O Brasil barroco e a falácia do puritanismo importado

Sob o pretexto de 'defesa da família' conservadora e cristã, setores neopentecostais tentam impor um adestramento moral que ignora cinco séculos de formação social brasileira.

Sob o pretexto de 'defesa da família' conservadora e cristã, setores neopentecostais tentam impor um adestramento moral que ignora cinco séculos de formação social brasileira.

A controvérsia em torno do enredo da Escola de Samba Acadêmicos de Niterói, que exaltou o presidente Luís Inácio Lula da Silva em ano eleitoral, aponta para algo mais profundo do que uma disputa jurídica sobre os limites da legislação ou um debate moral sobre o uso político do Carnaval.

O Partido dos Trabalhadores nasceu prometendo romper com o atraso da política brasileira. Quatro décadas depois, sua trajetória revela um processo recorrente de acomodação estrutural ao sistema que prometeu transformar. Um projeto moderno, ascético e democratizante acabou reproduzindo o patrimonialismo que pretendia superar. O atraso passou a ser utilizado como vantagem para a manutenção no poder, num movimento que ajuda a explicar os limites do partido.

Ao perdermos o chão comum, perdemos a capacidade de distinguir a verdade da mentira, tornando-nos presas fáceis para narrativas que se alimentam do medo. No rastro dessa desolação, o bolsonarismo e seus pares globais surgem não como causas, mas como sintomas de uma sociedade que esqueceu como se encontrar.

A situação de Julio De Vido ultrapassa o domínio das decisões judiciais e se insere num campo onde política, cultura institucional e distribuição de poder se entrelaçam.

O capitalismo, hoje, se alimenta de dados, algoritmos e da capacidade de manipular comportamentos em escala global.

Donald Trump não apenas mudou a política externa dos EUA; ele rompeu com o princípio da autocontenção, inaugurando a era do “multilateralismo zumbi”. O resultado? Uma multipolaridade sem centro onde todos exploram os dividendos do caos. A ordem internacional construída…

Antes do colapso das instituições, instala-se o delírio. O espetáculo digital e a corrosão das mediações públicas do real enfraquecem o julgamento democrático. Mais do que a perda de consensos, está em jogo a capacidade de disputar a realidade sem destruir o vínculo político.

Há algumas décadas, acreditávamos que o futuro seria feito de certezas: democracias consolidadas, fronteiras dissolvidas pelo comércio global e tecnologias que nos libertariam do trabalho alienante. Hoje, sabemos que o sólido não resistiu. O capital se tornou um jogo de especulação e dívidas, o trabalho virou algoritmos e tarefas precárias, e a política, um espetáculo de ressentimentos.

No Brasil de 2025, a pauta da segurança pública tornou-se o último refúgio de uma direita acuada. O termo “neutralização de criminosos”, usado por agentes públicos e reproduzido por parte da imprensa, serve de eufemismo para execuções extrajudiciais.