Há uma geração que não lê, mas julga saber; que não escuta, mas opina; que não pensa, mas compartilha. O cérebro moldado por likes e stories não tem paciência para o conhecimento. E a extrema-direita, as big techs e os gurus de plantão aplaudem.
Por que um jovem afirma que determinado conteúdo acadêmico não é necessário? Essa é uma questão importante em uma sociedade que naturalizou a superficialidade e faz do não saber uma virtude política, como se o conhecimento fosse um privilégio de esquerda. É isso que certos líderes religiosos e governadores estimulam, ao avançar contra as ciências humanas e sociais e os seus praticantes, acusando-os de promotores de ideologias.
Em que pesem os oportunistas, todos vinculados à extrema-direita, o problema é grave e diz respeito à reprodução social e ao futuro de toda uma geração. Os jovens que cresceram com smartphones e conectados às redes digitais formam o primeiro grupo humano a ter a cognição moldada por algoritmos. Isso quer dizer que foram treinados para processar informações curtas, visuais, como as contidas no Instagram, por exemplo. Enfrentam severas dificuldades para acompanhar com atenção uma exposição oral e ler um livro, pois essas atividades reclamam paciência e linearidade, habilidades que neles não estão suficientemente desenvolvidas.
O que certa análise exalta como qualidade dessa juventude é, na verdade, a sua maior fraqueza: a propalada competência para executar múltiplas tarefas. O que acontece é que isso é uma ilusão, algo que uma pesquisa realizada pela Universidade de Stanford, em 2009, desnudou, ao demonstrar que a multitarefa reduz a profundidade do aprendizado e a capacidade de reflexão crítica dos indivíduos1. Por trás dessa suposta virtude, esconde-se um quase autômato, dependente de estímulos imediatos de gratificação, com raciocínio lento e que considera toda a experiência da vida inútil, desprovida de sentido.
O professor que se defronta com esse aluno ouve dele, com frequência, que aquele conteúdo acadêmico “não é necessário”. O docente talvez pense na arrogância do jovem, mas essa rejeição é explicada pela ciência. Essa postura de tudo saber é típica em pessoas com pouco conhecimento, que superestimam a sua competência. O fenômeno ficou conhecido como Efeito Dunning-Kruger2 e é dinamizado nessa geração hiperconectada, pois cria nos seus membros, todos com os smartphones como um cérebro apenso às palmas das mãos, a sensação de acesso ilimitado à informação via Google e IAs. Eles sentem-se oniscientes; porém, não sabem compreender o que leem e externam. E, tristemente, não criam memória.
Talvez um mal tão grande quanto o Efeito Dunning-Kruger seja a desconfiança no professor como uma pessoa dotada de autoridade. Isso faz a festa da extrema-direita política e contribui para agravar o mal que estamos discutindo. Enquanto líderes religiosos fundamentalistas e políticos antidemocráticos argumentam que a carreira acadêmica não é necessária e desvia do caminho, cresce a crise de credibilidade nas instituições. Estas são substituídas pelos conselhos ligeiros de influenciadores digitais, espertalhões que criam explicações simples e dualistas para temas absolutamente complexos que desconhecem.
Um autor que alertou para esse fato, num livro cujo título carrega uma ironia desconcertante, é Francis Wheen. O jornalista britânico, autor de uma biografia de Karl Marx, em Como a picaretagem conquistou o mundo: equívocos da modernidade3, faz uma crítica ácida à irracionalidade triunfante. Ele argumenta que o mundo ocidental está dominado por ela, graças a uma cultura que desvaloriza a ciência e a razão em nome do mercado e do individualismo. O avanço para o passado, levado a efeito pela direita, se faz com astrologia corporativa, autoajuda sem base empírica, pensamento positivo vendido como solução para o indivíduo, teóricos do ajuste fiscal (trickle-down economics) idolatrados como profetas da economia, políticos carismáticos vazios de conteúdo e a mídia e o mercado substituindo as universidades.
Extrapolando Wheen, que focou a sua crítica à picaretagem mais ortodoxa dos gurus de autoajuda e dos economistas do mercado, hoje os jovens aos quais nos referimos até aqui estão sujeitos também a um outro tipo de picareta, que é o algoritmo das big techs. Ele não apenas dissemina a desinformação, mas a cria por meio de deepfakes bots (robôs) e câmaras de eco, reforçando crenças ridículas, como a de que vacinas instalam chips sob a pele. Não bastasse, nas redes digitais, a juventude segue charlatães que vendem a ilusão da riqueza, da beleza e do sucesso instantâneo, sem esforço e, sobretudo, sem estudo e conhecimento crítico. Tudo com base numa certa ideologia da meritocracia, segundo a qual todos podem ser ricos e felizes, a despeito das estruturas sociais. Eis a picaretagem digital dos oligarcas do Vale do Silício.
Uma geração desprovida de crítica, com capacidade cognitiva embotada, é vítima da picaretagem, pois a ilusão é mais atraente do que a verdade. Esta exige pensamento complexo para ser devidamente decifrada, enquanto aquela é simples e reconfortante. Enquanto a busca pela verdade exige tempo, esforço e questionamento, permanecer na ilusão entregue pelo algoritmo traz uma satisfação instantânea e reforça a crença de que todos conseguem, vendida pelo picareta religioso, pelo político de extrema-direita, pelo economista do mercado ou pelo guru dos negócios. É um reforço à condição satisfeita e primitiva, não um avanço em direção ao saber. Uma forma de engodo, portanto, tão cara àqueles que manipulam as massas.
Umberto Eco, o filósofo e crítico literário que nos deixou em 2016, num livro cujo título é uma referência irônica ao inferno de Dante, Pape Satàn Aleppe: crônicas de uma sociedade líquida4, reproduz a crônica O livro didático como professor, originalmente publicada em 2004. Nela, ele discute a proposta da abolição dos livros didáticos na Itália e sua substituição por materiais digitais. O argumento que utiliza não é o de um ludita contra a tecnologia, mas o de um intelectual das letras, de um professor preocupado com a perda de uma estrutura de conhecimento sistemático por conta da ilusão de que a informação fragmentada, baseada na digitalização das páginas de texto base, por exemplo, poderia substituir a leitura linear.
Conforme Eco, o livro didático compõe algo que podemos qualificar como uma narrativa de base. Ele não é um repositório de informações como o uso que os jovens fazem do smartphone e do Google. Ele oferece um percurso lógico e histórico para o aprendizado, sem o qual o ensino se resume a uma bricolagem de fragmentos desprovidos de contexto, sem hierarquia. O que alguns sujeitos travestidos de pedagogos afirmam ser liberdade é, em realidade, promoção da ignorância, pois sem base sólida, pesquisar por conta própria, fazer a inversão dos papéis numa sala de aula e dar o protagonismo ao estudante leva à criação de uma mentalidade enciclopédica aleatória. Sem a experiência e o conhecimento do professor e sem o livro, perde-se a capacidade de distinção do relevante do irrelevante. E isso é a morte da memória cultural.
E aqui nos encontramos com a nossa indagação inicial: por que um jovem afirma que determinado conteúdo acadêmico não é necessário? Parece óbvio que ele é levado a isso. Mas há salvação. É preciso investir na relação autêntica e no contato direto. O professor bem-preparado continua a ser central na formação dos indivíduos e na reprodução de uma sociedade democrática. Enfrentar politicamente os que investem contra a atividade docente é, também, uma forma de investir na juventude. Mas será que ainda há tempo para reverter esse quadro, ou já estamos condenados a uma geração de autômatos? Discutir isso, entretanto, extrapola o limite deste ensaio.
Notas
- “O uso crônico de múltiplas mídias simultaneamente (multitarefa de mídia) está se tornando rapidamente onipresente, embora o processamento de múltiplos fluxos de informações recebidas seja considerado um desafio para a cognição humana. Uma série de experimentos avaliou se existem diferenças sistemáticas nos estilos de processamento de informações entre usuários crônicos de multitarefa de mídia de alta e baixa intensidade. Um índice de traço de multitarefa de mídia foi desenvolvido para identificar os grupos de alta e baixa intensidade. Esses dois grupos foram então comparados ao longo de dimensões estabelecidas de controle cognitivo. Os resultados mostraram que os usuários de alta intensidade são mais suscetíveis à interferência de estímulos ambientais irrelevantes e de representações irrelevantes na memória. Isso levou ao resultado surpreendente de que os usuários de alta intensidade em multitarefa de mídia apresentaram um desempenho pior em um teste de capacidade de alternância de tarefas, provavelmente devido a uma menor habilidade para filtrar a interferência do conjunto de tarefas irrelevantes. Esses resultados demonstram que a multitarefa de mídia, uma tendência social em rápido crescimento, está associada a uma abordagem distinta no processamento fundamental de informações.” OPHIR, Eyal; NASS, Clifford; WAGNER, Anthony D. Cognitive control in media multitaskers. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 106, n. 37, p. 15583-15587, 2009. ↩︎
- O Efeito Dunning-Kruger é a tendência de pessoas com pouca competência em um assunto superestimarem suas habilidades. Ele foi descrito pela primeira vez pelos psicólogos David Dunning e Justin Kruger em 1999 e explica parte da postura, mas não toda (também há fatores políticos, culturais) “As pessoas tendem a ter uma visão excessivamente favorável de suas próprias habilidades em diversos domínios sociais e intelectuais. Os autores sugerem que essa superestimação ocorre, em parte, porque indivíduos não qualificados nesses domínios sofrem um duplo fardo: não apenas chegam a conclusões errôneas e tomam decisões infelizes, mas sua incompetência os priva da capacidade metacognitiva de perceber isso.” Kruger, J., & Dunning, D. (2009). Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Psychology, 1, 30-46. doi:10.4236/psych.2009.11005. Disponível em: < https://www.researchgate.net/publication/12688660_Unskilled_and_Unaware_of_It_How_Difficulties_in_Recognizing_One’s_Own_Incompetence_Lead_to_Inflated_Self-Assessments/link/55ef043008aedecb68fd8f4e/download?_tp=eyJjb250ZXh0Ijp7ImZpcnN0UGFnZSI6InB1YmxpY2F0aW9uIiwicGFnZSI6InB1YmxpY2F0aW9uIn19 > Acesso em 23/05/2026. ↩︎
- “O sono da razão gera monstros em abundância. Alguns são claramente sinistros, outros parecem simplesmente cômicos […]. Cumulativamente, porém, a profusão da impostura obscurantista e o ataque à razão constituem uma ameaça à civilização, especialmente se considerarmos que muitos dos novos irracionalistas repercutem uma Era Dourada pré-industrial, ou agrária. […] os valores humanos e o iluminismo tem sido abandonados ou traídos […] os que reescrevem ou romanceiam a história, assim como os que regozijam com seu fim, estão fados a repeti-la.” Francis Wheen. Como a picaretagem conquistou o mundo: equívocos da modernidade. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2007. (P. 23) ↩︎
- Umberto Eco. Pape Satàn Aleppe: crônicas de uma sociedade líquida. Rio de Janeiro: Ed. Record, 2017. ↩︎
