O São Paulo que meu pai me deixou

Meu pai me ensinou a amar o São Paulo de Leônidas, Porphyrio da Paz e das vitórias. Hoje, vejo o clube ser traído por dirigentes e jogadores que não entendem o que é o amor ao tricolor.


O meu pai me deixou como herança o amor pelo São Paulo Futebol Clube, o time de futebol. Não sinto nada pelos dirigentes e não me empolgo com outros esportes. Gosto mesmo é de jogo de bola no estádio com jogadores vestindo a camisa tricolor. Tudo o mais é apenas entretenimento.

Num Sete de Setembro, enterrei quem me ensinou a ser são-paulino enquanto o time vencia o Corinthians por 3 a 2, com gols de Amoroso e Souza. No velório, naquela quarta-feira, muita gente. No estádio, mais de 40 mil pessoas assistiram à vitória no 132º Majestoso disputado no Morumbi.

Ontem, véspera do Dia dos Pais, passados 21 anos do desaparecimento de quem me fez tricolor, acompanhei pela televisão uma nova derrota do time pelo campeonato brasileiro de 2026. Em Porto Alegre, de virada, o Grêmio acabou com a minha ilusão. No domingo anterior, o time havia empatado com o Flamengo no Maracanã. Só enganou, mas é horrível e descompromissado.

O São Paulo que já foi de Leônidas da Silva, Zizinho, Gérson, Pedro Rocha, Pita, Careca, Müller e tantos outros craques abriga hoje jogadores mais preocupados com os cortes de cabelo, as tatuagens e os brincos do que com o resultado das partidas. É triste ver, na pele de certos infelizes, a camisa que já foi defendida com garra e determinação por Forlán, Chicão e Lugano.

Enquanto hoje conselheiros chamados de cardeais decidem o destino do clube como se ele fosse uma propriedade exclusiva, sem relação com os torcedores que o fizeram grande, são exatamente esses torcedores que frequentam as arquibancadas que mantêm vivo o tricolor. A ideia de que o São Paulo é o time de certa elite quatrocentona talvez tenha nos trazido a essa situação, mas o tricolor nasceu, em 1935, das mãos de gente de origem modesta, como o tenente farmacêutico Porphyrio da Paz, que empenhou e perdeu a própria casa em favor do clube e nos deixou, de presente, o hino que cantamos até hoje. A ironia é que se atribui a outro clube a origem popular dos torcedores, mas é o São Paulo, o clube da fé, da Mooca e do Canindé, que tem uma torcida de origem modesta, preta e imigrante, representada por símbolos hoje esquecidos, como Dotô Canindé e Ditinho.

Esse São Paulo, nascido da paixão dos torcedores, não vai perecer por conta dos dirigentes e conselheiros. Não serão os jogadores sem compromisso que vão afundá-lo. Esse futebol tomado por interesses financeiros não alcança o são-paulino de verdade, que sabe que quem é forte, quem é grande, é o time de futebol, aquele que vive em nossa imaginação a cada rodada do campeonato. Esse é inegociável.

Salve o tricolor paulista!

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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