
As duas faltas da democracia brasileira
A democracia não morre por falta de regras; morre por falta das normas informais que a sustentam — a tolerância mútua, a contenção do poder e a cultura política que a Constituição de 1988 não criou.

A democracia não morre por falta de regras; morre por falta das normas informais que a sustentam — a tolerância mútua, a contenção do poder e a cultura política que a Constituição de 1988 não criou.

Em 1494, Sebastian Brant lançou ao mundo uma nau tripulada por tolos. Mais de cinco séculos depois, o Brasil embarca sem notar que o navio não tem rumo. O leme está nas mãos dos que acumulam todos os vícios que comprometem um destino: a ganância, o abuso do poder e o desprezo pelo bem comum.

A mudança de nome da Inteligência Artificial para "superinteligência", anunciada por Trump na ONU, não é um mero capricho linguístico. É uma estratégia de poder: transformar a IA em um objeto de fé, intocável e inquestionável, para justificar seu controle por uma elite tecnocrática. Enquanto a China avança na corrida tecnológica, os EUA tentam impor uma narrativa de supremacia, desumanizando o debate e desviando a atenção dos problemas reais: quem controla a IA, como ela é regulada e a quem ela serve.

Em uma época em que o debate público foi reduzido ao espetáculo da indignação encomendada, a democracia não morre por um golpe dramático, mas pela erosão silenciosa do pensamento crítico. O verdadeiro campo de batalha contemporâneo não é apenas político ou econômico; é a disputa pelo controle do nosso imaginário e pela sobrevivência da própria educação pública.

Em setembro de 2026, a política brasileira se resumiu à ação de um falso herói e de uma massa incontinente. Ele, movido por paixões e interesses privados; ela, cega pela akrasia e pela degeneração, aplaudindo o que a destrói. A eleição se tornou palco de mais uma farsa, como outras encenadas na história republicana.

Em um mundo onde algoritmos manipulam comportamentos, elites desprezam a coexistência e o capitalismo de plataformas precariza o trabalho, a sociologia deve ser resistência. Ferramenta para conectar biografias a estruturas históricas, desmontar ilusões de época e recriar o mundo. Uma sociologia pública, que recusa a alienação e aposta na imaginação como arma contra a naturalização da opressão.