de baixo”, que não passam, afinal, de sucedâneos dos escravos africanos.

Quando banqueiros se reúnem com o candidato oposicionista Flávio Bolsonaro e o tratam como alternativa viável ao presidente Lula da Silva, é sinal de que tudo muda para permanecer igual, como vaticinou Lampedusa3. Afinal, os “de cima”, quando falam em cortes nos gastos, querem mesmo que sejam sacrificadas as áreas da saúde, da previdência e da educação públicas. A austeridade lhes é cara, desde que o povo pague a conta e surja uma oportunidade a ser explorada pelo setor financeiro, ao custo da desgraça dos pobres.

Em jantar estratégico com figuras representativas do Bradesco, do Itaú, do Santander e do Nubank, entre outros, o candidato do mercado financeiro e de Trump, Flávio Bolsonaro, assumiu o compromisso com a chamada austeridade, mesmo que isso signifique corte em investimentos em áreas essenciais. Falou em diminuir o número de ministérios e agradou à patota, pois isso implica a redução da representação de políticas públicas e a centralização em áreas de interesse da tigrada do mercado. Não bastasse, mencionou a intenção de montar uma bancada forte no Senado para promover o controle institucional do Supremo Tribunal Federal. É o que significa seu desejo de promoção de impeachment de ministros da Corte. De fato, foi um jantar muito proveitoso e com tom absolutamente democrático!

Em jogo, como no passado — sem que a mídia dê um pio, ocupada que está em buscar corrupção no governo do presidente Lula —, está o destino da sociedade brasileira. A promessa de austeridade e de um novo teto de gastos feita por Flávio Bolsonaro aos banqueiros aponta para o corte de investimentos públicos em áreas essenciais como saúde, educação e assistência social. Mas é isso mesmo o que querem os ricos. Não suportam a ideia de que o Estado tenha por finalidade o bem comum de seu povo. Querem, sim, precarizar ainda mais os serviços essenciais, transferindo tudo o que pode ser explorado privadamente para os fundos da Faria Lima. Imaginam extrair mais renda dos pobres, vinculando-os a planos de saúde suplementar e à indigência da educação particular, que, como temos observado, precariza a condição docente e imbeciliza os discentes. É a busca pela reposição da ordem, na qual o peso do ajuste recai sobre os “de baixo” e isenta o mercado financeiro e as elites econômicas. “Não querem que o trabalhador seja livre.”

Os analistas empregados pela mídia corporativa, que estão indignados com o que qualificam como “gastança” do governo Lula ou com uma suposta corrupção envolvendo pessoas de seu entorno, não são ignorantes. Sabem que a Constituição de 1988 é mais do que um marco legal. Ela é um pacto civilizatório que define o Brasil como um país que deve priorizar o bem-estar social, o desenvolvimento econômico com justiça e o pleno emprego. Com sua indignação a soldo, servem aos “de cima” para o desmonte desse projeto de Estado social, manipulando as emoções do público que alcançam.

A Constituição, que é ofendida pelos valentes, foi uma resposta à ditadura que recebeu o apoio de seus patrões. Ela estabelece que a ordem econômica deve garantir uma existência digna a todos e que o Estado deve atuar para reduzir as desigualdades sociais, sendo o pleno emprego um objetivo central. Por que não falam sobre isso nas sabatinas com os candidatos do mercado? Por que não abordam a questão quando falam em “gastança”? É que estão todos confortáveis, enquanto os trabalhadores e os pobres padecem sob uma elite que faz do rentismo e da exploração da terra e do trabalho um modo de vida.

A austeridade que esses analistas, que povoam a mídia corporativa, vendem como altamente técnica é um embuste. Ela é política. É a posição de um setor da sociedade que vende a narrativa de que o Estado é ineficiente e o mercado resolve tudo, coisa que a história demonstra ser pura ideologia. A liberdade econômica que advogam é uma traição ao interesse público. Seu livre mercado é um mito que interessa ao agronegócio, aos bancos e às big techs, mas não aos cidadãos.

Os banqueiros que se reuniam com Flávio Bolsonaro, a mídia corporativa e o andar “de cima” não querem que o trabalhador seja livre e o povo, independente. A resistência que impõem ao fim da jornada de trabalho 6 x1 exprime seu caráter. E é contra eles que esta eleição é disputada.


Notas:

  1. Tribuna da Imprensa. Edição de 5 de agosto de 1954. Página 3. ↩︎
  2. Jorge Luiz Ferreira. “O carnaval da tristeza: os motins urbanos de 24 de agosto”. In: Ângela de Castro Gomes (Org.). Vargas e a crise dos anos 50. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994. ↩︎
  3. O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “Tudo deve mudar para que tudo fique como está”. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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