A família é sagrada só para alguns. A direita conservadora usa a Bíblia e o discurso moral para atacar a justiça social, enquanto milhões de brasileiros são esmagados por um sistema que os obriga a trabalhar até a exaustão e abandonar seus próprios filhos para criar os filhos alheios.
No Brasil, muito se fala em defesa da família como instituição básica da sociedade. É curioso notar, entretanto, que pouco se faz em defesa dos seres humanos que a compõem. Afinal, como pode ter vida familiar um desgraçado que vive para trabalhar e, não bastasse, doa parte dos míseros rendimentos a um espertalhão que engorda fazendo proselitismo religioso? É querer demais.
Mas a família que se defende, talvez, seja a dos prosélitos, cujos membros vestem grife, vivem protegidos em condomínios de luxo e são paparicados por empregados que abandonam os seus filhos e as suas casas para cuidar dos filhos e das casas alheias. É assim que se vive nesta sociedade altamente desigual que chamamos de Brasil. Por trás do ridículo discurso do mérito, há a defesa férrea do status quo aristocrático.
Quando membros dessa aristocracia de origem rural e base escravocrata se manifestam publicamente para criticar a luta pela justiça social, tal como expressa na Constituição de 1988, geralmente o fazem reivindicando motivos excelsos, como a defesa da família com base em trechos da Bíblia. Na verdade, não produzem nada além de simplificações grosseiras e distorções conceituais. Tentam difundir pânico e explorar a ignorância, pois confundem um modelo de instituição com os seres humanos e o seu comportamento organizado.
Recentemente, em declarações públicas de figuras ligadas ao conservadorismo político e religioso, Engels foi citado como alguém que propõe a destruição da família. A partir disso, a luta pela justiça social levada a efeito pelos socialistas de inspiração marxista foi desqualificada como avessa ao ensinamento bíblico. Seria risível se não fosse uma demonstração perigosa de como o proselitismo político se alimenta da fé para fazer a sociedade imergir sob as trevas da ignorância.
Friedrich Engels, no livro A origem da família, da propriedade privada e do Estado, escrito em 1884, não propõe a destruição da instituição família. Na verdade, ele critica a forma burguesa de família a partir da antropologia de Lewis Morgan, cujos esquemas evolucionistas foram amplamente revisados pela antropologia posterior, o que não invalida a análise de Engels sobre as relações entre família, propriedade e poder. O que Engels diz é que essa família monogâmica está ligada ao surgimento da propriedade privada e à dominação masculina, servindo à transmissão do patrimônio e preservando a desigualdade de gênero e de classe. Vale notar que ele via a monogamia como uma forma histórica contraditória: progressiva em relação a arranjos anteriores, mas opressiva em sua configuração capitalista. Ele mostra as relações familiares ligadas às relações capitalistas, reproduzindo as desigualdades econômicas e de poder. O livro não é um manual de política, é uma análise histórica.
O problema dos desonestos que defendem a família é que eles também apostam em projetos de supressão do pensamento crítico e, portanto, da análise histórica e social. Se permitissem que os seres humanos se tornassem senhores de suas circunstâncias, estes poderiam ultrapassar o modelo opressivo de família, funcional à manutenção do status quo e dos privilégios de gênero e classe, tão caros aos que vivem à custa do esforço alheio.
Quando a educação não é apenas esvaziada dos conteúdos humanísticos, mas estes são substituídos por visões religiosas de mundo, disciplinas empreendedoras e linguagem matemática, as escolas e universidades se tornam centros de desinformação e doutrinação. Esse é um tema que merece tratamento próprio, mas ele é indissociável do argumento aqui desenvolvido: o que se faz é ignorar privilégios de classe, raça e gênero derivados das estruturas históricas e sociais, naturalizando a realidade social e transformando o estudo em simples ritual de passagem para o mercado de trabalho. É o fim do desenvolvimento intelectual e crítico dos seres humanos, com consequências óbvias para a democracia e a vida em sociedade.
A luta pela justiça social e contra a pobreza afeta a acumulação privada capitalista, mas não é uma ameaça à família. Ela ameaça os privilégios de determinada família. E o argumento religioso em defesa da desigualdade social, sustentado em leituras bíblicas, é tolo, para não dizer malicioso. Quando um destes do andar “de cima” diz que fomos feitos desiguais segundo a Bíblia, é possível retrucar que a desigualdade individual, de talentos e de habilidades, é radicalmente diferente da desigualdade social, que perpetua privilégios e exclusões estruturais. O mesmo livro condena a opressão dos pobres; basta ler com atenção, sem seletividade. O descanso, a solidariedade e a crítica à exploração do trabalho também estão na Bíblia, e isso incomoda quem dela se serve apenas para legitimar hierarquias.
A família hoje, em que pese o desejo dos reacionários de todos os matizes, é uma “instituição casca” (shell institution), como diz Anthony Giddens em A Transformação da Intimidade e nas conferências Reith de 1999. O seu conteúdo mudou, apesar de a forma permanecer. Tentar impedir o ser humano de mudar é o primeiro sinal de fracasso de um grupo, estrato ou uma classe social. Para lembrar Thorstein Veblen, os interesses investidos (vested interests) destes reagem à mudança, mas esta é inevitável.
