Rogério Baptistini

Rogério Baptistini

Rogério Baptistini é sociólogo e professor universitário. Dedica-se à análise das transformações sociais e políticas contemporâneas, com foco na democracia e na realidade brasileira.

A morte das humanidades: como a universidade brasileira se tornou uma escola de obediência

A universidade brasileira deixou de ser um espaço de formação crítica para se tornar uma linha de produção de sujeitos obedientes. Sobo argumento da ‘empregabilidade’ e da ‘eficiência’, as humanidades foram esvaziadas, a reflexão foi substituída pela técnica, e o que restou foi uma geração adestrada para o mercado e suscetível aos discursos autoritários que hoje ameaçam a democracia.

Março de 1976

A história avançava sob a sombra das ditaduras, e eu, uma criança em Araraquara, vivia entre a escola, o futebol e o catecismo. Enquanto generais e torturadores escreviam com sangue as páginas da América Latina, minha vida se resumia a partidas de botão com Evandro Malara, as aulas no Antônio Joaquim de Carvalho e os gols imaginários no estádio municipal. Só mais tarde entenderia que, em tempos sombrios, a infância é um refugio.

A mídia, o STF e o roteiro autoritário

O Supremo Tribunal Federal tornou-se o alvo de uma campanha orquestrada por setores da grande mídia, de políticos conservadores e de elites econômicas. As críticas desproporcionais ao órgão não são inocentes. Elas seguem um roteiro autoritário global, com paralelos claros nos Estados Unidos de Trump e na Hungria de Orbán: ataques às instituições, criação de crises artificiais, uso das redes digitais para amplificar versões e propostas de "reformas" que, na prática, visam capturar o Estado.

O reverso da soberania: de 1947 aos “patriotas” de aluguel

A soberania, quando conveniente, é princípio sagrado. Quando inconveniente, é detalhe negociável. O Brasil de 2026 assiste, com estranha familiaridade, à repetição de um roteiro conhecido: os mesmos que, em 1947, justificaram a cassação do Partido Comunista em nome da nação, apelam hoje a uma potência estrangeira para interferir nos destinos do país. O reverso da soberania tem nome, endereço e partido.

Ratinho, o Torquemada de botequim

Em um país onde a televisão há décadas transforma a miséria em espetáculo e a política em circo, não surpreende que um ex-feirante enriquecido, donatário de concessões públicas e pai de um governador, use seu programa para vomitar preconceitos contra minorias. O que espanta é a naturalidade com que a sociedade aceita que um bufão como Ratinho encarne o pior do homem médio brasileiro: ignorante, endinheirado e certo de que o dinheiro compra até o direito de definir quem é mulher.

Habermas e o naufrágio da razão

A morte de Jürgen Habermas não encerra apenas a trajetória de um dos últimos grandes herdeiros da Escola de Frankfurt: ela expõe o esgotamento do projeto iluminista. Hoje, assistimos ao derruimento da esfera pública pela insensatez algorítmica, que substitui o diálogo pela manipulação e a razão pela fragmentação.

8 de Março: o feminicídio como estratégia de controle social

A luta pelo reconhecimento da plena autonomia feminina é uma batalha concreta. Ela se trava diariamente, em todos os espaços. Hoje, nas ruas, nas casas e nas redes digitais, há a naturalização do ódio e a desqualificação dos direitos humanos. Esse fenômeno é parte de um projeto de poder conservador e autoritário, que avança sobre as conquistas das mulheres e de toda a sociedade.