Entre as profecias bíblicas e a crueza política de Fujimori, a América Latina de 2026 parece mergulhada em trevas. Enquanto elites bradam o nome de Deus para justificar a exclusão, as sombras do autoritarismo e da xenofobia se alongam sobre os Andes e o Brasil, revelando que a nossa ‘modernidade’ ainda carrega o ranço das senzalas e das colônias.
Vivemos, de fato, numa era de trevas. Neste tempo em que tantos espertalhões manipulam a imaginação popular a partir do feitiço da religião e de leituras instrumentais da Bíblia, faz sentido recordar um personagem do livro, o profeta Isaías, que aguarda a luz enquanto contempla a escuridão. E não deveria ser assim, mas as conquistas da humanidade, apropriadas por poucos, tornam a ciência e a técnica privilégio da minoria endinheirada.
Neste segundo sábado de abril de 2026, leio que a filha de Alberto Fujimori, o ex-ditador peruano condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos por crimes contra a humanidade, promete expulsar imigrantes do país caso eleita e abrir a economia a investimentos norte-americanos, juntando-se aos trumpistas Milei, Kast e Noboa, que já governam a Argentina, o Chile e o Equador, ampliando a submissão latino-americana ao império decadente.
Fujimori, o pai da candidata Keiko, que lidera as pesquisas para as eleições presidenciais peruanas, foi um estadista da barbárie. Dissolveu o Congresso e interveio no Judiciário, em 1992. Junto com o chefe de inteligência do governo, Vladimiro Montesinos, elaborou um esquema de corrupção que envolvia o suborno a redes de donos de TV, políticos e juízes. Não bastasse, como era ávido pela ordem e pela grandeza nacional, atuou fortemente contra os direitos humanos. É por este motivo que foi condenado a 25 anos de cadeia, como autor dos massacres de Barrios Altos e La Cantuta, cometidos pelo esquadrão da morte. Mas sua obra reformista foi além: sob a justificativa de controlar a natalidade, é acusado de promover esterilizações forçadas de mulheres pobres e indígenas. Um visionário!
É a herdeira desse legado de autoritarismo e violência que promete ao povo peruano, sob o silêncio cúmplice da elite, endurecer o combate à imigração irregular, associando a criminalidade à presença dos estrangeiros. É a mimetização da política de Trump que é adotada pela extrema-direita global: controle rígido de fronteiras, deportação imediata dos indocumentados e trabalho dos presos em troca de comida para a manutenção da ordem. Os direitos humanos, que sempre foram um expediente retórico neste subcontinente, agora nem a isso se prestam. As elites já não se comovem com a rudeza dos pobres e dos imigrantes, como os colonizadores europeus não se comoviam com os “bárbaros” em suas colônias.
O que causa espécie, aliás, deveria causar se não estivéssemos no escuro, afastados de nossa própria condição, é que o Peru, desde sempre, é um país de onde as pessoas saem, emigram em busca de uma vida melhor. A senhora Fujimori, que também promete, se eleita, heroicamente, abandonar a Corte Interamericana de Direitos Humanos (a mesma que condenou seu pai por crimes contra a humanidade), para livrar o seu país das “interferências externas”, ignora a história e a condição atual da economia, que depende de migrantes ganhando salários miseráveis na condição de trabalhadores informais. Talvez ela pense em lançar os seus nativos peruanos nestas atividades informais e restituir a ordem das coisas, tal como na época colonial.
A hipocrisia da promessa da candidata peruana é a mesma de todo o discurso anti-imigração bradado na América Latina, seja por seguidores de Milei (que restringe direitos de imigrantes na Argentina), Kast (que constrói muros no Chile) ou Bolsonaro (que celebrou a morte de “bandidos” no Brasil). Na Argentina, no Chile e no Brasil, assim como no Peru, essa gente explora o medo e a humilhação da classe média que empobrece e não consegue compreender os mecanismos econômicos e sociais que a jogam para baixo, mas enxerga o outro, o imigrante, como alguém que rouba seus empregos e espalha a violência, o que é uma falácia habilmente explorada pela propaganda política extremista. O que torna a coisa mais ridícula é que, nos seus ambientes, a elite e a classe média reivindicam para os seus filhos o direito de emigrar em busca de oportunidades de formação e de carreira. Eles pensam que, nos Estados Unidos ou na Europa, não são latinos, mas brancos e membros do ocidente idealizado que é vendido por think tanks e pelas igrejas neopentecostais. E viva a civilização judaico-cristã! Enquanto isso, Pachamama observa.
Essa elite latino-americana vive com citações da Bíblia na boca para confundir o povo mantido na ignorância, mas o seu coração é repleto de crueldade. O mandamento central do Novo Testamento, pois é de uma América cristã que falamos, é amar o próximo, e o que se pratica é a exclusão deliberada e sistemática. Os donos do dinheiro amam apenas a si mesmos enquanto bradam, como Bolsonaro, que Deus está acima de tudo. Na verdade, eles desprezam os trabalhadores, os pobres, os negros e os indígenas. Num tempo em que se lia, bastaria recorrer a Eduardo Galeano, com o seu As veias abertas da América Latina, ou a Darcy Ribeiro, em O Brasil como problema, para lembrar que as elites destroem a sua própria gente, a usam como carvão para a sua obra econômica exploradora. E nada mais.
Para concluir, a indignação destas palavras é contra a desumanização do outro, algo tratado por Zygmunt Bauman em Estranhos à nossa porta, onde ele mostra como a modernidade líquida transforma o imigrante em “estranho”, uma presença incômoda que desafia a ordem e, por isso, deve ser excluída. Não canso de me lembrar da foto do corpo de Alan Kurdi, a criança síria encontrada afogada numa praia turca do Mediterrâneo. Um menino que migrava com sua família fugindo da guerra. A indiferença que levou à sua morte foi causada por gente como Fujimori, que transforma a diferença em ameaça e justifica o medo para promover a exclusão, a criminalização e a violência contra outros seres humanos. No Brasil, o fenômeno também ocorre em escala crescente, inclusive praticado por autoridades investidas de mandatos públicos que celebram o assassinato de pessoas em operações policiais nebulosas, investem contra grupos vulneráveis e, no limite, desejam a morte de adversários políticos. Mesmo amparados na religião e reivindicando Deus, essa patota não está isenta da prática de um crime.
A ideia de humanidade que inclui é construída. Para voltar aos tempos bíblicos, um certo homem que foi martirizado iniciou a obra. E é sempre bom lembrar que foi em seu nome que se tomaram as terras dos povos originários (os mesmos que hoje são criminalizados por defenderem seus territórios), guardados sempre por Pachamama.
