De John Locke a Hannah Arendt, o que a tolerância protege é a pluralidade. Este ensaio conjectura que as redes digitais reproduzem, sem terror e por outros meios, algumas das condições que Arendt associou ao totalitarismo. Às vésperas do 2º turno, uma advertência e uma tarefa.
O Estado moderno é uma sociedade política fundada no ideal da convivência entre diferentes. Uma das formulações fundadoras desse ideal está em John Locke, na famosa e pouco lida Carta sobre a Tolerância (1689). Nela, o empirista inglês e defensor da Revolução Gloriosa de 1688 sustenta que o Estado deve cuidar dos direitos civis, não da salvação das almas. Ninguém pode ser prejudicado por conta de sua crença. Logo, deve haver o reconhecimento de que a coerção estatal não pode ser usada em prejuízo dos que pensam diferente, pois ninguém é um inimigo a eliminar. Com limites, é verdade, pois Locke excluiu da sua tolerância os ateus e os católicos, estes por obediência devida a um príncipe estrangeiro1.
A tolerância, tal como proposta por John Locke, não significa que as pessoas sejam obrigadas, em privado, a aprovar as crenças dos outros, mas que devem reconhecer o direito de todos professarem a sua fé. E aqui eu estendo o princípio de Locke, que dizia respeito à religião e não previa isso, para a identidade e a visão de mundo de cada um. Esse reconhecimento é condição do pluralismo, essencial à existência da sociedade política democrática. Sem a diversidade, o Estado moderno está condenado.
Hannah Arendt, por sua vez, já no século XX, testemunha do totalitarismo e da barbárie, não avança a ideia de Locke. Ela oferece o fundamento filosófico daquilo que a tolerância protege e argumenta que a pluralidade, que não deriva da tolerância, é a condição da vida política, pois somos distintos e iguais na condição humana2. E essa combinação de distinção e igualdade na condição nos leva a falar e agir publicamente. Somos distintos porque cada um é único, e essa unicidade só se revela ao falar e agir. Ela não está nos atributos (habilidades, talentos, limitações, deficiências), que em geral partilhamos, mas no “quem” de cada um.
Quando enxergamos o diferente como um inimigo a eliminar ou alguém cuja voz deve ser silenciada, estamos matando a tolerância. É a abertura do caminho para o totalitarismo, que nos mata. Dito de outra forma, estamos eliminando o pluralismo da experiência humana, o espaço público no qual a expressamos e a própria capacidade de agir das pessoas. E mobilizamos o terror e, de certa forma, nos submetemos a um tipo de domínio ideológico do qual é difícil escapar, pois estaremos atomizados, apartados de nossa condição humana. E não se trata apenas de estar sob um ditador, mas de estar reduzido à condição de massa, um ser supérfluo no mundo, sem identidade e sem vínculos estáveis com os demais3.
O pensamento único e o terror conduzem à dominação total, conforme alerta Arendt. Suas consequências para a vida nesta sociedade política que é o Estado moderno são o enfraquecimento da ação coletiva, a redução dos indivíduos à condição de categorias abstratas — a começar pelo inimigo objetivo, aquele que é condenado pelo que é, não pelo que fez4 —, o impedimento da autonomia e, por fim, a substituição da cidadania plural pela massificação. O fim do humano e do espaço público, em síntese.
A questão a que devemos nos ater é como se chega a isso. Um dos mecanismos centrais, na resposta de Arendt, é a mentira. A lógica totalitária não se impõe pela disseminação da verdade. Ela se irradia pelo uso da mentira que corrói a experiência comum e partilhada da realidade. Quando esta se torna uma questão de opinião, de crença, de fé, manipulável, passa a ser tão plausível quanto o fato. E a sua repetição se torna imune à verificação. É quando a aparência substitui o real e a pluralidade não encontra mais lugar. E naufragamos no universo da mentira organizada e passamos a viver sob uma ilusão coletiva5.
Sem um mundo compartilhado, o totalitarismo prepara o terreno e a ideologia se torna a referência única da realidade, tornando as pessoas presas fáceis dos que afirmam possuir a verdade, sejam eles políticos, pastores, coaches ou qualquer outro que surja com uma narrativa organizada sobre o princípio e o fim.
Neste exato momento em que observamos o esvaziamento parcial da esfera pública e o seu deslocamento pelas redes digitais, chamadas erroneamente de sociais 6, é hora de pensar no isolamento. Arendt argumenta que o isolamento impossibilita a ação com os demais e pode converter-se em desolação, o abandono de si, dos outros e do mundo7. Isso afeta a política e a condição humana, pois agir com os outros é o que nos distingue. É a base da experiência no Estado moderno. Sem ação comum desaparece a possibilidade de resistência coletiva, de deliberação e de transformação. Surge a impotência e a perda de experiência de pertencer ao mundo comum. Mesmo estando cercados por pessoas, não temos vínculos, não nos reconhecemos. É o fim.
Eu conjecturo, avançando para além de Arendt, que as big techs, ao organizarem a vida pública em plataformas orientadas pela captura de atenção, reproduzem, por meios muito distintos e sem o terror estatal, algumas das condições que Arendt associa ao totalitarismo, que são o isolamento convertido em desolação e perda do mundo comum. Nas redes digitais, os indivíduos têm menos mediações entre si e o mundo, tornam-se massa e ficam disponíveis para a ideologia e a manipulação. A tolerância, o pluralismo e a democracia estão sob pressão. É um risco verdadeiro8.
E caminhamos para mais uma eleição. Os que defendem a democracia têm uma tarefa de grandes proporções, qualquer que seja o resultado: recuperar o sentido da vida pública e enfrentar as forças que pretendem impor a dominação total, alcançando a vida pública e privada, o pensamento e a experiência, destruindo a tolerância, a pluralidade e a própria condição humana. As nossas armas, como sempre, são as mesmas: o pensamento crítico e a ação esclarecida.
E seguimos.
Notas:
- LOCKE, John. Carta sobre a Tolerância. Lisboa: Edições 70, 2019. ↩︎
- ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004. A pluralidade é, para Arendt, a condição, e não a derivação, de toda vida política. Trata-se da paradoxal pluralidade de seres singulares, todos iguais na condição humana, de modo que ninguém é jamais igual a qualquer outro que já viveu, vive ou viverá. A distinção entre os humanos é da ordem do “quem” cada um é, e só se revela no discurso e na ação, não nos talentos e atributos, que são partilhados. ↩︎
- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Arendt sustenta que a lógica totalitária e sua dinâmica consistem num processo de atomização social que combina mobilização ideológica e terror e conduz à destruição da pluralidade humana. ↩︎
- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo, op. cit. O inimigo objetivo é definido pelo que é, segundo a política do regime, e não por seus atos ou intenções. ↩︎
- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo, op. cit. Arendt argumenta que a propaganda cria uma narrativa lógica e coerente, deslocada dos fatos, e leva os indivíduos a perderem a capacidade de discernir entre as coisas, passando a viver numa ilusão coletiva. Essa narrativa funciona como uma cortina de fumaça, que destrói a distinção entre verdade e mentira e isola os seres humanos. ↩︎
- HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2018; ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Tradução de George Schlesinger. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2021. ↩︎
- ARENDT, Hannah. Origens do totalitarismo, op. cit. A distinção entre isolamento, solidão e desolação está no capítulo “Ideologia e terror: uma nova forma de governo”. ↩︎
- Conjectura do autor, apresentada como risco e não como fato estabelecido. Para a organização da vida pública pelas plataformas e a captura de atenção, ver Han e Zuboff (nota 6). ↩︎
