Os liberticidas, a mentira industrializada e a destruição da democracia

Vivemos um tempo em que os algozes da liberdade se apresentam como seus paladinos, e os defensores da mentira, como vítimas. Os liberticidas, com sua retórica de ódio e sua fé cega em palavras vazias corrompem a democracia por dentro, transformando a alienação em programa e a ignorância em virtude. Este é o retrato de um Brasil onde a verdade se tornou refém de interesses antinacionais e antipopulares.


O filósofo político Michelangelo Bovero aborda, no capítulo 4 de Contra o Governo dos Piores, a questão fundamental da distinção entre liberdade e autonomia. Embora frequentem os mesmos debates, não são a mesma coisa. Como ele explica, se todos os casos de autonomia são casos de liberdade, o oposto nem sempre é verdadeiro. É preciso, portanto, distinguir os conceitos das palavras e os significados afins. E isso nos interessa sobremaneira nestes tempos em que os liberticidas se apresentam às massas como defensores da liberdade ameaçada.

Seguindo outra lógica argumentativa, Marshall Berman, que foi professor de teoria política e urbanismo na City University of New York, explica, em um capítulo de sua tese de literatura incorporado ao livro Aventuras no Marxismo, o paradoxo que a liberdade representa no projeto de Marx. Ora ele a entende como valor, ora como fato, ora como conquista. Como fato, a liberdade é algo ao qual estamos condenados, uma verdade acerca de nossa condição humana; como conquista, é o resultado de um difícil trabalho de libertação das ilusões de época que nos aprisionam, em que tudo está dominado pelo fetichismo. Uma passagem célebre de O Capital ilustra bem essa ideia: “Assim como na religião o homem é governado pelos produtos de sua própria mente, na produção capitalista ele é governado pelos produtos de suas próprias mãos”.

Conforme esclarece Berman, o agente da arte de enganar é o próprio homem, que não se vê como senhor do resultado de seu próprio trabalho. E o seguinte trecho de A Sagrada Família ilustra o drama: “A escravidão da sociedade civil é aparentemente a maior das liberdades, pois parece deixar o indivíduo perfeitamente independente. O que o indivíduo entende como sua própria liberdade é o movimento (não mais refreado ou restringido por um vínculo comum ou pelo homem) dos elementos alienados que compõem sua vida como a propriedade, a indústria, a religião; na verdade, esse movimento é a perfeição da escravidão”.

Pois bem, após essa digressão, voltamos ao que importa nestes nossos tempos, que é a questão da oposição mais comum à ideia de liberdade contida na noção de escravidão. Livre é alguém que não é escravo, que age sem amarras. Os liberticidas, no entanto, falam de várias liberdades. Confundem os ingênuos com liberdades fundamentais da pessoa e outras liberdades, como a econômica, tratando-as como se fossem a mesma coisa, ainda que conectadas. Além disso, não falam do que é fundamental, que é o que significa ser livre, conquistar a liberdade e a relação desta com o poder.

A liberdade e o poder

Michelangelo Bovero usa uma imagem poderosa, contrapondo o escravo e o servo à condição de liberdade. Ambos não são livres, mas o primeiro é um servo acorrentado; o segundo, um escravo desacorrentado. Os dois têm um senhor, que deles dispõe e sobre eles exerce poder. Se o servo se liberta, o senhor não tem mais poder sobre ele. E o mesmo acontece com o escravo? Basta fugir das correntes para acabar com a escravidão?

Pensemos como Berman, comentando Marx: “O fetichismo das mercadorias é um mito determinista criado para conservar a ordem vigente, convencendo as pessoas de que não têm como agir diferentemente. Imaginando-se privados de liberdade, os homens se transformam em homens sem liberdade: sua profecia de impotência se autorrealiza”.

Bovero distingue duas liberdades, a positiva (o poder da pessoa decidir sobre si mesma) e a negativa (não estar submetida ao poder de outro). Liberdade e poder, apesar da necessidade de autoconsciência levantada por Berman, são dinâmicas e fortemente condicionadas. À medida que a liberdade do servo e do escravo aumenta, o poder sobre eles diminui, ou seja, a liberdade é, também, uma limitação do poder alheio. Em um caso, há a conquista da autonomia, que é a imposição de regras sobre mim mesmo; em outro, a da contenção, que é a negação do poder.

Para ser livre, num sentido marxista de conquista, que remete a Hegel, mas com uma virada materialista, não basta a autoconsciência, é preciso transformar as condições objetivas de existência, é necessário que as pessoas ajam sem coibições, que tenham a consciência de que são livres, de que existem possibilidades alternativas. E é isso que os liberticidas não permitem.

A mentira industrializada e o súdito ideal

Em um ensaio em que comenta a mentira na era Trump, intitulado A Morte da Verdade, a crítica literária e vencedora do Prêmio Pulitzer Michiko Kakutani resgata uma advertência fundamental de Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo: “O súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe diferença entre fato e ficção (isto é, a realidade da experiência) e entre o verdadeiro e o falso (isto é, os critérios do pensamento)”.

Os liberticidas usam mentiras industrializadas para explorar a frustração popular com as dificuldades da vida e gerar indignação e caos. É assim que avançam sobre as fronteiras da ordem que já não lhes serve. Atacam a democracia, — ou seja, as liberdades negativas — sob o pretexto de que o governo é fonte de corrupção e de que as normas e regulamentos que permitem a vida coletiva são ameaças à liberdade dos indivíduos — ou seja, a liberdade entendida como positiva. Fazem isso apoiando-se em pretextos bíblicos e em imagens que povoam a mente dos incautos. E, neste tempo das big techs, contam com as redes digitais para proliferar a indiferença pela verdade como coisa objetiva, como alerta Shoshana Zuboff em A Era do Capitalismo de Vigilância, que explica que as plataformas não são neutras, são projetadas para capturar a atenção e moldar desejos, não para emancipar.

São exatamente essas pessoas imbecilizadas pelos liberticidas, que Péricles classificava no mundo clássico como idiotas (do grego idiotés, idiota) por não participarem dos assuntos comuns, que hoje invadem a coisa pública e dão respaldo aos piores, levando à destruição da democracia por dentro. Diferentemente da Antiguidade, quando os indivíduos se contentavam em cuidar dos assuntos privados, deixando o destino comum sob o cuidado dos cidadãos que preocupavam-se verdadeiramente com o futuro da cidade, hoje indivíduos alienados e ressentidos, orgulhosos em sua ignorância, ocupam o proscênio, fazendo figuração para poderosos agentes políticos e econômicos com interesses na exploração do caos. No Brasil, esse fenômeno culminou no ataque de 8 de janeiro de 2023, quando a extrema-direita, alimentada por anos de desinformação, tentou subverter a ordem democrática.

Alienação e palavras vazias

Há uma lógica por trás dessa obra liberticida. Ela não é apenas resultado da alienação, mas produto de uma construção que começa com a apologia de certas palavras vazias, tomadas como categorias explicativas absolutas, como, por exemplo: Deus, indivíduo, liberdade individual, empreendedorismo, sucesso, prosperidade, livramento (entendido como salvação individual, não como emancipação coletiva), entre outras. Com sua incorporação à linguagem, elas geram um imaginário que alimenta o desprezo aos demais, as frustrações pela condição econômica e social e o ressentimento. Afinal, tudo passa a ser da conta do sujeito, livre de estruturas e contexto. O mundo, enquanto construção social, se resume a algo dado e intangível à ação. Um cenário apenas.

Para os que buscam o lucro de forma insaciável, julgando que esta é a única coisa que importa, a liberdade democrática é uma barreira. Mas não se iludam os que consideram a revolução dos autodenominados evangélicos em curso como libertadora da mesma forma que foi a protestante, no passado. A atual é fruto da reação e conduz ao inferno, onde queimam todos os sonhos vãos. A Reforma Protestante, embora ambígua, questionou estruturas de poder; já o evangelicalismo contemporâneo é funcional ao status quo e à manutenção das desigualdades.

Diante disso, a tarefa dos que ainda creem na democracia é desmontar a mentira industrializada, resgatar a verdade como valor público e mostrar que a liberdade não é um cenário, mas uma conquista coletiva.


Notas:

BERMAN, Marshall. Aventuras no Marxismo. São Paulo: Cia. das Letras, 2001.

BOVERO, Michelangelo. Contra o governo dos Piores. Rio de Janeiro: Editora Campus, 2002.

KATUKANI, Michiko. A Morte da Verdade. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2018.

ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância. Editora Intrínseca, 2021.

Autor

  • Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

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