O modelo Milei: a farsa neoliberal que a extrema-direita quer para o Brasil

A extrema-direita brasileira sonha com o modelo Milei: superávit fiscal, inflação controlada e PIB em crescimento. Mas esconde que, na Argentina, esse “sucesso” macroeconômico é pago com informalidade recorde, salários em queda livre e um quarto da população na pobreza. A farsa do trickle-down esconde que o ajuste é para benefício dos ricos, o inferno é para o povo.


Os adeptos das candidaturas de Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado e Romeu Zema convergem na crítica ao que chamam de gastança petista. Para os valentes, o Estado brasileiro, sob o governo do presidente Lula, não é austero o suficiente e faz “farra” com o dinheiro público. O modelo alternativo que apresentam é o de Milei, na Argentina, ainda que não o citem diretamente.

De fato, a Argentina de Javier Milei alcançou certa estabilidade macroeconômica. Há superávit fiscal, a inflação foi reduzida e o PIB apresenta algum crescimento. O problema, para parafrasear a saudosa economista Maria da Conceição Tavares, é que o povo não se alimenta de dados econômicos.

Os benefícios da suposta recuperação, que encanta a extrema-direita brasileira e seus apoiadores no mercado financeiro, não chegam à população argentina. Aliás, foram conquistados ao custo do seu sofrimento. Hoje, a informalidade no trabalho bate recordes e o salário real sofre queda brutal, aumentando a vulnerabilidade social. Não bastasse, o ajuste fiscal regressivo, com a redução significativa do gasto público, afetou os serviços sociais essenciais, dos quais depende a parcela mais pobre dos argentinos.

A opção deliberada pela estabilidade em detrimento do social, o chamado trade-off, levou a Argentina à desindustrialização, como uma volta ao passado. O país entra no século XXI dependente dos setores primários, que não geram emprego nem renda de forma ampla. A exportação de commodities e a importação de manufaturados são típicas de uma economia colonial, na qual ganham as elites ligadas aos setores privilegiados e os rentistas, enquanto a sociedade paga o preço da acumulação privada.

Enquanto os mercados aplaudem o ajuste — como fez o governador paulista Tarcísio de Freitas no J. Safra Macro Day 20251 — o povo, elemento humano do Estado, vive o inferno social. O poder de compra dos salários e das aposentadorias despencou, a renda das famílias é insuficiente para fazer frente às necessidades básicas, e mais de um quarto da população vive na pobreza. É isso que querem para o Brasil?

Desde o golpe contra o governo legitimamente eleito de Salvador Allende em 1973 no Chile, grupos privilegiados latino-americanos ligados ao agronegócio, à mineração e às exportações, associados aos detentores de capital privado, acionistas e às elites financeiras, fazem a população pagar o preço de sua farra, impondo à nação em seu conjunto a submissão econômica e política.

Com o avanço do neoliberalismo, esses grupos impuseram sua hegemonia cultural sobre a sociedade, formando uma geração de economistas e profissionais alienados. A ideia de que “a sociedade não existe” — divulgada por Margaret Thatcher em entrevista à revista Woman’s Own (3/10/1987)2 — revela a indigência moral que os anima. Defendem a farsa do efeito transbordamento (trickle-down economics), segundo a qual bastaria diminuir impostos e obrigações sobre os ricos e retirar benefícios sociais dos pobres para que aqueles investissem mais e estes trabalhassem mais. Algo como: o privilegiado precisa de privilégios para investir, enquanto o desgraçado tem que se tornar mais desgraçado para trabalhar. A equação não fecha, pois o resultado do crescimento obtido por essa lógica se acumula sempre no topo.

Para esses apologistas do modelo Milei, pouco importa a sociedade brasileira, seu povo ou sua soberania. De fato, estão interessados na economia, mas esta não é uma força da natureza. A economia é economia política. Sem política, não há construção, redistribuição e justiça. O Estado, essa sociedade política que atacam esses valentes que almejam o governo, não é um simples opressor como dizem. É um agente de integração e de proteção. É, também, o resultado de um pacto sobre o destino, sem o qual a vida regride à barbárie.

Quem olhar para o laboratório neoliberal radical em que Milei transformou a Argentina verá uma sociedade fraturada. As elites e os rentistas celebram a estabilidade e os ganhos; os pobres e a classe média padecem a perda de direitos, a informalidade no trabalho e a queda nos rendimentos. As pessoas olham para a frente e não enxergam saídas. O futuro se tornou um lugar deserto. O país vive sob protestos, greves e risco de desestabilização. E o nosso governador quer o mesmo para nós, assim como o seu candidato. É um cidadão de bem!

Será que essa gente não estuda? Os analistas econômicos que dominam as emissoras de rádio, TV e jornais também não se atrevem a questionar por que a austeridade radical seria boa, se na história os cortes brutais de gasto público nunca resolveram os problemas de quem vive e trabalha, apenas aumentaram a pobreza, a desigualdade e a instabilidade social.

Na verdade, quem defende medidas como as de Milei não está preocupado com a construção da nação nem com o Estado como sociedade política soberana. Só lhes interessa explorar o território e a gente. A vida que almejam está no Norte, em Miami, sob a proteção daqueles que se imaginam donos do mundo.


Notas:

  1. Tarcísio elogia política econômica de Milei e critica governo federal. CNN Brasil.
    29/04/2025. In: < https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/tarcisio-elogia-politica-economica-de-milei-e-critica-governo-federal/ > Acesso em 20 de julho de 2026. ↩︎
  2. “Acho que passamos por um período em que muitas pessoas foram dadas para entender que, se eles têm um problema, é o trabalho do governo para lidar com isso. Tenho um problema, vou receber uma bolsa. ‘Estou desabrigado, o governo deve me abrigar.’ Estão a lançar o problema na sociedade. E, você sabe, não existe tal coisa como a sociedade. Há homens e mulheres individuais, e há famílias. E nenhum governo pode fazer nada, exceto através das pessoas, e as pessoas devem olhar para si mesmas primeiro. É nosso dever cuidar de nós mesmos e depois, também cuidar do nosso vizinho. As pessoas têm os direitos muito em mente, sem as obrigações. Não existe direito, a menos que alguém primeiro tenha cumprido uma obrigação.”.
    Margaret Thatcher, conversando com a revista Women’s Own, 3 de outubro de 1987. ↩︎

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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