
As duas faltas da democracia brasileira
A democracia não morre por falta de regras; morre por falta das normas informais que a sustentam — a tolerância mútua, a contenção do poder e a cultura política que a Constituição de 1988 não criou.

A democracia não morre por falta de regras; morre por falta das normas informais que a sustentam — a tolerância mútua, a contenção do poder e a cultura política que a Constituição de 1988 não criou.

Entrevista concedida na segunda-feira, logo após o primeiro turno das eleições presidenciais, com avaliação do desempenho de Lula no primeiro turno e as perspectivas para o segundo. As pressões externas do governo de Donald Trump, a desinformação que corre solta nas redes digitais e o pânico semeado pelo agronegócio e pelo setor financeiro junto ao eleitorado formam o pano de fundo que as perguntas e respostas não alcançam, e sem o qual nenhuma leitura da disputa é completa.

Em 1494, Sebastian Brant lançou ao mundo uma nau tripulada por tolos. Mais de cinco séculos depois, o Brasil embarca sem notar que o navio não tem rumo. O leme está nas mãos dos que acumulam todos os vícios que comprometem um destino: a ganância, o abuso do poder e o desprezo pelo bem comum.

Em uma época em que o debate público foi reduzido ao espetáculo da indignação encomendada, a democracia não morre por um golpe dramático, mas pela erosão silenciosa do pensamento crítico. O verdadeiro campo de batalha contemporâneo não é apenas político ou econômico; é a disputa pelo controle do nosso imaginário e pela sobrevivência da própria educação pública.

Em setembro de 2026, a política brasileira se resumiu à ação de um falso herói e de uma massa incontinente. Ele, movido por paixões e interesses privados; ela, cega pela akrasia e pela degeneração, aplaudindo o que a destrói. A eleição se tornou palco de mais uma farsa, como outras encenadas na história republicana.

Em um mundo onde algoritmos manipulam comportamentos, elites desprezam a coexistência e o capitalismo de plataformas precariza o trabalho, a sociologia deve ser resistência. Ferramenta para conectar biografias a estruturas históricas, desmontar ilusões de época e recriar o mundo. Uma sociologia pública, que recusa a alienação e aposta na imaginação como arma contra a naturalização da opressão.